Colômbia: o melhor ciclismo da América Latina

Prezados,

Desculpem-me a sumida…

Para quem acompanha o ciclismo há pouco tempo talvez tenha dificuldade de entender o título deste post. Mas a velha guarda sabe que a Colômbia é, historicamente, e de longe, a mais tradicional e vencedora nação ciclística da América Latina – e até 1984, quando Lemond obteve seu primeiro pódium no Tour (3o atrás de Fignon e Hinault), e após ter sido Campeão Mundial em 1983, eu diria que a Colômbia era a maior de todas as Américas.

Eu tenho a maior simpatia por este país andino, que fala o melhor espanhol das Américas, e cuja imagem foi tão mal tratada internacionalmente por causa dos cartéis das drogas. Mas seu povo é amável e ama o ciclismo como nenhum outro (acho que nem na Europa se igualam).

A paixão e emotividade é tamanha que era comum um Presidente da República  parabenizar seus ciclistas imediatamente após grandes vitórias na Europa, ao vivo para toda a nação, pelo rádio ou TV…debulhando-se em lágrimas! Eu li sobre isso algumas vezes…em revistas européias! Lendário!

Dona de um terreno acidentado – um ciclista local me disse uma vez, que não conseguia sequer comprar pão na padaria sem escalar uma pequena montanha – os simpáticos colombianos sempre se destacaram e se destacarão nas montanhas. Mas como toda regra tem sua exceção…

Martin Emílio Cochise Rodriguez – num belo dia de 1977 este blogueiro, que desde moleque ouvia falar na ‘armada’ belga, deparou-se com uma publicação que trazia foto e uma mini-biografia deste grande ciclista, que curiosamente também brilhou nos velódromos e nos contra-relógios.

Foi esta foto que me fascinou em 1977

Nascido em 1942 (órfão, pois seu pai faleceu 11 dias antes do parto), este grande escalador (como todo colombiano digno deste passaporte), ganhou 4 vezes a Vuelta a Colombia e 1 vez a Clássica RCN (segunda prova em prestígio naquele país), além de 3 vezes a dura e importante Vuelta a Tachira (na Venezuela). Também foi campeão nacional de Estrada.

Virou profissional na Europa na época de ouro, no auge dos anos 70, correndo pela Bianchi, minha equipe italiana favorita de todos os tempos, sempre ao lado do Campionissimo Felice Gimondi. E mandou bem demais! Duas vitórias de Etapa do Giro (1973 e 75) e uma decente 27a colocação no Tour 1975, feitos que em termos latino-americanos só foram equiparados … por outros colombianos muitos anos depois.

Foto, poster, orgulho nacional e continental

Mas para mim as mais emblemáticas façanhas de Cochise fora no contra-relógio e nos velódromos, afinal venceu muito lá também (e era colombiano escalador!):

  • Campeão Mundial de Perseguição Individual, em Varese, 1971
  • Bi-campeão dos Jogos Panamericanos, 1967 e 1971
  • Recordista da Hora  (para Amadores) – 47,566 km, no  México, em 1970
  • Campeão do então prestigioso Troféu Baracchi 1973 , ao lado do amigo Felice Gimondi

Troféu Baracchi, com Gimondi - ali já estiveram Coppi, Anquetil, Merckx, Maertens, Moser, Hinault, Fignon...

Acho que após tudo isto ninguém se surpreenderá se eu disser que Cochise Rodriguez foi escolhido Deportista de Todos los Tiempos pela Associação Nacional dos Cronistas Esportivos daquele país – ele já havia sido escolhido “apenas” 4 (quatro!) vezes como Esportista do Ano na Colômbia. Chega a ser ridículo imaginar um ciclista brasileiro obter tal honraria em nosso país. Não que não haja talento potencial para isso…mas falta todo o resto!

Chega a ser banal dizer que o lindo e moderníssimo velódromo de Medellin leva o seu nome. Mas e aqui, onde fica o velódromo Anésio Argenton, ou Claudio Rosa, ou Roberto Barbosa? Se bobear os poucos que temos levam nomes de políticos, ou nem nome tem.

...até na Calçada das Estrelas ele está!

Este grande esportista também é um cidadão do mais alto calibre, envolvido em causas humanitárias em seu país.

Outra curiosidade: por que Coshise? Desde sempre o jovem Martin Emilio foi um grande admirador do famoso líder da tribo americana Apache. De tanto falar no grande líder Cochise, seus amigos de pelotão lhe deram o apelido. Orgulhoso disto, anos depois, o apelido tornou-se oficialmente seu nome – e décadas depois, aqui no Brasil, um certo Luis Ignácio da Silva teve a mesma idéia, inseriu o apelido Lula no nome e…o resto todo mundo sabe.

A idéia deste post era tratar do ciclismo colombiano como um todo, mas a nostalgia tomou conta de mim e resolvi escrever apenas sobre Martin Emilio Cochise Rodriguez, numa homenagem a este desbravador latino-americano, que foi e venceu na fria e então distante Europa.

Não sei se é possível entender, nestes tempos globalizados, a dificuldade que um jovem  pobre latino-americano enfrentava para chegar e ser aceito numa Europa fechada e preconceituosa. Quase impossível! Daí a homenagem.

Nos próximos dias escreverei sobre outros grandes campeões andinos.

Hasta luego, Fernando

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About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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16 Responses to Colômbia: o melhor ciclismo da América Latina

  1. Antonio Carlos Hunger says:

    Boa noite
    Mais uma vez parabéns pela brilhante lembrança dese monstro do ciclismo mundial.
    Tive o prazer de conhece-lo eum 1983 em Medelin, onde corremos o panamericano de ciclismo néssa cidade, o velodromo de Medelin leva o seu nome como reconhecimento pelos seus feitos, mais uma vez parabéns
    Antonio Carlos Hunger

    • Grande Hunger, obrigado pelas palavras de apoio!
      Amigos do blog – para quem não sabe, Antonio Carlos Hunger é um dos grandes nomes da história do ciclismo brasileiro, com inúmeras vitórias no Brasil e no exterior, grande perseguidor, medalhista de Panamericanos, etc.! É uma honra tê-lo por aqui! Abs!

  2. Parabens Fernando,belo post,o ciclismo e o povo colombiano sao dignos de admiracao.Hoje e um grande dia para ciclismo colombiano e sul americano,pois Edwin Avila tornou-se Campeao Mundial na prova por pontos derrorando o favorito australiano. Um grande dia.

  3. Leandro says:

    Sensacional. Valeu demais a visita por aqui hoje.

    A vitória hoje do colombiano ainda torna tudo mais legal. Um detalhe, o chileno ajudou o Avila hoje.

    Um abraço e não demore tento para escrever mais.

    • Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

      Muito bom ! PArabéns. Os mexicanos e venezuelanos também são fortes nas montanhas. Procede ?

      • Oi Rogério, obrigado! Procede sim, só que uma intensidade menor. O México produziu Raul Alcala, grande ciclista profissional dos anos 80 que correu e brilhou no Tour de France, ao lado de Sean Kelly. Já a Venezuela tem o Jose Rujano, que foi 3o do Giro 2005….para cair no ostracismo.
        Equador e Chile também têm bons escaladores, mas apenas no plano regional. E a Bolívia teve Edgar Cueto, que andou muito bem nos anos 70, inclusive aqui no Brasil, na 9 de Julho!
        Abs!

    • Muitíssimo obrigado, Leandro. Vindo de um profissional das letras – e do seu quilate – me enche de satisfação! Abraço! F.

  4. SERGINHO says:

    muito legal a matéria só me esclare uma coisa a ordem dos nomes no poster não esta errada?
    um abraço

    • Oi Serginho, obrigado! Sim, a ordem está invertida no final. Cochise está vestido com o uniforme Bianchi e Gimondi com o ‘tricolor’ de Campeão Italiano. E Basso com o de Campeão do Mundo…e o já veterano Vitorio Adorni dentro do carro. Abs!

  5. Uma correção, Serginho: o signore Adorni era do direttore sportivo da Bianchi nesta época e por isso estava no carro e com um uniforme diferente…”desculpe a nossa falha”. Abs!

  6. Antonio Carlos Alves says:

    Oi
    Fernando

    Eu tb fui um grande fã da casa (Bicicletas) Edoardo Bianchi
    Por lá passaram grandes nomes sendo o maior deles, claro o
    “campionissimo” Fausto Angelo Coppi.

    Você está muito de parabéns resgatando a história dos anos 70
    uma década que marcou história.

    Eu conheci o Martin Emílio Rodriguez “Cochise” pessoalmente quando ele correu aqui na Volta de São Paulo pela equipe da Colombia.
    Um cara pra lá de alegre, estava sempre fazendo graça. Um grande ciclista e um grande cara.
    Bateu o recorde amador da hora no Velodromo do México e poucos citam esta feito.

    Quanto ao Sérgio Carvalho um dos bons pistard’s da época do Velódromo da USP, mas o que eu admirei nele tb foi a facilidade de expressão aliada ao conhecimento, qdo ele participou certa vez na televisão como comentarista.
    Recentemente através do Feceboock eu vi que ele era formado em publicidade.
    Era um cara para ser aproveitado nas coberturas (fracas) da Globo.
    Já que estamos falando do ciclismo Colombiano que tal vo falar do grande escalador
    Luis “Lucho” Herrera. O homem que deu calor ao grande Bernard Hinault e Greg Lemond.

    Abraços
    A.Carlos “Biskuy” Alves

  7. Antonio Carlos Alves says:

    Fernando
    Quero retificar aqui que, qdo eu cito as coberturas de ciclismo na Globo quase sempre fracas, (com raras excessões) não inclui os comentários do Prof. José Rubens D’Elia ou mesmo dos locutores, mas sim o pouco espaço dedicado ao nosso esporte.
    O José Rubens é um grande amigo trabalhamos juntos na Caloi é um dos melhores preparadores físico de São Paulo e com um grande conhecimento de ciclismo. Então retificando, o Sergio só viria a acrescentar (é minha opinião pessoal).

    Sobre Edgar Cueto o boliviano que ganhou a 9 de julho em 1978. Eu acompanhei sua vitória e passei apurado. Eu dirigia a minha moto de apoio com o técnico boliviano na garupa. A Prova saiu de Santos com chegada na av. Paulista e o técnico segurando uma roda reserva em cada mão pulava na garupa feito doido, não sei como não caí com a moto. Foi mesmo uma vitória de um boliviano bom de montanha eu eu cheguei são e salvo no meio daquela bagunça de motos, carros e lógico de ciclistas. Sufoco total.

    • Que legal ouvir estas tuas histórias do ciclismo. Acho o máximo você ter vivido tudo isso…eu era garoto, 15 anos, fui aprendendo porque pesquisei e voltei a pesquisar agora. Lembro-me perfeitamente do Edgar Cueto, foi em 78. Em 77 foi o Miguel Duarte, em 77 o uruguaio Castroman. Em 79 foi o Lima…Grandes tempos!
      Apenas sinto que o Ricardo Venturelli, meu ídolo e mais tarde colega de equipe no Jabaquara (junto com o Sergio de Carvalho Jr), nunca tenha vencido a 9 de Julho…
      Eu conheci o D’Elia. Treinei com ele. Sabe das coisas, mas na Globo eu acho que não funciona, tenho a impressão que o narrador (que não tem idéia do que é ciclismo) fala uma coisa e ele responde outra…a melhor transmissão é da ESPN no Tour…o narrador já entende da coisa e o comentarista é um Anderson (acho que é o Celso), que também entende….mas é um tanto atrapalhado…rsrs
      Para falar na TV não basta entender de ciclismo. Tem que saber se comunicar. Ter ‘timing’. Cultura geral, etc. Um dia vou tentar também. rsrs
      Abração e obrigado pelas visitas e comentários!

  8. Antonio Carlos Alves says:

    Puxa Fernando tenho certeza que vai dar praia, ou melhor vai dar santistas na parada.
    precisamos de gente que entende e sabe se comunicar.
    Quer um exemplo, em Portugal um cara que deu certo Marco Chagas.
    Porque não em São Paulo (Brasil) Fernado Blanco e Sergio de Carvalho?

    Falando em histórias e em Ricardo Venturelli, tenho uma história com foto (Vou postar) no campeonato brasileiro (garfado) em Recife. Depois eu conto.

    Falar no ciclismo de Santos a baixada deu muitos bons ciclistas, e um eles foi o irmão do Ricardo o Eduardo Venturelli.

    Abraços

    A. Carlos

  9. Luis says:

    Fernando, excelente artigo!
    Valeria a pena fazer uma materia sobre o Lucho Herrera também, um dos melhores escaladores de todos os tempos.
    A Colombia esta voltando a producir bons ciclistas, depois do Herrera, Parra, Oliverio Rincon, Alvaro Mejia e o Santiago Botero. Vem uma geração nova, com o Rigoberto Uran, Fabio Duarte, Sergio Luis Henao, Nairo Quintana (ganhou o Tour de l’Avenir em 2010), e o coitado do Mauricio Soler.
    Abraço!

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