Saber a hora de parar… – Parte I

Caros,

Seja lá qual for a profissão, chegar no topo dela – ser o número 1 – é muito difícil e para poucos. Além de ser muitíssimo competente, é necessário ter uma obstinação sem igual e “casca grossa”, para enfrentar uma competição implacável (e fofocas, politicagem, etc.).

Só que, como em tudo na vida, chega uma hora que a “fila precisa andar”, para que outro líder assuma o lugar. Só que é muito difícil “largar o osso”… liberar o trono e assistir a coroação de outro rei…

É isso que vamos discutir nesta série de posts. Vamos analisar como isto aconteceu com os grandes “reis” do ciclismo profissional, sendo o primeiro da série:

FAUSTO COPPI

A carreira deste Campionissimo foi um fenômeno sob todos os aspectos. Venceu seu primeiro Giro d’Italia aos 21 anos de idade e continuou vencendo muito até os 34. Uma carreira longeva, especialmente porque eram tempos muito difíceis. Corria-se o ano inteiro, as estradas eram mal e porcamente asfaltadas (quando o eram…) e as provas longas, muito longas. E fazia parte da cultura do ciclismo atacar de longe, manter-se destacado e meter 10 minutos no segundo colocado – e Coppi era especialista nisso, segundo seus amigos e inimigos. Ou seja, ser ciclista de ponta era de um desgaste sem igual.

Coppi, A Lenda

Coppi também foi famoso por ser considerado um “inovador” no consumo de anfetaminas (que não era proibido!) e pelo longo caso amoroso que manteve com La Dama Bianca, Giulia Occhini. Numa Itália ultracatólica, o fato de ambos serem casados e amantes era tão inaceitável, que até o Papa Pio XII se manifestou publicamente com o “caso” do Grande Fausto. O Papa até se recusou a dar a benção na largada do Giro quando Coppi dele particpava. É mole?…

Mas de volta para o “saber parar” deste post, observem o seguinte:

  1. Coppi venceu tudo: 5 Giros, 2 Tours, 1 Mundial, 5 Giro di Lombardia, 3 Milano-Sanremo, 1 Paris-Roubaix e 1 Flèche Wallone, entre muitas outras provas de alto calibre.
  2. Mas acontece que o último Grand Tour vencido por Coppi foi em…1953 (aos 34 anos).
  3. E ele correu até morrer (literalmente), aos 40 anos, em 1960.

Em outras palavras, foram mais 6 anos vencendo pouco – em especial para o padrão dele. Mas nos seus últimos 3 anos de carreira (e de vida) Coppi foi uma paródia daquele Campionissimo de outros tempos. Ele tornou-se um “produto”, sendo convidado para “criteriums” (ou Kermesses, na Bélgica) que chegavam a ser encurtados caso ele não estivesse bem no dia. Eram corridas de 45 km, feitas ‘sob medida’ para que o ex-Campionissimo em fim de carreira não desse vexame – detalhe: sempre entupido de bombas (como diziam na Itália).

Em 1960, com quase 41 anos de idade, um Fausto Coppi para lá de decadente cometeria um último desatino, aceitando o convite para correr em Burkina Faso, na África. Pois foi lá, ficando em hotéis de terceira categoria, que o Campionissimo e seu leal amigo e co-equipier Raphael Geminiani (francês e não italiano) passavam as noites lutando contra mosquistos, que transmitiam malária (fato que desconheciam, aparentemente) e que os infectarm. Geminiani sobreviveu, o Grande Fausto não.

E por que tudo isto aconteceu? Por que Coppi não abandonou sua carreira no auge e permitiu-se tornar uma pálida sombra do campeão do passado? Por que seguir destruindo uma imagem sem igual na história do ciclismo? Há duas hipóteses razoáveis:

1. Dinheiro: ganhava-se pouco com o ciclismo daqueles dias e continuar correndo dia sim, dia também, era necessário para manter o padrão de vida.

2. Ego: apesar de tudo, onde Coppi pisava havia gente para aplaudí-lo e isto funcionava (e continua funcionando) como uma droga para aqueles cuja vaidade é igualmente dopada.

Nos próximos posts falaremos de outros Grandes Campeões e seus últimos dias de estrelato.

Abraços, FB

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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One Response to Saber a hora de parar… – Parte I

  1. Eduardo says:

    Fernando,
    Parabéns pela iniciativa do blog, pelo blog e principalmente pela alta qualidade do material publicado.
    Um 2011 cheio de muitas montanhas e planices para percorrermos

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