Embaladores e Lançadores

Eu sempre fui fissurado por um bom sprint de pelotão. A adrenalina que toma conta do ciclista depois da ‘flame rouge’ (bandeira vermelha, em francês, que indica o último quilometro da prova) é insuperável. Eu fui bom (não vencedor!) sprinter na categoria Juvenil e agora como veterano, mas quero falar mesmo é de sprint de verdade!

Existem dois perfis de sprinters vencedores:

  1. Perfil 1: Aquele que vai pulando de roda em roda e, de repente, aparece na roda    do sprinter que está na na ponta. Faltando 100 m, graças a sua aceleração final, sai da roda e vence. Os melhores exemplos recentes deste perfil de sprinter são os já  veteranos Robbie McEwen e Oscar Freire.
  2. Perfil 2: Aquele que gosta de ter um ‘trem’ formado pela sua equipe, puxando o pelotão nos últimos quilometros a 60-65 km/h, e que o deixa embaladíssimo na ponta a 200 metros da linha de chegada. Os melhores exemplos desta categoria são os italianos Mario Cipollini e seu ‘herdeiro’ Alessandro Petacchi.

Quanto aos primeiros, devo dizer que não é que eles não gostem da ‘moleza’ de ter uma equipe para ajudá-los…é que ao longo das suas carreiras, por um motivo ou por outro, nunca tiveram boas equipes à sua disposição. Então tiveram que desenvolver outras habilidades para chegar na ponta do pelotão na hora do sprint.

Estes ciclistas tem, no máximo, um ou dois colegas para levá-los até a cabeça do bloco e, depois, “boa sorte”. No Tour 2002, que eu tive a oportunidade de assistir algumas etapas ao vivo, o sprinter-maison (expressão francesa) da equipe italiana Lampre era o checo Jan Svorada. A equipe não tinha como formar um ‘trem’, mas tinha o nosso Luciano Pagliarini com a função de ‘pilotar’ o Svorada até alguma roda boa no último quilometro. E o Pagliarini fez isto tão bem que, apesar do esforço que fazia, chegou variás vezes entre os 10 do pelotão que sprintava, com o Svorada entre 3 ou 5 primeiros. Tive o prazer de conversar com o ‘Paglia’ no final das etapas e papear sobre esta tarefa duríssima e pouco valorizada pelo torcedor tradicional, que não enxerga (fisicamente!) este trabalho.

Mas vamos ao tema deste post: os embaladores são todos aqueles ciclistas que assumem a ponta do pelotão e o levam até a arrancada decisiva. Quando a equipe é totalmente dedicada para o sprinter (como era o caso da Saeco do Cippolini ou a Quick Step do Boonen), todos os ciclistas com alguma reserva de energia vão para a ponta no trecho final da corrida. As vezes são 5, as vezes são 7 ou 8! As vezes começam  a embalar com 10 km para a conclusão da corrida, as vezes só conseguem se organizar nos últimos 2 ou 3, depende. As lógicas:

  • Proteger seu líder de quedas e mantê-lo bem colocado, evitando que ‘deslize’ para o meio do pelotão, tendo que fazer um esforço tremendo para retomar à ponta
  • Evitar fugas oportunistas no fim da prova ou Etapa. É por isso que socam na ponta a 60 km/h, eliminando a maior parte dos ataques

Um  grande embalador é um grande rolador que talvez não seja tão bom no contra-relógio (talvez lhe falte boa concentração, talvez não sustente o rítmo por dezenas de quilometros). Por outro lado, ele aguenta rolar a 60 km/h durante 5 km, depois de 200 km de corrida fazendo papel de gregário (vai e vem no carro buscar água, etc., etc.)!

Já os lançadores são tipos diferentes. Este é o último ciclista da fila e que deixa o sprinter líder em condições perfeitas para finalizar a corrida. Na minha visão, um grande lançador é um ótimo sprinter que, por razões diversas, preferiu abrir mão de suas próprias chances para  ajudar um colega mais forte.

Abaixo, alguns grandes exemplos de lançadores.

1. Mark Renshaw (HTC) e Julian Dean (Garmin) são homens de confiança dos melhores sprinters do momento (na minha humilde opinião…), que são Mark Cavendish (o melhor, na minha opinião) e Tyler Farrar. Notem que o nosso craque Murilo Fischer é um embalador, mas não o lançador de Farrar. Dean já passou dos seus melhores dias, mas ainda é suficientemente explosivo, além de ser muito técnico e experiente. Já Renshaw é explosão pura…e um tanto descontrolado (coisas da juventude…).

2. Gian Matteo Fagnini foi filmado e fotografado muitas dezenas de vezes com as mãos para o alto, celebrando vitórias no sprint…de Mario Cipollini (na Saeco) e de Erik Zabel (Deutsche Telekom)! Ele era uma grande esperança do ciclismo italiano, mas logo percebeu que ganharia muito mais dinheiro sendo o braço-direito de Super Mario ou Zabel do que sendo um sprinter Top 5. Aliás, Fagnini foi o primeiro lançador-celebridade da história: primeiro foi convidado e muito bem pago para apoiar Cipo e depois foi roubado a peso de ouro pelos alemães. Curiosamente, ele acabou sua bem sucedida carreira na Naturino-Sapore di Mare, ao lado do nosso Murilo em seu ano extraodinário ano de 2005.

Venceu pouco, mas muito ganharam muito graças a ele!

3. Marc de Meyer, da Bélgica, foi mais do que um lançador de Freddy Maertens, foi amigo, confidente, protetor…e campeão! O gigante Marc era o homem que ajudou Maertens a vencer 8 etapas do Tour em 76, 7 do Giro em 77, 13 da Vuelta também em 77…e muito mais. Mas como os tempos eram diferentes, o ‘lançador’ De Meyer também foi um vencedor: venceu a Paris-Roubaix de 1976 (na frente de De Vlaeminck e Moser) e a (então prestigiosa) Paris-Bruxelas de 1974, entre muitas outras vitórias de etapas e semi-clássicas. Faleceu em 20 de janeiro de 1982 (dia do meu aniversário de 20 anos…que presente para este fanático torcedor do ciclismo belga, hein?!) – o motivo? Coração…por que? Adivinhem…

"The Gentle Giant"

É isso, amigos, fica aqui a nossa homenagem a estes heróis pouco reconhecidos ou valorizados!

Abs, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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10 Responses to Embaladores e Lançadores

  1. Eduardo says:

    Gostaria de saber o q a Garmin vai fazer com o seu campeão mundial esse ano, será q participará somente das clássicas? Se for p/ o Tour, vai trabalhar p/ o Farrar? E Giro? Será q o sprinter será ele (Hushovd)? Ou Haussler (se até lá o Cavendish n o derrubar e machucá-lo em alguma prova)? Ou talvez Goss? Se o Farrar n for p/ o Giro, será q o Dean tb n vai? Murilo teria mais chance de participar? E Milão-San Remo, será q vai toda essa turma de sprinters p/ a prova?
    Putz! Qtas dúvidas! Melhor aguardar e deixar os caras decidirem.

    • Sessão Palpite: acho que o Hushvold vai focar a temporada dele à la Cancellara, i.e. Clássicas do Norte + Tour. Mas eu acho que o Thor irá tentar ganhar etapas de sprint massivo, porque Cav + Farrar estão mais rápidos do que ele. Penso que irá explorar fugas, a la Cancellara. Quanto ao Giro, seria uma boa chance para o rápido Goss, não?! E Milano-San Remo é corrida para todos os tops correrem pra ganhar!!! Abs!

      • Leandro Bittar says:

        Na Milão-São Remo devem estar todos: Thor,Haussler, Farrar e…Murilo.
        No Tour, Hushovd deve ter alguma etapa mista como alvo, mas os sprints ficam com Farrar.
        Agora, a pressão para o Thor está na Paris-Roubaix. Se ele vencer a temporada está ganha.

        Fernando, acho o trabalho dos lançadores muito bonito. O que o Dean fez pelo Farrar na primeira vitória dele no Giro do ano passado foi demais. Assim como o Renshaw na última etapa do Tour em 2009.

      • É Leandro, a dupla Roubaix – Flandres deste ano terá um grupo de ponta, em forma e motivado, como não se vê há tempos:
        1. Cancellara – louco para ser manter no topo
        2. Boonen – louco por uma revanche e voltar a vencer
        3. Hushvold – louco para honrar o seu arco-íris
        4. Gilbert – louco para ganhar a sua primeira do norte
        5. Devolder – louco para mostrar serviço na Vacansoleil e pro Lefevere que ele ainda é bom
        Enfim, como diria um corintiano, “aqui tem um bando de loucos, sou louco por ti ciclismo”…

  2. Antonio. says:

    sempre acompanho seu blog, matérias completissimas.
    Parabéns.
    Antônio.

  3. José Carlos SBC/SP says:

    Pô Fernando, quando eu ajeitei melhor a poltrona pra continuar lendo (viajando) acabou a história?!?! sacanagem hem!!
    Valeu!
    em tempo, torço para o Boonem.

  4. Clayton says:

    Excelente matéria. Parabéns. No caso do ciclismo nacional, quem seria o cara do Perfil 1 ? Bruno Tabanez talvez ?

    • Clayton, obrigado! Quanto a sua pergunta, por mais ridículo que pareça, eu conheço muito mais o ciclismo internacional do que o nacional (até porque temos total acesso às corridas, análises e resultados do que acontece lá fora…enquanto que aqui….que dureza). Deixo para que outros amigos, que estejam no pelotão, respondam quem-é-quem no ciclismo brasileiro. Abs!

  5. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Algumas vezes a coisa descamba para verdadeiras inimizades . Vide Cavendish e Greipel.

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