Drama, lágrimas: show português em Santos e São Paulo

Em função da reação tão positiva do post histórico Caloi x Pirelli e os pedidos para mais posts históricos do ciclismo brasileiro, segue um que trata de um belíssimo momento que eu vivi de perto…da calçada!

Nos anos 70 o ciclismo de Santos era muito vigoroso. Digo isso porque éramos uma população de pouco mais de 400 mil habitantes que tinha um Liga própria (a Liga Santista de Ciclismo), Campeonato e Ranking anual próprios, 5 clubes disputando-os arduamente em todas as categorias da época (Estreantes, Infantil, Juvenil e Especial). E era comum que de vez em quando algum estrangeiro passasse por lá para uma corrida-exibição.

Ah, e “os paulistas” (como eram chamados as feras de Caloi e Pirelli, principalmente) viviam correndo por lá quando a FPC (Federação Paulista) não organizava corridas na Capital. Enfim, o ciclismo de Santos tinha vida própria e gerava muitos campeões em nível paulista e brasileiro.

Pois bem, numa chuvosa e fria manhã de domingo, em agosto de 1977, o ciclismo de Santos – e talvez do Brasil – viu uma das maiores exibições de raça e competência de um ciclista. Convidado de honra para correr a prova de aniversário do clube luso-santista Tricanas de Coimbra, o jovem português Antonio Manoel Pestana Lima Fernandes (do clube Águias de Alpiarça) veio, viu e deu show no circuito montado em volta do lendário estádio de futebol do Santos F.C., a Vila Belmiro.

Lima Fernandes, como era chamado, tinha apenas 21 anos e era considerado pela imprensa especializada de seu país como uma das grandes promessas do ciclismo lusitano. Detalhe: Portugal via o seu lendário campeão Joaquim Agostinho envelhecer (ainda que com imensa categoria) e este jovem parecia ser um dos seus possíveis sucessores.

E pedigree não lhe faltava, dado que era filho de outro Lima Fernandes, que competiu nos anos 50 e era igualmente ciclista campeão, competindo pelo mesmo clube da cidade de Alpiarça.

Lima Fernandes, Pai: vitórias de etapa na Volta a Portugal, bicampeão de pista e muito mais

Enfim, a vinda de um jovem campeão Português gerou um furor sem igual no ciclismo Santista, Paulista e Brasileiro. A prova principal, corrida em 88 kilometros, teve um padrão: o pelotão contra o solitário ciclista lusitano, que não dava chance para ninguém escapar. 

Só que a sorte não embarcou no voo da Varig que o trouxe ao Brasil. Lima Fernandes furou furou 2 vezes e enfrentou demoradas trocas de rodas ou bicicleta (além dos tradicionais problemas com corrente, cambio), pois estava sozinho. Quer dizer, ele estava sozinho na pista, porque o circuito de 2 kilometros de extensão estava apinhado de patrícios que torciam para ele com paixão nunca vista em Santos ou em São Paulo.

Cada vez que o português furava era uma comoção nas calçadas do centenário bairro da Vila Belmiro e uma multiplicação de arrancadas no pelotão: “O português furou, puxa, puxa!!” era a gritaria enquanto Pirelli, Caloi e consortes iam pra ponta e socavam à morte.

Mas o que lhe faltava de sorte, sobrava-lhe de raça, força mental e preparo físico. Após passar a corrida toda caçando adversários e o próprio pelotão, a corrida parecia encerrada para Lima Fernandes quando, de repente, ele encosta no pelotão justamente quando tocavam o sino informando a última volta. Na minha frente! Eu estava trepado num muro em frente da linha de chegada e vi o feito inimaginável.

A torcida nas calçadas (incluindo este blogueiro, que tinha 15 anos e acabara de ficar num razoável 6o lugar na prova para Juvenis federados) não acreditava no que via. Entre perplexos e eufóricos, todos aguardavam aqueles intermináveis 3 minutos que nos separavam do sprint final.

E, apesar da presença de Ricardo Venturelli, um dos ciclistas mais rápidos da história do ciclismo brasileiro, DEU LIMA FERNANDES NO SPRINT !!!

I-N-A-C-R-E-D-I-T-A-V-E-L.....E-M-O-C-I-O-N-A-N-T-E !!!

Ninguém acreditava no que via! O centenário jornal A Tribuna de Santos, que cobria o ciclismo santista com fartura naqueles tempos em que as mensagens não precisavam se limitar aos 140 caracteres do Twitter, escreveu:

“Portugal ganhou! Portugal ganhou!” Gritando frases assim e chorando, os espectadores portugueses e filhos de portugueses, que acompanhavam a prova internacional do R.C. Tricanas de Coimbra, invadiram a pista para abraçar o o ciclista português Antonio Manoel Pestana Lima Fernandes, que acabara de vencer uma das provas mais emocionantes que já se realizaram em Santos.

Ricardo Venturelli e o já veternao Serafim Bontempi (ambos da Pirelli) completaram o pódium da 1a Categoria, seguidos do fortíssimo catarinense Severino Faez, que ainda corria pela Consul.

Na foto, bem à esquerda, aparece Daves Fernandes Pereira, de Limeira, que já foi comentado neste blog. Apesar de ainda correr pela 2a Categoria, ele cruzou a linha de chegada em 3o lugar. Ele tinha um sprint realmente muito forte, às vezes mais forte do que os da categoria superior.

Em 1978 – Festejado como herói pela colonia portuguesa e pela nossa imprensa, Lima Fernandes voltou ao Brasil em 78. Correndo na mesma prova anual do Tricanas de Coimbra, Venturelli conseguiu sua revanche vencendo a corrida de 101 km num sprint sensacional. O português, que chegou aqui bastante doente, puxou a prova inteira, neutralizou todas fugas, mas acabou ficando apenas em 17o. Eu fui vê-lo depois da corrida e ele estava destruído física e moralmente, infinitamente diferente do ciclista feliz e realizado de 12 meses atrás.

Na semana seguinte, ainda em Santos, mais 103 km com vitória no sprint de Severino Faez (já correndo pela Pirelli). Mas com Lima Fernandes, bastante recuperado, em 2o. Em seguida chegaram Daves Fernandes e Venturelli.

Enquanto muitos diziam que o gajo havia perdido o enquanto, ele resolveu ficar mais uma semana e enfrentar seu maior desafio – maior? – numa prova de 120 km nas rampas da Cidade Universitária/USP, em São Paulo. Só que desta vez a ‘armada’ da Calois estava em peso e todos esperavam que não ia ter moleza…bem, foi só colocar umas subidas e Lima Fernandes não precisou do sprint para vencer. Ele largou todo mundo e triunfou sem demonstrar esforço. Marcou época.

Mas esta grande promessa do ciclismo português viria a falecer do coração poucos anos depois, para surpresa de todos, cercado de comentários que o doping era o grande culpado desta perda.

Acreditem, escrevo estas palavras arrepiado de emoção ao reviver estes momentos de ciclismo da maior categoria, que eu testemunhei em 1977 e 78.

Abraços, FB

PS: Joaquim Agostinho, que vale um post apenas sobre ele, venceu a antiga Volta do Estado de São  Paulo, em 1968, quando ainda era bastante jovem. Já veterano, viria a conquistar 2 vezes o pódium do Tour de France, em 77 e 78 – justamente quando seu jovem compatriota brilhava aqui no Brasil.

PS2: Outro fato: esta Volta paulista foi organizada pela FPC quando esta era dirigida por um Santista…o lendário dirigente Hilário Diegues (este também merece um post exclusivo).

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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6 Responses to Drama, lágrimas: show português em Santos e São Paulo

  1. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    O cara é uma moto !

  2. Oi Fernando…

    Muito legal seu blog que acompanho desde o inicio…ciclismo brasil e maglia rosa vejo diariamente…

    tb tenho um blog e moro em sjcampos… http://www.bikeblogsjc.blogspot.com

    Muito bacana suas historias,até pq eu to pedalando faz somente uns 3 anos,então um monte de coisas ainda são novas pra mim…

    parabens e grande abraço…

  3. José Carlos SBC/SP says:

    Outro post maravilhoso Fernando, parabens!
    Vê se não demora para colocar outro hem, acredito que histórias não faltam na sua biblioteca, hehehe
    abraço

  4. Giuseppe Vivi says:

    Se não é meu amigo Fernando Tadeu Blanco…
    O grande historiador do ciclismo.
    Lá estava eu também, iniciando minhas corridas, na Juvenil no GD Gama.
    Com nosso saudoso Hilário Diégues e inesquecíveis “3 voltinhas pra juvenil”
    Parabéns pelo blog.
    O vírus das “magrelas”, até hoje ainda circula no sangue.
    Grande abraço!

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