TESTE: Quem foi o ciclista mais inseguro da história do esporte?

O nome dele é: Edouard Louis Joseph…MERCKX!! O nosso bom, velho e único Eddy Merckx.

Antes de continuar, uma pequena explicação para o nome de Eddy: o nosso campeão é belga da região flamenga do Brabant, onde a capital bilingue Bruxelas está inserida (é como aqui, em que Brasília está inserida em Goiás – Merckx seria Goiano aqui no Brasil…rsrs). Portanto, apesar de flamengo, Eddy Merckx teve forte influência francesa e por isso ele tem três (!!) prénomes franceses para um sobrenome flamengo. Isso era comum na Bélgica, também pelo fato do lado ‘afrancesado’ (a Valônia) ser economicamente e politicamente dominante – mas isso mudou radicalmente nos últimos 20 anos!

Insegurança aguda – mas como alguém que era chamado de CANIBAL, porque era devorador de adversários e conquistador de todas as corridas possíveis e imagináveis, ser inseguro? Pois é assim que ele se define. E assim que o seu biográfio Rik Wanwalleghem o define. E é assim que adversários falavam, como Bernard Thevenet (vencedor do Tour de 1975 e 77).

Tudo começou em 1969, ano da sua primeira participação no Tour de France, em que ele venceu “apenas” a Classificação Geral, por Pontos, da Montanha e a de Melhor Jovem (mais 6 etapas).  Pouco tempo depois desta magistral atuação no Tour, mais precisamente no dia 9 de setembro, a vida do jovem e fenomenal Merckx mudaria (para pior): ele participava de uma corrida no vácuo do derny no velódromo de Blois, na França, quando sofreram (Merckx e seu piloto) uma queda tão espetacular quanto trágica. O piloto do seu derny, Fernand Wambst, morreu no local e Eddy sofreu uma séria contusão na cabeça e nas costas.

PS: derny são aquelas motocas usadas em certas provas de velódromo, como o Keirin e o Meio-fundo, assim como algumas antigas de Estrada, como Bordeux-Paris, Criterium des As, etc.

Eddy Merckx: “Depois daquele momento eu nunca mais fui o mesmo. Depois de Blois a dor esteve comigo o tempo todo e eu cheguei a chorar de dor no selim”.

Campeão abatido. Dor crônica...vitórias idem

Uma vez, ao ser perguntado por que atacava tanto sua resposta foi: “Porque eu sou muito inseguro. Temo ser batido no sprint, temo que outro corredor fuja”.

Johan de Muynck (vencedor do Tour de Suisse 76 e Giro d’Italia 77): “(além de ser o maior campeão) Merckx era também o maior estranho do pelotão. Ele nunca deixava sua personalidade aflorar, temeroso que alguém penetrasse nela e descobrisse alguma fragilidade. Ele não deixava ninguém perceber alguma fraqueza nele”.

Seu biográfo descreve sua incapacidade de tomar decisões importantes e a importancia de sua esposa Claudine em sua vida, pois ela sempre teve uma personalidade oposta da dele. Merckx era uma pessoa perturbada, sempre preocupado com tudo e reclamando de tudo: ele se dizia hipersensível e mudava de idéia o tempo todo (por exempo, com a altura do selim antes de uma corrida).

Thevenet: “Merckx reclamava de tudo, do menor mal-estar. Apesar de continuar vencendo tudo. Isto começou a dar nos nervos. Era quase degradante para nós. Apenas imagine quão dominante ele seria se não tivesse estas doenças!”

Merckx: “As minhas incessantes reclamações tinham a ver com a gritante incerteza que vivia dentro de mim. Eu estava constantemente ansioso, nervoso e focado, porque eu não estava totalmente certo do que eu era capaz de fazer”.

Da biografia “Eddy Merckx – o maior ciclista do século XX”: quanto mais Mercxk vencia mais ele se questionava quanto a sua capacidade de repetir tais feitos.

Mais uma novidade: o atleta de altíssima performance, que pedalava centenas de kilometros por dia, DORMIA MAL, muito mal! Palavra do ex-equipier Jos Huysmans e da esposa Claudine.

Jos: “Ele tinha dificuldade para pegar no sono. Muitas vezes o hotel tinha que conseguir máscaras e plugues para ajudá-lo a dormir. Normalmente ele se deitava e continuava acordado. Nunca havia tranquilidade em sua cabeça. Havia uma tremenda pressão externa sobre ele, mas é preciso ser dito que ele se impunha muita pressão”.

Claudine: “Ele costumava se deitar preocupado, ficava tossindo e se virando a noite toda. Ele regularmente se levantava no meio da noite e se escondia na garagem para ajustar sua bicicleta. Felizmente ele envelheceu e seus hábitos noturnos melhoraram”.

Concluindo eu pergunto: dá para ser feliz assim? Ele foi um campeão sem igual, mas sua vida enquanto esportista foi PERTURBADA e INFERNAL!! Fora da bicicleta Merckx era pressionado pelas coisas mais tolas. Exemplos: era obrigado a dar entrevistas em flamento e francês para provar que era “belga por inteiro”, era questionado o tempo todo se sentia-se mais flamengo ou mais valon…DUREZA, ABSURDO!! E as dores e o cansaço constantes, piorados pelo sono ruim? Nada invejável…

Bem, amigos, este é um lado menos glamouroso da biografia do maior campeão da história do nosso esporte, que é conhecido por poucos. Taí para nossa reflexão: até que ponto vale a pena tanto sacrifício para se manter no topo. Cada um com a sua resposta.

Abração, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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7 Responses to TESTE: Quem foi o ciclista mais inseguro da história do esporte?

  1. Juca says:

    belo post Fernando… essas são coisas por de trás das vitórias… nem tudo é doce nessa vida!

    • Muito obrigado, Juca! Como dizem nos EUA, “there’s no free lunch” (não tem almoço grátis). Para ganhar tanto e sempre o cara tinha que ser meio psicopata…

  2. FABIO GUZZI says:

    Sensácional Fernando … eu sempre admirei muito o EDDY , apesar de não ter visto correr , mas não sabia desse perfil do Canibal não .
    Grande abraço e bom carnaval Fernando .

    (( Não esqueci do Daves para pedir algumas fotos , mas estou sem tempo no momento , muito trabalho , treino e criança pequena (precisa de mais ? )

    ABRAÇOS

  3. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    É por essas e outras que vemos tanto esportistas envergando para o lado do álcool e das drogas. Exemplos conhecidos : Pantani, Ulrich, o jogador Adriano, etc. Muita pressão quando se está no topo. Cobranças, cobranças e mais cobranças. Hoje em dia está pior ainda, pois naqueles tempos não haviam os recursos tecnológicos que tornam instantâneas quaisquer notícias sobre a vida pessoal do atleta.

  4. Olga Feitor says:

    Olá Fernando, vejo que sabe muito sobre ciclismo, eu tenho andado a pesquisar um pouco sobre Réne van Meenen e gostaria de saber se me pode dar alguma informação acerca da vida actual desse Senhor. Gostaria de saber se ele actualmente vive em Geel, pois penso que ele é pai de um amigo de quem nada sei à vários anos e talvez através do senhor Van Meenen pudesse obter alguma informação. Obrigada!!

    • Olá Olga, obrigado pela visita. Suponho que seja de Portugal. Não conheço este ciclista, apesar de conhecer a pouco conhecida Geel (estive lá para assistir o prólogo da Volta da Bélgica de 1989). Se eu descobrir algo, voltou a me comunicar com você, ok? Um abraço!

      • Olga Feitor says:

        Obrigada Fernando. Sim sou de Portugal , sou de uma terra que se chama Vila Franca de Xira, mas vivo perto de Lisboa.
        Pois o senhor Van Meenen foi um ciclista muito conhecido (na Bélgica) na época em que corria mas tudo isso terminou em 67 quando deixou de correr . É mesmo …Geel é uma cidade muito pouco conhecida mas muito bonita e apesar de nunca lá ter estado tenho uma ligação muito grande a essa cidade Flamenga e ainda não perdi a esperança de a visitar um dia. Eu tenho pesquisado a saber se realmente o senhor Van Meenen mora em Geel, só que os registos acerca da vida dele se resumem ao tempo em que ele era ciclista.
        Agradeço mais uma vez ter respondido ao meu apelo e devolvo o abraço !!! Olga!!

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