Nos tempos do ciclismo Amador: Corrida da Paz

Caros – a pedidos, escreverei sobre a época em que o ciclismo (em todas as suas modalidades) se dividia em Junior (ciclistas com idade de 17 e 18 anos apenas), Amador e Profissional. Não havia Sub-23. O sujeito podia ter 30 anos e continuar como Amador e, apesar de toda experiência, correr com a garotada.

O Amador era um ciclista que tinha todo tipo de apoio do seu Clube (sim, Clube e não Equipe como conhecemos hoje), mas não recebia salário, não tinha vínculo empregatício, etc. Ao menos oficialmente. Naquele tempo, e aqui eu digo antes de 1996, apenas Amadores competiam nos Jogos Olímpicos (só em 1986 os profissionais foram autorizados a competir … em Atlanta/EUA).

A Cortina de Ferro – os mais jovens conhecem esta expressão dos livros ou documentários em ‘TV Paga’. Entre 1945 (fim da II Guerra Mundial) e 1990, a Rússia passou a controlar política e militarmente um grupo de países ao leste da Alemanha e Austria. Nações como Polônia, Checoeslováquia (hoje são dois países), Hungria, Romênia e Bulgária eram “independentes”, mas não davam nem “Bom Dia” sem a autorização dos russos.

Situação pior viveu um outro grupo de países, mais ao leste da Europa e da Ásia Central, tais como Estonia, Lituania, Latvia, Ucrânia, Bielo-Rússia, Usbequistão, Azerbaijão, Turcomenistão, Georgia, Armênia e alguns outros que não me lembro agora. Estes todos foram anexados à Rússia e chamados coletivamente de União Soviética.

Esta turma toda, que seguia a orientação do didator, psicótico e assassino de massas Stalin, tornou-se comunista sem direito de opinar a respeito. 

A Alemanha foi um capítulo à parte, pois russos e americanos chegaram a um acordo (complicado) e racharam o país em dois após a II Guerra Mundial: havia a Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental (esta comunista e satélite de Moscou, sob as ordem de Stalin e daqueles que o sucederam).

E o ciclismo com isso? – os governos dos países comunistas tinham verdadeira fascinação em provar que seu regime político era melhor que o ocidental democrático. E a melhor arma de ‘propaganda’ era o esporte. Queriam a todo custo (todo custo mesmo!) provar que seus cidadãos eram mais fortes, mais rápidos, mais felizes, etc.

E durante algum tempo foram mais vitoriosos mesmo, afinal, lá não havia o amadorismo puro (ou quase puro) dos países ocidentais. Na ‘órbita’ soviética, todos os grandes esportistas eram adotados pelo Estado, tornavam-se oficiais das Forças Armadas e só treinavam (e recebiam bem por isso). Nesta época, franceses, italianos, belgas, espanhóis e alemães ocidentais treinavam e trababalhavam também…ainda que meio período, com algumas folgas para as corridas.

Bem, foi provado e comprovado também, que estes super atletas eram verdadeiros laboratórios de experimentos médicos….forma simpática de dizer: doping oficial de Estado. As nadadoras campeãs da Alemanha Oriental pareciam seres mutantes, tamanha deformação física.

A Corrida da Paz (Course de la Paix ou Peace Race) – como disse acima, os russos queriam desbancar os ocidentais em tudo, de qualquer jeito e não é que tentaram criar o “tourdefrance” deles?! E criaram. Curiosidade: vivíamos os dias da chamada Guerra Fria, em que tudo era motivo para os soviéticos ameaçarem o mundo ocidental com uma chuva de bombas atômicas.  E apesar desta atitude, digamos, pouco amigável, a tal super volta ciclística comunista foi chamada de …. Corrida da Paz!!

Criada em 1948, a Corrida da Paz era corrida entre as grandes capitais do mundo comunista da Europa Oriental, i.e. Varsóvia, Praga e Berlim, com traçados diversos, assim como qualquer Grand Tour. Seu pico de glória foi nos anos 70 e 80, quando estes países tornaram-se, finalmente, grandes potências esportivas, sempre liderados pela União Soviética.

Antes disso, estes países não eram tão fortes e depois de 90, com a queda do Muro de Berlim, todos viraram profissionais mesmo…

O vencedor de uma Corrida da Paz era venerado no mundo comunista. Mais do que qualquer vencedor do Tour de France. Afinal, a ‘propaganda’ do Estado Comunista era viceral e os promovia à condição de Heróis Nacionais. Ia bem além de ser um campeão do esporte. Significava ser o vencedor da ‘desigual’ batalha dos ‘trabalhadores comunistas’ contra os ‘capitalistas vorazes’.

Alguns grandes campeões da Corrida da Paz foram os soviéticos: 

  • Sergei Sukkhouchenkov, que a venceu 2 vezes, mais a Medalha de Ouro de Estrada nos Jogos de Moscou, em 1980, e duas vezes o Tour de L’Avenir (este sim o verdadeiro Tour de France para Amadores). Já veterano (e profissional!), em 1990, venceu a nossa vizinha Vuelta a Chile.
  • Yuri Barinov, o sucessor de Sergei S., e Medalha de Bronze em Moscou
  • Aavo Pikkus, o grande herói soviético antes de Sergei S.

A Alemanha Oriental também teve grandes ciclistas nos ranks da Corrida da Paz:

  • Olaf Ludwig, venceu-a 2 vezes, assim como foi Medalha de Ouro de Estrada nos Jogos de Seul, em 1988, e também venceu o Tour de L’Avenir. Curiosamente, Ludwig chegou a brilhar como profissional, pelas super equipes Panasoni e Deustche Telekom. Foi, ao mesmo tempo, um ciclista para provas duras (venceu o Amstel Gold Race, GP de Frankfurt e o GP E3 Vlaanderen) e um grande sprinter (foi Camisa Verde do Tour de 1990, em colossal batalha contra um Johan Museeuw ainda jovem e muito veloz).
  • Uwe Ampler, um dos grandes ciclistas do bloco comunista, venceu-a 4 vezes, sendo 3 pela Alemanha Oriental e 1 pela Alemanha já unificada (pós queda do Muro de Berlim, fim da Cortina de Ferra, da Guerra Fria e demais maluquices políticas que o mundo viveu durante 45 longos anos). Ampler ganhou todas as provas contra-relógio por equipe que alguém poderia vencer (Mundias, desde os tempos de Junior, Jogos Olímpicos, provas profissionais pela PDM, etc.). Ganhou muitas provas e etapas, mas sem o mesmo sucesso de Ludwig, que era muito mais sprinter.

Tempos de menos glória e mais dinheiro: correndo com Sean Kelly, Breukink, Alcala e outras feras

Campeões mais recentes:

  • Jan Svorada, o checoeslovaco, que correu até pouco tempo no topo do pelotão profissional como sprinter-maison da Lampre, quando o nosso Luciano Pagliarini era o seu embalador/ lançador, venceu a prova em 1990 com apenas 22 anos. Depois venceria Etapas do Tour, do Giro e muito mais.
  • Jens Voigt, esta incansável máquina de pedalar (faz 40 anos em setembro e continua forte!) também venceu a Corrida da Paz em 1994, com 23 anos de idade. Apesar de ter nascido na antiga Alemanha Oriental (era vizinho de Jan Ullrich) e membro das Forças Armadas, ele já venceu a prova pela Alemanha unificada, no início da prova pós-comunismo, mas ainda reservada para Amadores fortes do mundo todo.

Mas o grande campeão desta grande prova do ciclismo mundial foi o alemão Steffen Wesemann, com 5 conquistas. Este alemão ocidental venceu a Corrida da Paz já como Alemanha unificada e quando a mesma já não era mais corrida sob a aura do comunismo, i.e. os grandes soviéticos, checos e alemães orientais não mais participavam com a força de antes. Como profissional, sua grande conquista foi uma surpreendente vitória no Tour de Flandres de 2004. Outras conquistas nos seus 15 anos como profissional foram uma vitória por Pontos na Vuelta e muitas vitórias de Etapas, incluindo no Tour Down Under. Melhor mesmo foram alguns pódiums importantes na Paris-Roubaix (2o e 3o) e no Amstel Gold Race (dois 2o lugares).

Atualmente, a corrida perdeu o seu charme e mistério, dado que os antigos países comunistas são, hoje, tão capitalistas quanto os EUA. Mas como não tem tanto dinheiro e tradição como França, Itália, Bélgica e consortes, a Corrida da Paz versão capitalista não atrai um pelotão de alto padrão.

Brasileiros na Corrida da Paz – não achei nada a respeito. É bem possível que jamais tenhamos corrido nos seus tempos de glória. Raramente nossos ciclistas iam para a Europa e a prova era considerada duríssima. Enfim…se alguém tiver esta informação, por favor comente.

Amanhã vou escrever sobre o Tour de L’Avenir, grande concorrente da Corrida da Paz (ao menos para os franceses, já que a turma comunista achava que o concorrente era o Tour de France…).

Abs, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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7 Responses to Nos tempos do ciclismo Amador: Corrida da Paz

  1. Lucas Couto says:

    Ciclismo é cultura!

  2. henrique says:

    Muito bom!

  3. Samuel Vaz Vieira says:

    Tem um site chamado cyclingarchives.com
    lé deve ter alguma coisa.

  4. Sômulo N Mafra says:

    Excelente texto, nota 10.

    Confesso que jamais havia ouvido falar nessa Corrida da Paz.
    Nota 10, principalmente pelo fundo histórico que contextualizou bem essa corrida, e pelas várias referências, todas muito pertinentes e interessantes.

    Estou na expectativa do relato sobre o Tour de L’Avenir.

    Um abraço,
    Sômulo N Mafra

    • Obrigado pelo incentivo, Sômulo! Neste tipo de prova, só dar os resultados não ajuda muito, né? O contexto político, as tramas, dão um sabor especial. Fico feliz que gostou. Abraço!

  5. Juca says:

    Valew pelo post Fernando… uma coisa legal foi citar as nadadoras alemãs (orientais) que pessaram por um programa de doping estatal! Os soviéticos manjavam de doping (vide EPO nos esquiadores XC) … Mas naquela época nem os ocidentais eram limpinhos, em 84 nos Jogos de Los Angeles a equipe americana de ciclismo correu dopada e usando transfusões até o talo (o pai e mãe de um tal de Taylor Phinneyque é uma das esperanças estadunidense no ciclismo)… nem Eddy Merckx, que foi maior de todos os tempos, se safa, … No Giro di Lombardia de 73 ele teve que devolver o caneco por causa de uma susbustãncia polêmica, depois em uma Flèche rodou denovo… é a velha história: parabéns para quem não é pego e azar de quem foi!

  6. Ivo de Lima Dias says:

    Boa noite
    sobre brasileiros na Volta da Paz.
    No ano da olimpiada de barcelona (1992) , a seleção brasileira correu lá com o Cassío, salvo engano sendo top 20 geral.

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