“Tour de L’Avenir, Vive les Amateurs”

Caros – eu comecei a correr e acompanhar o ciclismo pro europeu em 1977 e posso garantir: o Tour de L’Avenir era chamado e tratado como o “Tour de France dos Amadores”. Corrida de imenso prestígio e muito aguardada pelos amantes e observadores do esporte, os jovens que ali corriam e se destacavam sempre conseguiam um bom contrato profissional (em equipe de ponta!) no ano seguinte.

Criado em 1961, o Tour de L’Avenir, assim como o Tour de France, é fruto do empreendedorismo do grande jornal de esportes L’Equipe  – da mesma forma que o Giro d’Italia foi criado pelo igualmente fantástico jornal Gazzetta dello Sport. Curiosamente, é corrido nos Alpes e não chega aos Pirineus.

Desde 1961, a prova continuou sendo disputada por equipes nacionais (igual ao Campeonato Mundial) até os anos 80– coisa que já não acontecia no Tour de France desde os anos 60. Este formato, apesar de limitar o número de participantes, seguramente forçava que as Federações nacionais selecionassem o que tinham de melhor.

O Tour de L’Avenir também permitia que os ‘blocos políticos’ Ocidental e Oriental se enfrentassem em solo francês, num autêntico mini Tour de France – notem que soviéticos (russos e todos os seus satélites euroasiáticos), alemães orientais, poloneses e demais, não corriam o Tour (nem Giro ou Vuelta), porque estes ciclistas do bloco comunista eram Amadores (NDE: sei, sei…).

1ª Fase – 1961 a 1986: nesta fase 100% para Amadores, grandes futuros campeões do Tour e de outras provas dominaram o Tour de L’Avenir. Destaque para o campionissimo italiano Felice Gimondi (“Il Bergamasco”), que o venceu em 1964, para em seguida vencer o Tour de France e a Paris-Roubaix. A Itália via nele um novo Coppi. E Gimondi certamente o seria, mas um certo Eddy Merckx cruzou o seu caminho e ele se limitou a vencer “apenas” 1 Tour, 3 Giro, 1 Vuelta, 1 Mundial, 6 Clássicas, 1 Tour de Romandie e 1 Vuelta a Catalunya. Aos 69 anoss e aposentado desde 1978, ele trabalha até hoje para a Bianchi, para quem correu boa parte da carreira. Sou fã deste verdadeiro cavalheiro italiano.

Depois de Gimondi, em 1969, veio o holandês Joop Zoetemelk, que já era Medalha de Ouro do 4×100 km, nos Jogos Olímpicos do México 1968. Zoetemelk ficou – injustamente – mais conhecido pelos 6 segundo lugares que obteve no Tour de France (o 1o deles em 70 e o último em 82 – olha a longevidade) do que pelas suas grandes vitórias. Além do Tour de 1980 ele foi Campeão Mundial em 1985 (desbancando os favorito Moreno Argentin…e olha que a corrida foi na Itália). Também venceu uma Vuelta, 3 Paris-Nice, 2 Paris-Tours, 1 Flèche Wallone,  1 Tirreno-Adriatico. Já veterano, aos 40 anos, também venceu o Amstel Gold Race, para delírio dos fãs locais.

Outros grandes nomes desta fase do Tour de L’Avenir foram:

  • O italiano Gianbatista (“Gibi”) Baronchelli venceu em 1973, e seria o2º colocado no Giro do ano seguinte (atrás de um tal de Merckx…sempre ele!). Venceu 2 vezes o Giro di Lombardia e muitas outras provas de grande importância na época, como o G.P. de Frankfurt e o Giro dos Apeninos (6 vezes!), além de todas (!) as semi-Clássicas italianas.
  • O francês Pascal Simon, que liderava com autoridade o Tour de 1983 até cair e se quebrar, abrindo caminho para a improvável 1ª vitória de Laurent Fignon. No ano seguinte foi 7o do Tour, sendo ele e todo mundo arrasado por um Fignon de outro planeta.
  • O também francês Charles Mottet, Vice-campeão Mundial em 1986 (perdeu no sprint para um imbatível Argentin em Colorado Springs/EUA) e que também venceu 3 vezes o G.P. des Nations (que era o ‘campeonato mundial de contra-relógio’) e 3 vezes o Dauphine Libère, o Tour de Romandie, o Giro di Lombardie, etc. Mottet também liderou durante dois anos o Ranking Mundial da UCI (com alguma alternância com L.Fignon)
     Aí começou a transição – o grande campeão desta fase do Tour de L’Avenir foi Greg Lemond, em 1982. Ele já era profissional da Renault Elf Gitane (sob as ordens de Cyrille Guimard e liderança de Bernard Hinault), mas os organizadores passaram a permitir os chamados “neo pro” (ciclistas com até dois anos de contrato profissional).  Logo em seguida, em 1983, Lemond iria sagrar-se Campeão Mundial pela primeira vez (na Suiça) e em 1986 ganharia o primeiro dos seus 3 Tour de France. De quebra, Lemond ainda seria bi-Campeão Mundial em 1989 (em Chamberry, na França).

As grandes decepções daqueles anos, em função das esperanças que neles foram depositadas, foram o belga Eddy Schepers e o sueco Sven-Ake Nilsson. Os dois andaram ciscando vários pódiums como profissionais, mas tornaram-se mesmo grandes gregários. O sueco se notabilizou por vencer 10 etapas da Vuelta ao longo dos anos. Já Eddy foi o grande aliado do irlandês Stephen Roche na sua vitoriosa temporada de 1987 (Tour + Giro) – fotos da época mostram Schepers caçando todos os fugitivos nas montanhas, com Roche sofrendo na sua roda. Bons tempos da fortíssima equipe Carrera.

A armada soviética invade a França – em 1978 e 79 os soviéticos vieram com força total e dominaram todas as provas que correram em solo ocidental. Sob a liderança do imbatível Serguei “Soukho” Soukhroutchenkov, ninguém resistia a sua força. Além de Serguei, tinhan Yuri Barinov, quase tão bom quanto seu líder. Vale lembrar o post anterior: enquanto a seleção francesa (e belga, e italiana, e etc.) só tinha ciclistas nacionais, os soviéticos contavam com os melhores da Rússia, do Cazaquistão (como um Vinokurov já nos anos 90), do Usbequistão (como um Abdoujaparov nos anos 80), etc. A União Soviética era, de fato, uma potencia multinacional.

Eu tenho uma Mirroir du Cyclisme do início de 1980 que tem na capa foto + manchete: “Hinault x Soukho – quem é o melhor”. O orgulhoso Blaireau da Bretagne deve ter esmurrado as paredes, pois ele vencia o Tour de mais de 4.000 km, enquanto os ‘comunas’ corriam e venciam provas com a metade da distância! A foto é pequena, mas foi o que deu para conseguir.

Na época os franceses clamavam por "abertura' (L'open) e nós também!

A Colômbia muda o mapa-mundi do ciclismotodo mundo já sabia que os colombianos eram a grande potencia ciclística da América do Sul, graças a seus escaladores (e Martin “Cochise” Rodrigues, que brilhou na Bianchi de Felice Gimondi na 1ª metade dos anos 70). Mas ninguém imaginava que, em 1980, um certo Alfonso Flores humilhasse Soukho e seus amigos nas montanhas francesas. O baque foi tão grande que eles nunca mais ganharam grandes coisas no ciclismo mundial. A última grande vitória na Estrada de um soviético que eu tenho na memória foi o Mundial de Amadores em 1981 (Andrei Vedernikov, em Brno/Checoeslovaquia).

Perda de identidade – os motivos são econômicos e eu não saberia elaborar sobre eles, mas os franceses (da ASO) bagunçaram com a identidade do Tour de L’Avenir. No ôba-ôba da Comunidade Econômica Européia (CEE – hoje simplesmente CE de Comunidade Européia), chegaram a mudar o nome da prova para Tour de la CEE , deixando de ser corrida na França e a escancararam para profissionais.

Nesta época, a partir de 1986, profissionais estabelecidos como Laurent Fignon (já bi-campeão do Tour) e Marc Madiot (já bi-campeão da Paris-Roubaix) ganharam a ex-Volta do Futuro. Não gostei desta fórmula por um simples motivo: tiraram um espaço nobre para os jovens ciclistas lutarem entre si e brilharem.

Curiosamente, o primeiro Tour de L’Avenir desta nova e descaracterizada fase foi vencido por…Miguel Indurain, que na época era apenas mais um ciclista basco, cujo destaque era o porte físico grande demais para vencer altas montanhas. Mas entre os Amadores ele já rolava forte demais e faturou a prova para surpresa de muitos (incluindo este editor).

Outros destaques foram as vitórias do belga Johan Bruyneel (muito mais famoso por dirigir Lance Armstrong durante seus anos vitoriosos no Tour de France) em 1990, e Angel Casero (que venceu uma Vuelta nos anos 2000) em 1994.

Mais recentemente, a ASO fez as pazes com o bom senso e hoje o Tour de L’Avenir tornou-se uma prova exclusiva para ciclistas Sub-23, que é mais ou menos o que chamávamos de Amadores antigamente. Nesta fase atual, destaque para Denis Menchov (atual GEOX, vencedor de Giro + Vuelta e pódium do Tour), que venceu a prova em 2001. Nenhum dos recentes vencedores, da última década, vem brilhando após vencerem a Volta do Futuro.

Ufa…que história longa…

Abraços! F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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5 Responses to “Tour de L’Avenir, Vive les Amateurs”

  1. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Muito bom mesmo !

  2. José Carlos SBC/SP says:

    Texto longo e prazeroso.
    Valeu Fernando.

  3. Juca says:

    mais uma vez muito bacana!

  4. Sômulo N Mafra says:

    Tb sou fã das histórias do Gimondi.

    Impressionante como um ciclista com tantas conquistas importantes como ele possa soar como quase um “figurante” de sua época, tudo porque clahou de competir na mesma época que o Canibal, rssss.

    Quanto ao duelo Hinault x Soukho… pena que não aconteceu, tinha tudo pra ser histórico!

    Parabéns, Blanco, outro post antológico! Sensacional!

    • É Sômulo, este é o caso de quem compete na mesma época de um fora-de-série. Pensa na F-1 e todos aqueles que foram massacrados pelo Schumacher. Quando voltamos ao ciclismo, o Tour de France foi “propriedade privada” do Lance por 7 anos, mas as outras corridas ficaram à disposição. Nos tempos do Merckx não tinha isso: ele corria e ganhava todas, durante o ano todo.

      Eu já li muito sobre o Gimondi, já fora das estradas, e gosto muito da postura dele. Um cavalheiro. Há muitas fotos dele com o Merckx. Acho que se davam muito bem, o que já não era verdade na relação do Canibal com outro grande da época: o espanhol Luiz Ocaña não o suportava…

      Quanto a Soukho x Hinault, naquela época era quase impossível de acontecer: os soviéticos repudiavam o profissionalismo oficial e jamais correriam o risco de serem massacrados por Hinault e companhia. Preferiam massacrar os jovens ocidentais nas provas para amadores (só que eles eram profissionais…). Obrigado pelas palavras de apoio! Abs!

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