Le Weekend des Ardennaises

O Fim de Semana das Ardenas: é assim que a mídia Wallon e francesa trata os dias em que são corridas a Flèche Wallone e a Liège-Bastogne-Liège. Antigamente, a Flèche era corrida na 6af e Liège no domingo, daí o apelido.

Esta dupla é o equivalente Wallon para as Flamengas Ronde van Vlaanderen e Ghent-Wevelgen. Competições à altura!

Le Roi de Wallonie é, sem surpresa, Eddy Merckx, que venceu 5 vezes em Liège e 3 vezes a Flèche. Surpreende, porém, o fato do italiano Moreno Argentin ser Il Principe. Argentin, que foi um tremendo vencedor de Clássicas nos anos 80/90, venceu 4 vezes em Liège e 3 vezes a Flèche. Por pouco!

Mas vamos falar da irmã mais nova das Ardenas: a Flèche Wallone (ou Flecha da Valônia).

Nascida em 1936, é uma das Clássicas que mais tiveram seu percurso alterado. Literalmente, toda cidade importante da região da Wallonie já foi palco da largada ou da chegada da prova, i.e. Liège (sim, aqui também), Vervier, Charleroi, Spa, Mons, Tournai e, naturalmente, Huy, onde se encontra o famoso “Mur de Huy”.

A prova inaugural foi corrida num percurso de 236 km, tendo atingido 300 km em 1938. Depois disso, a cada mudança de percurso a prova mudava de quilometragem, no número e na ordem das subidas. Muitas vezes era uma cópia da Liège-Bastogne-Liège.

Curiosamente, em 1981, os organizadores quiseram dar um caráter menos ‘escalador’ para a prova e colocaram as principais escaladas longe da chegada. Foi um escândalo no ciclismo internacional. Tenho a Mirroir du Cyclisme que dizia ser uma vergonha uma Flèche Wallone ser decidida num sprint de pelotão. A prova foi vencida pelo belga Daniel Willems, da Capri Sonne, então considerado um possível ‘sucessor’ de Eddy Merckx. Apesar de algumas belas vitórias, ele não chegou nem perto do Cannibal du Brabant

Prova Wallon para Vlaams – desde o início, a Flèche foi vencida por belgas…flamengos! Aliás, impressiona a superioridade dos ciclistas flamengos em relação aos co-irmãos wallons ao longo da história. Acredito que a única fase em que o wallons realmente brilharam com intensidade foi durante os anos de ouro de Claude Criquielion (ou Claudy, ou Criq-le-lion).

Para mim, Claudy foi o maior ciclista da história da Wallonie. Ele venceu a Flèche Wallone em 1985, vestido de Arc-en-ciel (como Merckx em ’72 e Evans ano passado), e em 1989. Mas também venceu o:

° Campeonato Mundial de Estrada, 1984 (Barcelona/Espanha)
° Tour des Flandres, 1987 – para decepção suprema dos flamengos!
° Campeão Belga de Estrada, 1990
° Classica San Sebastian, 1983
° Tour de Romandie, 1986
° Grand prix Eddy Merckx, 1984 (CRI disputado em Bruxelas)
° Subida a Montjuich, 1979, 1984 e 1985 (em Barcelona)
° G.P. du Midi libre, 1986 e 1988
° Critérium des As, 1988 (histórica corrida francesa atrás de ‘dernys’)

Claudy exausto vence em Huy para delírio dos Wallons

Prova belga, tem certeza? – se um leitor se deparar com a lista de vencedores da Flèche Wallone a partir de 1990 (20 anos, portanto), se chocará ao ver apenas 2 belgas presentes. Em 2ooo deu o wallon (com nome flamengo) Rik Verbbrughe e em 2001 venceu Mario Aerts. E foi só!

Os italianos, por outro lado, vêm deitando e rolando no coração das Ardennes: Argentin (4x), Rebellin (2x), Casagrande, Fondriest, Furlan, Di Luca, Saronni e Beccia, tornaram aquela região da Bélgica um território anexado da Itália de 1980 para cá.

A Corrida – a 75a edição da prova larga em Charleroi (antiga capital industrial da Bélgica – estudei sobre isso nos livros de geografia na escola) e após apenas 68 km chegará na cidade de Huy, para escalar o famos Mur. Serão 3 escaladas, culminando com a chegada definitiva.

A segunda escalada do Mur se dá a 30 km da chegada, i.e. da última subida. E a 12 km do final ainda tem a Côté d’Ereffe, que servirá de plataforma para ataques para surpreender os favoritos.

Mas não tem jeito: a Flèche Wallone, salvo surpresa, será decidida no Mur. É muito interessante notar como o pelotão aborda o início da subida: lembra muito Wallers-Aremberg na Paris-Roubaix, porque os favoritos querem estar na cabeça do pelotão. As equipes se matam pelas ruas da cidade de Huy, para bem colocar seus líderes.

Parede de Huy

Favoritos – sempre escaladores ou ‘classicomanos’ muito potentes. Dos que prometem largar eu destaco: Joaquim ‘Purito’ Rodriguez (2o no Amstel domingo passado), Alberto Contador (segundo da Flèche ano passado), Robert Gesink (a esperança da Rabobank nos deve uma grande vitória), Andy & Frank Schleck (os dois estão muito fortes!),

Outros destaques

  •  Ivan Basso e Cunego são incognitas para mim. Os dois tem potencial para escalar o Mur e lá vencer, mas não me parecem estar em grande forma.
  • E Philippe Gilbert está na lista de largada, mas me custa a crer que irá a fundo para a vitória. Primeiro porque o Mur me parece um pouco inclinado demais para ele, depois porque ele está no pico da forma desde San Remo (março!) e ele quer mesmo é vencer La Doyenne Liège-Bastogne-Liège no domingo.
  • Gerrans e Vinokourov estão fortes e têm potencial, mas não acredito que possam vencer. E Vino mira o tricampeonato em Liège.

Eu e a Flèche Wallone – eu tenho uma linda recordação. Em 1992, quando estudava na Escócia, peguei ônibus+trem+navio+trem e fui até Spa, onde foi a largada da Flèche. Depois de fotografar e tietar, peguei outro trem e fui até Huy assistir a chegada.

Eu paguei algo como R$ 20 para poder subir o Mur a pé. Sim, tem que pagar, apesar de ser uma rua como outra qualquer…ops, perdão pelo sacrilégio!

Amigos, os 1.300 m daquela subida não são fáceis a pé, com você fresquinho. Imagina depois de 200 km cheios de subidas? É uma estupidez e eu vi e senti aquilo. A frequência de público é algo como 5 pessoas por metro quadrado. Não sei como cabe tanta gente. Eu mesmo subi em vários telhados para ter uma visão melhor.

Alí eu assisti a vitória de Giorgio Furlan, da Ariostea, com o seu colega Davide Casani em terceiro – Casani é o comentarista de ciclismo da RAI.

Depois da corrida, passeando pela parte alta da cidade e admirando os ‘bike-motorhome’ das equipes, deparei-me com Sua Majestade Eddy Merckx, que foi uma simpatia comigo…sim, óbvio que eu o abordei e tirei foto com ele. Naquela época Merckx e Caloi fizeram um acordo e as bicicletas belgas eram vendidas no Brasil com um absurdo decalque Caloi by Eddy Merckx. O Canibal me perguntou sobre o Brasil e sobre as vendas das bicicletas no Brasil. Eu, abobado, balbuciei qualquer bobagem e saí de lá flutuando, não acreditando no que tinha acontecido.

Acabo de voltar no tempo…que emoção. Ok, de volta ao planeta e boa corrida para todos!

Abs, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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4 Responses to Le Weekend des Ardennaises

  1. Juca says:

    Joaquim Rodrigues fez segundo ano passado e o rapaz do bife ficou em terceiro…. ow Fernando vc tem a foto com o “Eduardo”, se ainda tiver scaneia e manda pro zaka por numa seção que ele tem lá!

    Aqui tem uns links pra ver na net:

    http://www.steephill.tv/classics/fleche-wallonne/

    abs

  2. Juca says:

    Acabei escrevendo e esqueci de falar oque eu ia falar sobre os iatalianos… os italianos tem um apreço pela Bélgica, em especial pela região da Walónia pois depois da Segunda Guerra Mundial a Itália fez um acordo com a Bélgica para fornecimento de carvão (estava faltando energia na bota…) e em troca desse carvão cerca de 50.000 italianos foram trabalhar nas perigosas (até hoje!) minas de carvão belga… em 1956 houve uma tragédia na mina do bosque de Cazier, em Marcinelle (próxima a Charleroi, cidade já citada pelo Sr. Fernando Blanco) e muitos italianos morreram… em 2006 o Giro d’Italia largou da Bélgica e teve etapas na região da Valónia emuma homenagem aos 136 italianos mortos na mina de carvão…na época o primeiro-ministro belga era Elio Di Rupo, filho de mineiros italianos!

  3. FABIO GUZZI says:

    Fernando , publica ai estas fotos de suas viagens pelas provas na Europa no passado .
    As fotos das provas que assistiu , e é claro a foto do tio Eddy .

    grande abraço

  4. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Sua Santidade , o Eddy !

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