Roger de Vlaeminck e Philippe Gibert

Você conhece o belga Roger de Vlaeminck, O Cigano (ou Le Gitan de Eeklo, como os franceses o batizaram)? Quando eu comecei a correr e acompanhar o ciclismo pro europeu, De Vlaeminck era uma espécie de Cancellara ou Boonen ou Gilbert daqueles dias. Com a diferença que ele competia contra uns outros 15 belgas de ponta – e outro tanto de italianos e franceses -, o que tornava sua vida mais difícil do que é hoje em dia para nossos atuais campeões.

Roger subia bem o suficiente para vencer o Tour de Suisse, a Liège-Bastogne-Liège, Flèche Wallone e o Giro di Lombardia. E era um estradeiro tão forte e duro a ponto de venceu 4 Paris-Roubaix (ele não é chamado de Monsieur Paris-Roubaix a toa, né?) e o Tour de Flandres. E muito rápido, mas muito rápido mesmo: venceu uma das suas 3 Milano-San Remo num sprint de pelotão e venceu 3 vezes a Maglia Ciclamino de líder por pontos do Giro d’Italia. Detalhe: venceu 22 etapas do Giro (a maioria no sprint), sendo 7 delas em 1975.

Milano-San Remo 1979: aos 32 anos a 3a vitória sobre Saronni, Moser, etc.

Junto com Rik van Looy e Eddy Merckx, Roger de Vlaeminck é parte da ‘Santíssima Trindade’ que venceu os 5 Grandes Monumentos do Ciclismo, i.e. Milano-San Remo, Tour de Flandres/Ronde van Vlaanderen, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e Giro di Lombardia. No tenis, é o equivalente ao Grand Slam: Australia, Roland Garros, Winbledon e US Open. Para poucos, muito poucos.

PS 1: Merckx é o único que venceu os 5 Monumentos ao menos 2 vezes cada. O homem não era deste planeta…

PS 2: Roger costumava dizer que seu modelo de ciclista era Rik van Looy e que Merckx não se comparava com Rik I quando o assunto era prova Clássica. Detalhe: Merckx odiava Van Looy com todas as suas forças e devia odiar De Vlaeminck ainda mais por dizer isso!

PS 3: De Vlaeminck tem uma grande mágoa/decepção em sua carreira … alguém se habilita a responder? Vale um Gatorade ou chopp!

Roubaix 75 – rivalidade, cordialidade e show de competência

Le Gitan se autodenominava ‘um marginal’. Nunca foi político (ao contrário de Merckx!). Falava o que lhe vinha a cabeça. Desafiou Merckx abertamente quando tinha apenas 20 anos de idade e o Canibal já era lenda viva para os belgas (sacrilégio!). Tão arriscado quanto, declarou que não mais daria entrevistas em francês (idioma oficial e dominante na Bélgica dos anos 70 – outro sacrilégio), porque após uma corrida o cansaço “me faz falar francês como um idiota e os jornalistas que aprendam a falar o meu idioma”.

Eu sempre curti gente com opinião forte (com causa e conteúdo, não grosseria gratuíta), que desafia o sistema, que não baixa a cabeça para convenções tolas e ultrapassadas…nos meus tempos de ciclista e de diretor da Liga Santista eu devo ter sido chato para um bocado de gente…rsrs

Assim era De Vlaeminck…assim é De Vlaeminck. Dois exemplos recentes:

  1. Sobre Johan Musseuw: o Leeuwe van Vlaanderen dos anos 90 vinha de vencer 3 Ronde e 3 Roubaix, mas não era suficientemente bom para O Cigano. Certa vez Roger o elogiou como um grande corredor de ‘pavés’, mas… “Merckx e eu ganhávamos corridas de março a outubro, nos ‘pavés’, nas Ardennes, na Itália…hoje em dia, ciclistas como Johan só correm bem durante uma semana do ano e num único tipo de terreno. Desinteressante”.
  2. Sobre Tom Boonen: o atual Leeuwe van Vlaanderen também vem sofrendo à língua afiada de De Vlaeminck há alguns anos: “Tom é muito forte, mas eu gosto mais de Philippe Gilbert. Boonen é mais um playboy que só corre uma semana de abril, enquanto Gilbert lembra mais o meu  estilo. Ele procura vencer corridas o ano todo, não se limitando a uma ou duas provas em uma única semana”.

Eu encontrei e tietei Roger de Vlaeminck em 1992, justamente na largada da Liège-Bastogne-Liège que assisti ao vivo. Simpático e altivo. Pinta de campeão mesmo aposentado. Nota: quando eu e o scanner passarmos a nos entender eu prometo publicar as fotos…para não ganhar fama de pescador…rsrs

Bem, este post era para ser publicado antes da Paris-Roubaix por motivos óbvios, mas não deu tempo. Agora, por conta dos elogios dele para o Gilbert eu resolvi publicá-lo.

Roger e a Liège-Bastogne-Liège – ele a venceu apenas (“apenas”…) uma vez e o fez em estilo, quando tinha apenas 23 anos de idade, mostrando que tinha chegado no pelotão profissional para desafiar King Merckx.

Le Gitan menino, campeão belga em 69, vencedor da LBL 70

Um caso de amor com Roubaix – ninguém vence 4 Paris-Roubaix (e tantas outras provas de 1a linha) por acaso. É necessário uma combinação de fatores, todos funcionando à perfeição, ao mesmo tempo. No caso de De Vlaeminck eu aponto:

  • Baixo centro de gravidade
  • Excepional controle da bicicleta (foi Campeão do Mundo de Ciclocross: Amador e Profissional)
  • Relação peso-força
  • Preparação feita no inverno em provas de ciclocross
  • Sede de vitória e obsessão de se igualar a Merckx

O grande ciclista de Eeklo teve o seu primeiro furo de tubular em Roubaix em 1979, fruto de sua incomparável capacidade de ‘flutuar’ pelos ‘pavés’ (palavras de Eddy Merckx, ele mesmo). Ele não furava apenas por ter sorte, mas por competência!

Foto Clássica dos Campeão das Clássicas!

Resumo das 4 vitórias de De Vlaeminck em Roubaix:

Fonte: “A Century of Paris-Roubaix”, por Pascal Sergent

 1970 “Adverse Wind and icy rain” (ou ‘vento contra e chuva congelante’)  foi assim que o autor definiu aquela edição. Na entrada da elameada Wallers-Aremberg 40 ciclistas caíram, Merckx incluído… passada a confusão, 17 ciclistas foram para a ponta, Merckx incluído…faltando apenas 23 km De Vlaeminck atacou e abriu 2 min do grupo…o também belga Dierickx foi 2º apesar de furar inacreditáveis 5 vezes!

1974 – com tempo seco e muita poeira, um jovem Francesco Moser atacou o tempo todo e chegou a abrir 50 segundos faltando apenas 25 km. De Vlaeminck escapou do grupo de 20 que o acompanhava. Moser furou uma vez e, pressionado, por De Vlaeminck caiu numas das últimas zonas de ‘paves’. O Cigano venceu a prova com 50 segundos de vantagem sobre a então esperança italiana e 1m30 para o grupo que continha os outros membros da ‘realeza’ belga (Demeyer, Merckx, Leman, Dierickx e Maertens). Merckx reclamou muito que não tinha ajuda nenhuma dos adversários e tinha que perseguir todo mundo. Sua irritação era função de, até esta data, vir tendo um ano medíocre, com apenas 4 vitórias menores. O resto do ano foi um ‘pouquinho’ melhor : vitórias no Giro, Tour e Campeonato Mundial.

1975 – diferentemente do fraco ano de 74, os belgas surravam seus adversários desde o início da temporada. Em Roubaix, ninguém duvidava que seria outro passeio. E foi. Faltando 90 kilometros 16 ciclistas estavam fugidos, com 5 minutos de vantagem sobre o resto de um pelotão estraçalhado. O grande atacante do dia era Marc Demeyer, fiel co-equipier de Maertens na equipe Flandria. Os sucessivos ataques racharam este grupo e os últimos a sobrarem foram os dois jovens favoritos: Maertens e Moser. Enquanto seguiam para o velódromo, Merckx furou faltando 8 km. Demeyer, De Vlaeminck e Dierickx não tiveram piedade e puxaram forte. Mas Merckx, vestido de arc-en-ciel, estava mais Merckx do que nunca naquele dia e rapidamente alcançou e atacou o grupo. Foi pego graças a atenção e forma do Cigano de Eeklo. Entraram no velódromo e Merckx, decidido a vencer, lançou o sprint mais forte de sua carreira, sendo ultrapassado por um – normalmente muito mais veloz – De Vlaeminck nos últimos metros…e por apenas meia bicicleta. Dos 10 primeiros, 8 foram belgas.

1977 – a rivalidade entre o Campeão Mundial Maertens e De Vlaeminck explodia. Roger detestava Maertens, porque este recebia muito mais carinho da mídia. Uma semana antes, o Cigano havia vencido o Ronde mais controverso da história: Maertens havia sido desclassificado no Koppenberg por causa de uma troca de bicicleta irregular, mas continuou na prova e puxou De Vlaeminck até o final, embaraçando-o profundamente. Mas em Roubaix De Vlaeminck era a grande estrela. Merckx, em declínio terminal, não era visto como rival. Moser corria por fora. Faltando 30 kilometros haviam 22 ciclistas na ponta, com constantes ataques. Demeyer trabalhava como uma mula para um Maertens que não se mostrou capaz de fazer a diferença, terminando em 3º lugar. Faltando 25 km, De Vlaeminck partiu para a ofensiva e, com absurda superioridade, venceu com 1m30 de vantagem sobre um surpreendente Willy Teirlinck. Jaccques Goddet, diretor da prova, disse: “Havia apenas vencidos atrás do anjo exterminador”. Merckx, 11º em sua última Roubaix disse sobre De Vlaeminck:“Eu nunca vi isso antes. Roger deslizava pelos pavês como se soubesse exatamente onde cada um deles estava”. Foram 6 belgas entre os 10 primeiros e nas 4 primeiras posições.

Merckx: fortíssimo e obsecado na Paris-Roubaix 1975 seria vencido por De Vlaeminck por apenas meia-roda

Fim de carreira – em 1981, já com 34 anos Roger renasceu e, apesar de só vencer uma Clássica (Paris-Bruxelas, batendo o super-em-forma Jan Raas), ele foi 2o colocado nas seguintes provas: Paris-Roubaix, Tour de Flandres e Amstel Gold Race. Ah, e foi Campeão Belga pela 3a vez! Not bad!! Dois anos depois, resolveu pendurar a bicicleta, mas levemente quebrado financeiramente precisou voltar a correr (só de ciclocross). E quem o ajudou nesta parada? Seu novo melhor amigo – e ex-inimigo mór – Eddy Merckx! Nada como a maturidade para fechar velhas feridas.

Se a sua carreira foi recheada de vitórias de prestígio – e ele nunca foi questionado como grande campeão -, sua vida privada foi recheada de tragédia. Primeiro foi seu irmão mais velho e grande ídolo Eric, maior vencedor da história do Mundial de Ciclocross (7 vezes!): eternamente viciado em drogas pesadas (cocaína), passou metade da vida em clínicas. Mais tarde seria abandonado pela esposa (nada tão incomum neste setor, mas Roger a amava muito e sofreu demais). Para piorar, sua única filha também se envolveu com drogas, foi presa, etc. Roger também não soube envelhecer e em toda entrevista demonstra um certo inconformismo, uma angústia com isso. Triste.

Eu poderia escrever um livro sobre Roger de Vlaeminck, tamanha minha admiração por este campeão de técnica e atitude. Espero ter conquistado mais fãs para este grade campeão da história do ciclismo!

Abs, F.

PS: vocês lembram do primeiro parágrafo deste post? Acho que todos concordarão que De Vlaeminck “era uma espécie de” Cancellara + Boonen + Gilbert!

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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6 Responses to Roger de Vlaeminck e Philippe Gibert

  1. Tiago Cardoso says:

    Bom post!! falta as suas previsões para a Liege🙂

  2. Abrão Couri says:

    Blanco, excelente texto! Assim como vc, sempre fui um admirador do Vlaeminck. Abraço!

  3. Osmar says:

    O que me parece é que, de uns anos pra cá os ciclistas procuraram se especializar em um determinado tipo de prova ou terreno.
    Por isso existem ciclistas que vão muito bem em clássicas e não vão bem em provas por etapas.
    O grande campeão do Tour de France, Lance Armstrong, ao que me consta nunca venceu uma clássica, aliás, ele era especialista em Tour de France.

  4. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Merece muito respeito !

  5. Tiago Cardoso says:

    Lance Armstrong venceu classicas sim. até campeão do mundo sub-23 foi

    • Oi Tiago, o curriculum do Lance em provas por etapas é riquíssimo, só perdendo para Merckx e Hinault (na minha opinião), mas em provas de um dia é fraco se compararmos com o de muitos outros ciclistas. Olhe o que ele venceu de destaque: World Cycling Champion (1993), US National Cycling Champion (1993), Clásica de San Sebastián (1995), La Flèche Wallonne (1996), i.e. além do Campeonato Mundial (ele era sub-23 mas venceu a turma da Elite, com Indurain no auge em segundo!) ele não venceu nenhum Monumento. Abraço!

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