Hoje é dia de Liège-Bastogne-Liège!!

Amigos – problemas tecnológicos (e alguns treinos) me afastaram do computador, daí o fato de estar escrevendo só agora (domingo, 1h30 da manhã).

Que prova é essa – como preza toda Clássica Monumento, na Liège-Bastogne-Liège (LBL) zebra é a exceção à regra que diz: aqui só ganha campeão! É só ver a lista de vencedores recentes e antigos.

Chamada de La Doyenne (“A Mais Antiga”), a LBL será disputada em 255 km num terreno duríssimo, cheio de subidas desafiadoras. Apesar disso, ela não foi feita para vencedores/favoritos do Tour / Giro / Vuelta. Eles até a vencem (e.g. Merckx, Hinault, Di Luca e Schleck), mas a imensa maioria dos vencedores são ‘classicomanos’ com capacidade de escalar as duras “côtes wallons”.

Os ‘bergs’ flamengos do Tour de Flandres são, em geral, bem mais curtos e inclinados, cobertos pelos temíveis ‘pavés’ e aparecem seguidamente. Lá, para vencer, é preciso ser explosivo. Já na Wallonie, as ‘côtes’ são bem mais longas (acima de 1 km) e asfaltadas. Também rola uma explosão nos ataques, mas lá é necessário manter o rítmo por um período mais longo, dado que as rampas são bem mais compridas. Do contrário a fuga não vinga.

Portanto, são corridas diferentes e vencedores do Ronde e de Roubaix não costumam brilhar em Liège (salvo as usuais exceções, como Merckx e De Vlaeminck). Vide nomes como Musseuw, Boonen, Cancellara, Ballerini, etc. Os bons de ‘paves’ sofrem na Wallonie. Sprinters, então, nem largam!

Onde se ganha esta corrida – O Ronde tem o Kappelmuur; a Milano-San Remo tem o Poggio; a Amstel tem o Cauberg; a Flèche Wallone tem o Mur de Huy e a Ghent-Wevelgen tem o Kemmelberg. É ali que se decidem estas grandes provas.

Na LBL, a grande escalada chama-se La Redoute. Quem assistir a prova pela internet tem que estar de olho nela, que este ano estará distante apenas 35 km da linha de chegada. Liège não é necessariamente vencida em La Redoute, mas seguramente se perde a corrida nesta subida. O italiano Michelle Bartoli humilhou Laurent Jalabert e Franck Vandenbroucke em ’98 e Vandenbroucke retribuição a humilhação a Bartoli em ’99. 

Nesta década La Redoute vem selecionando um grupo com cerca de 10 ciclistas, para que o racha final se dê nas ‘côtes’ finais. Para fugir sozinho em La Redoute e ir sozinho até Ans o ciclista tem que rolar muito bem e ainda escalar forte…difícil achar alguém assim estes dias.

Ainda sobre La Redoute, ela é um Kappelmuur asfaltado multiplicado por 2. Sacou? A visão que temos do final da subida é que estão subindo uma parede, porque as vilas à distância parecem que estão na horizontal enquanto os ciclistas sobem na vertical. Dá vertigem.

La Redoute: dá para perceber a inclinação?

As 10 escaladas classificadas da LBL:
Km 71.5 – Côte de Saint-Roch – 1.0km climb to 11%
Km 157.5 – Côte de Wanne – 2.7km climb to 7.3%
Km 164.5 – Côte de Stockeu (Stèle Eddy Merckx) – 1.0km climb to 12.2%
Km 170.0 – Côte de la Haute-Levée – 3.6km climb to 5.6%
Km 183.0 – Col du Rosier – 4.4km climb to 5.9%
Km 195.5 – Col du Maquisard – 2.5km climb to 5%
Km 206.0 – Mont-Theux – 2.6km climb to 5.9%
Km 220.5 – Côte de la Redoute – 2.0km climb to 8.8%
Km 236.0 – Côte de la Roche aux Faucons – 1.5km climb to 9.5%
Km 250.0 – Côte de Saint-Nicolas – 1.2km climb to 8.3%

A organização aliviou a vida dos ciclistas ao tirar a Côte de Sart-Tilman, que ficava no finalzinho, mas não lista o falso plano que é a chegada em Ans. Sim, a LBL não termina mais em Liège desde 1992. Ans é uma pequena cidade vizinha de Liège.

A chegada em Ans não seria tão dura para um ciclista profissional, mas após 250 km de maus tratos, aquela inclinação constante parece cortar os músculos já tão sofridos dos nossos campeões.

Eu e a LBL – o último parágrafo entrega o fato de eu já ter estado lá. E foi justamente em 1992, poucos dias após assistir a Flèche Wallone (quando conheci Eddy Merckx). Eu participei do Congresso, da apresentação das equipes e tive sorte, muita sorte de encontrar e conversar com Bernard Hinault e Bernard Thevenet…7 Tour de France juntos.

Bom, no dia da corrida eu andei a pé pela região de Ans e assisti ao vivo e pelo telão o sofrimento daqueles últimos quilometros ‘quase’ planos.

Naquele ano venceu belga/flamengo Dirk de Wolk, da equipe italiana Gatorade, que tinha o bicampeão mundial Gianni Bugno e um já veterano Laurent Fignon como colegas de equipe. Foi uma vitória surpreendente de De Wolf, mas muito festejada…apesar dele não falar francês direito…rsrsrs

Aliás, falando da grande divisão belga, nos últimos 25 anos os belgas vêm ganhando pouco por lá e os Wallons menos ainda. O prematuramente falecido Vandenbroucke foi o último grande Wallon a vencer por lá.

Quem vai vencer – Philippe Gilbert é considerado favorito por 10 de cada 10 analistas/apostadores/adversários, etc. Ninguém sabe como sua forma estará após tanto esforço (vitorioso). Eu (e ‘Purito’ Rodriguez) questionava sua habilidade de escalar o Mur de Huy. Ele não escalou…ele voou! Agora, portanto, não duvido que ele escale bem La Redoute. Aliás, descobri estes dias que Gilbert vive numa vila que fica…no pé de La Redoute, i.e. ele conhece cada centímetro daquela subida.

Acho que ao final de La Redoute haverão 5 ou 6 ciclistas na ponta, incluindo nomes como Gilbert, Schleck 1 e 2, Purito, Sanchez e similares. O problema para Gilbert é que ele será atacado sem piedade em La Fauche e em Saint-Nicolas…e os demais ficarão olhando para ele: “Alors, Wallon, le boulot c’est tout toi”...algo como “Então, Wallon, o trabalho é todo seu”.

Não tenho dúvida – e alguns de vocês já manifestaram isso em comentários – que haverá um “Efeito Cancellara” em cima de Gilbert. Se no Amstel e na Flèche ele podia se dar ao luxo de esperar a rampa final e sprintar para a vitória, na LBL isto é mais complicado. É que não existe uma ‘côte’ inclinada e decisiva na reta de chegada. Gilbert terá que se defender destes ataques ao longo dos últimos 30 km (pós-La Redoute) e se partir para o ataque terá pouca ajuda, porque todos sabem que ele sprinta muito melhor do que seus concorrentes típicos.

Ninguém vai querer levá-lo de carona para em seguida ser ‘jantado’, assim como ninguém deu trégua para Fabian Cancellara no Ronde e em Roubaix. A foto abaixo – Alejandro Valverde vencendo-a em 2006 – mostra o que seria o cenário perfeito para Gilbert: naquele ano tínhamos em fuga o Campeão Olímpico e Mundial Paolo Bettini, Damiano Cunego, Patrick Sinkewitz e Michael Boogerd, além do próprio Valverde. Eles se anularam e deu o mais veloz dos escaladores: o murciano da Operación Puerto.

Valverde vence 2006: favoritos se anularam e ele foi mais rápido

Será sensacional! Após a corrida eu escreverei o post dos resultados, com uma história muito pitoresca desta mega-corrida!

Abs, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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5 Responses to Hoje é dia de Liège-Bastogne-Liège!!

  1. alex ernesaks says:

    essa prova é diferente …
    mas espero queo vencedor seja o mesmo:
    Vino!

    Lamento Jan Ullrich não te-la vencido

  2. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Talvez se o Cancellara perdesse uns kilinhos….até daria.

    • Possível, Rogério, mas a dúvida que fica nestes casos é se ao emagrecer tanto ele não perderia potencia – aí não adiantaria muito, pois ele se tornaria um corredor normal. Lance Armstrong, diz a lenda e alguns estudos sérios, perdeu muito peso por causa do tratamento do câncer mas não perdeu potencia. Daí ter se tornado o mega campeão. Abração!

  3. Juca says:

    Ahh ow Fernando.. isso de “assim como ninguém deu trégua para Fabian Cancellara no Ronde e em Roubaix” não procede heim.. na verdade na Ronde e na P-R ninguém fez nada, Cancellara que fez todo esforço (na P-R o mapa do Chile teve méritos, já na Ronde não gostei nada da vitória do belga)…
    Desde 99 com exceção de Bettini e Schleck, os vencedores eram todos gente “boa”…
    Ao vivo aqui:
    http://sports-livez.com/channel/ch-5.php
    abs

    • Aê Juca, estamos na “mesma página”:o não dar trégua siginificou, em fernandoblanconess, que ninguém deu espaço para o suiço, que todos o marcaram, que ele teve que trabalhar sozinho (até porque seus Leopardos foram mais Gatinhos de estimação…), i.e. pensamos igual! Quantos aos vencedores, vale um post: apenas Gilbert foi vencedor de 1a linha. Os demais foram ‘gregários’ de luxo ou não…

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