“Le Bilan du Printemps”

Caros – ando relendo minhas Mirroir du Cyclisme antigas e me deparei com o título acima, que significa O Balanço da Primavera. Os franceses costumam utilizar a Bilan para destacar fatos da temporada ou de partes dela. Isto me inspirou e farei algo parecido, para ‘amarrar’ os últimos dois meses:

1. Domínio belga – alegria, alegria, Fernando Blanco! Os belgas tiveram uma primavera típica dos anos 70! Dentre as Clássicas, só perderam a Milano-San Remo para o surpreendente e competente Matt Goss. Depois deu Nuyens no Ronde, Boonen em Wevelgen, Van Summeren em Roubaix e Gilbert no Amstel, na Flèche e em Liège.

2. Prêmios Felinos

  • Troféu Leão Rei dos Clássicos: Philippe Gilbert
  • Troféu Leopardo de Agilidade: Matt Goss pelos sprints certeiros
  • Troféu Gatinhos de Apartamento: Equipe Leopard coletivamente

3. Os bons tempos estão de volta?

Quem acompanhou e gostou do ciclismo dos anos 70, como eu, nunca se conformou com a moda criada por Greg Lemond: a super especialização e a participação em poucas corridas por ano. Esta moda chegou até nos ‘classicomanos’ como Johan Musseuw, que focava sua temporada na dupla de prestígio Ronde van Vlaanderen e Paris-Roubaix.

Este anos foi diferentes, pois:

  • Matt Goss ganhou no Tour Down Under em janeiro, depois venceu a San Remo e na Paris-Nice em março e ainda disputou o Ronde para valer no começo de abril
  • A super forma de Cancellara durou de 19 de março, quando foi o segundo  em San Remo, e foi até 10-abril em Roubaix, com mais um 2o – antes disso havia sido 3o no Ronde
  • Mas o destaque maior vai para Gilbert, que esticou ainda mais sua Realeza. Primeiro porque sua super forma durou 15 dias a mais que a de Cancellara: foi de San Remo até Liége. Depois porque brilhou no terreno plano de San Remo, nos pavés do Ronde (pena que atacou cedo demais) e nos terrenos montanhosos do Limburg/Ardennes

4. Zebras ou semi-zebras

Esta temporada primaveril teve vencedores um tanto estranhos. Pouco acreditavam que Matt Goss, um embalador de Cavendish, pudesse vencer os 290 km da Milano-San Remo, destacar num pequeno grupo tão estrelado e ainda vencer o sprint. Foi merecidíssimo, mas foi surpresa.

Nos pavés, os vencedores Nuyens e Van Summeren são ciclistas sólidos, mas cujas carreiras já estavam em fase declinante há algum tempo. Ambos souberam tirar vantagem do jogo de equipe e do “Fator Cancellara”, em que todos correram contra o suiço.

Boonen vencer a Ghent-Wevelgen não foi surpresa, mas as três vitórias seguidas de Gilbert surpreenderam até este torcedor fanático que vos escreve.

5. Vítima do sucesso

Eu não me recordo – e olha que tenho registros de ciclismo nos últimos 40 anos – de ver um ciclista tão mais forte que seus concorrentes e ainda assim  perder tantas corridas em que era favorito incondicional. Ops…desculpem-me o suspense: falo de Fabian Cancellara rsrs.

  • Perdeu porque encontrou um concorrente não tão forte nem tão conhecido, mas bem adaptado ao terreno da corrida: Goss em San Remo
  • Perdeu porque foi um tanto arrogante após vencer de forma humilhatória o G.P. E3, atraindo o temor alheio e táticas defensivas de corrida
  • Perdeu porque sua equipe foi fraca, ele superestimou sua força ao atacar de muito longe e ainda errou taticamente no final do Ronde
  • Perdeu porque sua equipe foi patética e ele esperou muito para sair na perseguição dos líderes em Roubaix

6. Enfim o reconhecimento

Eu já dizia/escrevia há tempos (ano passado, antes deste blog existir) que Gilbert era um craque, um dos grandes nomes da atual geração…mas a maioria dos analistas e apaixonados pelo esporte duvidavam. Explico:

  • Ele já havia vencido 2 vezes o temível Giro di Lombardia, que acontece no final do ano e é pouco conhecido no Brasil
  • Também já havia vencido a Paris-Tours (também no fim da temporada) e o Amstel Gold Race – elas não são Monumentos, mas são Clássicas de 1a linha
  • Gilbert vinha sendo mais comentado pela provas que perdia por atacar antes da hora, do que por suas lindas conquistas

Agora não, agora chega! Fazer o ‘hat trick’ do Linburg/Ardennes e as belas performances em San Remo e Tour de Flandres, o colocam como ‘homem a ser batido’ em todos os Clássicos e Mundiais dos próximos anos. E ele tem apenas 28 anos, i.e. tem mais 4 ou 5 anos de ciclismo Top!

PS: só espero que ele leve uma vida menos controversa do que Boonen passou a levar depois de virar Leão de Flandres…Gilbert também já se mudou para Mônaco, para fugir dos impostos belgas. Espero que as coincidências parem por aí.

Ah, Liège, mon chère Liège...

7. Talking about business

As derrotas nas estradas da Equipe Leopard-Trek foram gigantes, mas a derrota financeira dos seus investidores foi maior ainda. Minha teoria:

  • Por acreditar que Cancellara (nos pavés) + Schlecks (nas Ardennes) venceriam tudo (ou quase), preferiram não fechar negócio com nenhum patrocinador principal
  • Esperavam negociar o espaço no uniforme extremamente valorizado após as vitórias na primavera, visando um mega negócio para o Tour de France
  • Acho que não correm o risco de ficar sem patrocínio para o Tour, mas ganharão muito menos do que conseguiriam se tivessem sido menos arrogantes e fechado um pacote para o ano todo – quem tudo quer nada tem, diz o velho ditado…

8. Wallonie, terra de Wallons

Os belgas que falam francês ainda devem estar embriados após as vitórias acachapantes de Philippe Gilbert. Após décadas de humilhação pelos conterrâneos flamengos, a honra dos wallons está restabelecida e eles devem estar curtindo muito a goleada de prestígio…ainda que Nuyens e Vansummeren, dois flamengos, tenham vencido as provas ditas ‘flamengas’.

9. Grandes perdedores

  • Equipes: A Quick Step (cujo ‘capo’ Patrick Lefevere vendeu suas ações para um investidor checo) deve estar sofrendo tanto ou mais do que a super perdedora Leopard. Como assim, se Boonen ainda venceu em Wevelgen? Simples: a Quick Step foi esmagada pela arquirival Omega Pharma-Lotto e isto na Bélgica é pior do que Gre-Nal, Fla-Flu, etc., no futebol brasileiro. Pior, a equipe que mais vencia Clássicas nos últimos 10-15 anos começa a amargar a segunda temporada seguida sem vencer um Monumento. A medalha de bronze vai para a Garmin-Cérvelo: uma verdadeira constelação de estrelas sem bilho algum…a vitória em Roubaix foi fruto de uma escapada matinal e ainda foi por pouco. Sucesso do ciclista gregário lutador, mas derrota para a equipe
  • Ciclistas: Schleck Brothers, Stijn Devolder (bicampeão do Ronde e belga), Fillipo Pozzato (de novo!), Mark Cavendish, Robert Gesink, Damiano  Cunego  (nem  Grand Tours nem Clássicas, Piccolo Principe?), Tyler Farrar…e a Medalha de Ouro vai para o Campeão Mundial Thor Hushvod (a maldição do Arco-íris pegou de jeito no Filho de Odin)
  • Países: vitória hors-concours para a Itália! Acho que os transalpinos nunca tiveram uma safra tão fraca de ciclistas como a atual. A estrela solitária é Vincenzo Nibali. Por outro lado, vivem à base de Basso (candidato a ser esmagado no Tour); vecchios como Petacchi, Garzelli e Scarpone; ex-dopados como Sella, Rebellin e Di Luca, decadentes como Cunego e Bennati. Triste, muito triste…

10. Uma mudança de atitude? Para pior?

Os irmãos Schleck foram bastante criticados aqui no blog, assim como Hushvod e vários outros que, ao longo da primavera, preferiram garantir um lugar no pódium do que ir à morte na busca pela vitória…correndo o risco de não ficarem nem entre os Top 10 em função do esgotamento.

Estaremos vivendo novos tempos, sem o ‘panache’ que os europeus sempre prezaram tanto? Será que os ciclistas pro estão perdendo a capacidade de ficarem indignados ao perder para o rival? Cipollini bateu duro nesta questão e apanhou junto. Lembram de Pozzato, favorito do Mundial, cruzar a linha de chegada e ir abraçar o Hushvod? Cipollini disse que quase vomitou de raiva, pois esperava que o italiano vencesse ou urrasse de vergonha ou desespero…tudo menos aceitar passivamente a vitória do adversário. Andy Schleck é reincidente: primeiro ao ficar se beijando e abraçando com o algoz Contador no Tour 2010 e neste último domingo ao aceitar a derrota para Gilbert.

Então, esse foi o resumão que a memória permitiu fazer. Caprichem nos comentários, destacando outro fatos e/ou criticando as escolhas acima. Aliás, os comentaristas do blog vêm me enchendo de alegria, obrigado!

Abs, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
This entry was posted in Corridas - Internacional and tagged . Bookmark the permalink.

6 Responses to “Le Bilan du Printemps”

  1. xampa says:

    Leio todos os post´s. Verdadeiras aulas.
    Poderia dizer que tem um André antes do seu blog e depois dele.
    SENSACIONAL.
    Abraços.

  2. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Apesar de acompanhar o noticiário ciclístico a bem pouco tempo (sou de 1976 e comecei a praticar este esporte há uns cinco anos) também gostaria de enfatizar esta superespecialização dos atuais corredores, bem como a morosidade e falta de combatividade de alguns, muito bem destacada pelo Fernando.
    Faltou só uma coisa para o balanço : Acionar o [/Modo Irônico ON/] , hehehe. Aquela gritaria no carro da Saxo Bank no Ronde , a explosão do Bjarne…..Que cena histórica. Por outro lado a “cagada” que o diretor da Quick Step deu ao vivo no Chavanel também foi digna de nota.

  3. Gustavo says:

    Parabéns, Fernando, belíssimo e altamente instrutivo “post” ! Seu “blog” é uma verdadeira aula de ciclismo, de história do ciclismo, e pra mim, que sou novato (e põe novato nisso…) na área, se tornou uma referência. Todos os dias entro aqui, para ter uma nova aula…rs… E já tinha reparado nos italianos, que simplesmente sumiram (fora o Scarponi, que ganhou o Giro de Trentino, mas é, como você disse, um “vecchio”…), inclusive o Basso, que parece nem vai participar do Giro da Itália. Faço um pequeno programa de TV (um canal alternativo, da TV Supren) aqui em Brasília, chamado “Ciclovida”, onde converso com pessoas ligadas ao ciclismo (usuários, atletas, estudiosos, etc), e no último entrevistei o Romolo Lazaretti, técnico da equipe de ciclismo paraolímpica brasileira, que chegou a competir com o Canibal, e tem uma excelente loja de ciclismo na cidade, e ele falava um pouco disso, de como o ciclismo perdeu em competitividade. Mais uma vez, parabéns !

    • Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

      Salve, Gustavo !
      Por acaso o vídeo com o Sr. Lazaretti está disponível na net ?
      Abraços .

    • Valeu, Gustavo, muito obrigado pelas suas palavras de apoio! E parabéns pelo seu programa de TV. Divulgue o link, etc.!! Abs, F.

Comments are closed.