Rivalidades Titânicas no Giro – Parte II: Gino Bartali x Fausto Coppi

Caros, esta pesquisa foi feita em sites italianos e, portanto, reflete visão local.

Para os italianos, a rivalidade entre Bartali e Coppi é a maior da história, não apenas no ciclismo mas em todos os esportes. Ela, a rivalidade, é considerada por eles como o fato que tornou o ciclismo um esporte de massa, pois as batalhas entre os dois mitos polarizou a Itália como nunca se havia visto antes – repito, em qualquer esporte.

Eu disse no outro post que aspectos da personalidade dos ciclistas sempre contaram tanto ou mais do que as suas proezas em cima da bicicleta. No caso destes dois campionissimi a religião tinha muito a ver com a decisão de torcer por um ou para o outro.

Coppi era laico, i.e. não se posicionava sobre religião, e Bartali era católico devotado, em linha com a tradição popular italiana. Mas não era só a religião que dividia a Itália e os campeões: a política também falava alto.

Coppi era tido como comunista e Bartali como democrata-cristão (de ‘direita’). Apesar desta versão ter se tornado senso comum, pesquisas dizem que isto não era verdade, pois nenhum dos dois fazia apologia aos partidos…mas os partidos faziam apologia deles, tentando capturar simpatizantes às custas do grande prestígio que eles tinham. Obviamente as crenças religiosas de um e de outro ajudavam nesta ‘categorização’ política, i.e. o “ateu comunista” e o “católico democrata-cristão”, tudo a ver.

Como ciclistas eles também eram bem diferentes: apesar de ambos serem escaladores impecáveis, Bartali era explosivo (lembram do Lance dando aquelas aceleradas na montanha?) e Coppi era passista (lembram de Ullrich botando rítmo?). Eles eram assim.

Se os dois tivessem a mesma idade – Bartali era de 1914 e Coppi de 1919 – eu diria que o grande Fausto teria sofrido muito mais, pois é sempre difícil para a moral ver um adversário arrancar e colocar 50 metros de vantagem em poucos segundos. Mas os 5 anos de diferença e a II Grande Guerra, que paralizou a carreira de Gino, permitiu que Fausto se sobressaíse em relação ao campionissimo católico.

O ‘palmarés’ de cada um:

  1. Bartali: 3 Giro (12 vitórias de etapa), 2 Tour, 4 Milano-San Remo, 2 Giro di Lombardia e muito mais.
  2. Coppi: 5 Giro (22 vitórias de etapa), 2 Tour, 1 Mundial de Estrada, 5 Giro di Lombardia, 3 Milano-San Remo, 4 Campeonatos Italianos de Estrada, 1 Paris-Roubaix, 1 Flèche-Wallone, Recorde da Hora e muito mais.

Não há dúvida que Fausto Coppi venceu mais e de forma mais diversificada e fora da Itália. Naqueles tempos – e não faz muito tempo que isto mudou – os italianos sempre focaram sua atuação nas provas locais. E sempre foram muito criticados por isso, em especial pelos franceses.

Debate interminável – se Bartali não tivesse sua carreira interrompida pela Guerra teria ele vencido mais ou igual a Coppi? Eu já me manifestei em outros sites dizendo que SIM. Mas jamais saberemos isso, certo?!

Como tudo começou – em 1940 os dois corriam pela poderosa Cicli Legnano (famosa marca de bicicletas que rivalizava com a já tradicional Bianchi). Bartali já era um campionissimo e o jovem Coppi não passava de um gregário passista.

Mas quis o destino que Gino levasse um senhor tombo em alguma etapa. A ordem do Diretor Técnico era que a equipe inteira o esperasse. Quer dizer, todos menos Coppi, que estava bem na Classificação Geral e foi autorizado a ficar no pelotão principal.

Bem, ele venceu a etapa e, após ser calorosamente cumprimentado por Bartali, reinvidicou a liderança da equipe dado que seu líder havia perdido tempo e estava machucado. O ultra-ético Gino Bartali virou gregário de Fausto.

A despeito da classe que demonstrava ao longo do Giro, Coppi sofreu de caimbras numa etapa-chave nos Alpes e foi Bartali quem o ‘reanimou’. Diz a lenda que o massageou e deu-lhe uma tremenda dura, fazendo-o subir na bicicleta e seguir rumo à vitória no Giro…em sua primeira participação e com apenas 21 anos de idade!

Nascia um fuoriserie, como dizem os italianos, e o resto é história.

Adversário x Inimigo – vale destacar que por mais que a imprensa italiana tenha tentado confrontá-los sob todos os aspectos, o respeito mútuo e a amizade entre eles sempre prevaleceu. A luta na estrada era para valer, mas acabava ali mesmo. A foto abaixo, lendária, sempre foi motivo de orgulho para eles.

No plano pessoal  – se por um lado Gino Bartali sempre foi religioso e comedido, a vida de Coppi foi muito mais complicada do que em cima do bicicleta. Numa Itália ultraconservadora e católica fervorosa, Fausto ousou ter um caso extraconjugal – com Giulia Occhini, conhecida como La Dama Bianca – e isto foi um escândalo nacional. A linda Giulia era esposa de um médico que era um fanático torcedor de…Coppi.

O traído doutor Locatelli a acusou de adultério e isso era sério naqueles dias. Resultado: foram julgados em corte e Giulia ficou 4 meses na cadeia e o campionissimo outros 3 meses. Uma vez liberados, foram se casar no México e tiveram um filho nascido na Argentina, tudo por conta das atribulações legais que enfrentavam na Itália.

Cada um com a sua cabeça, mas esta foi linda história de amor…

Ainda no plano pessoal, Coppi sofreu outro duro golpe com a trágica morte do seu irmão Serse, ele também ciclista de categoria. Serse Coppi havia vencido a Paris-Roubaix de 1947 e faleceu após violenta queda no sprint final do Giro del Piemonte em 1949.

A Guerra – curiosamente, o anti-facista Coppi foi alistado e teve que combater no Norte da África (sim, a Itália fazia parte do chamado “Eixo” (do mal), dado que Mussolini era aliado de Hitler) Ah, e ele acabou prisioneiro de guerra também. Já Bartali passou a vida criticando o facismo e ajudou/protegeu muitas pessoas perseguidas pelo ditador, seja conseguindo documentos ou em fugas. Belo exemplo de vida de Bartali aqui também.

A Morte – até na morte foram díspares. Gino morreu de velho, mas Fausto teve uma morte absurda. Já decadente, com 40 anos de idade, ainda corria para ganhar algum dinheiro. Numa dessas, em dezembro de 1959, foi junto com outros ciclistas de renome (como Jacques Anquetil, no seu auge, e seu amigão francês Raphael Geminiani) correr no país africano do Alto Volta (hoje Burkina Faso).

Lá, Fausto e Raphael ficaram muito doentes e tiveram que retornar aos seus países. Geminiani fora diagnosticado com malária e após duro tratamento recuperou-se. Coppi, diagnosticado equivocadamente com gripe influenza, morreu. O fato ganha conotações trágicas, porque Geminiani e sua esposa chegaram a ligar para a família de Coppi e para seus médicos, para informar que estavam tratando-o da doença errada. Mas isso nada adiantou.

Enfim, esporte e tragédia andando lado-a-lado.

Arrivederci!

Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
This entry was posted in Cultura Ciclística, Uncategorized and tagged , , . Bookmark the permalink.

4 Responses to Rivalidades Titânicas no Giro – Parte II: Gino Bartali x Fausto Coppi

  1. FABIO GUZZI says:

    Muito massa este post …. valeu Fernando estou aprendendo muito sobre ciclismo italiano

  2. José Carlos SBC/SP says:

    Sem palavras….
    Aí Fernando, tirando os posts das provas que acontecem no dia a dia, que tal um post histórico a cada dois dias, ok, posso aliviar pra você, a cada três dias? hehehe
    abraço e que venha o Giro!!!!

  3. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Excelente ! Além de grandes ciclistas, homens honrados.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s