Rivalidades Titânicas no Giro – Parte IVa: Moser x Saronni

Buonasera,

Esta eu vi acontecer!!

Desde Bartali e Coppi que a Itália não se dividia desta forma…e nunca mais isso aconteceu. Nos tempos de Gimondi, Motta e Adorni a coisa foi muito mais ‘light’.

Diferenças culturais – como sempre aconteceu, os tifosi se miravam em alguma característica da personalidade do ciclista para torcer. E desta vez era muito claro:

  • Francesco “Checcho” Moser é um paisano, i.e. homem do campo (e não da cidade), nascido na minúscula Palu di Giovo (onde coincidentemente também nasceu Gilberto Simoni!!). Sua família sempre trabalhou na fazenda e ele sempre se posicionou como um trabalhador, um lutador. E como ciclista não foi diferente: era um atacante ousado, muito ousado e desde o início de carreira desafiou os líderes do pelotão…a começar por um certo Eddy Merckx! E sua postura pública sempre foi mais rude – ainda que sempre sorridente -, especialmente quando se referia ao arqui-rival Saronni.

    Desafiando Rei Merckx em San Remo...aos 23 anos

Giuseppe “Beppe” Saronni– nascido em Novara, na aristrocrática (i.e. metida!) região do Piemonte, era um tipo urbano, educado mas muito formal.  Como ciclista era um oportunista, calculista, sprinter difícil de bater.

Cena usual: Saronni vencendo no sprint

Moser gostava do panache – que em ‘francês ciclístico’ significa vencer com glória, com luta -, enquanto Saronni queria mesmo era vencer, nem que fosse ficando de roda e ganhando no sprint. E Moser metia a língua nele pela imprensa por causa disso!

Moser também se aventurou – com imenso sucesso – fora das fronteiras italianas, enquanto Saronni foi medíocre neste campo. Vale destacar que dentre as grandes nações ciclísticas, os italianos sempre foram os que mais se restringiram às suas provas locais. Talvez por terem grandes Clássicas e semi-clássicas?…enfim, Moser foi a exceção positiva…e criticava Saronni abertamente por causa disso também!

Rivalidade ou inimizade – diferentemente das demais grandes rivalidades, estes dois se odiavam enquanto corriam – e acho que até hoje não se toleram muito.

Carreira pós-pedal – até aqui foram opostos. Moser voltou a cuidar da produção de uvas e vinho da família e lançou sua bem sucedida marca de bicicletas (a Moser). Mas, curiosamente, também sempre teve atuação política (primeiro como representante dos ciclistas profissionais na associação de classe junto à UCI, e mais recentemente na política partidaria local, na região do Trentino).

Já Saronni tornou-se Diretor Esportivo e até recentemente liderava a potente Lampre – as investigações de doping o derrubaram.

Nas corridas – até hoje – sempre vemos Moser de jeans e camisa normal e Saronni de terno e gravata. Não dava – e continue não dando – para ser mais diferente, né?!

Grandes vitórias – eu listarei e comentarei suas principais conquistas e vocês escolhem para quem seria tifoso, ok?

Giuseppe Saronni:

  • Giro d’Italia (1979, 1983) + 24 etapas
  • Arc en ciel.svg Campeão Mundial de Estrada (Goodwood, ING, 1982)
  • Milan0 – San Remo (1983)
  • Giro di Lombardia (1982)
  • Tour de Suisse (1982)
  • La Flèche Wallonne (1980)
  • Tirreno–Adriatico (1978, 1982)
  • Tour de Romandie (1979)
  • Zürich-Metzgete (1979)

Análise: ele era mais versátil do que Moser, pois sprintava muito mais e escalava melhor longas montanhas. No entanto, nas provas duras, com sobe-e-desce ou pavés, Saronni não era páreo para Moser. Ele ganhou dois Giros, mas na época falava-se abertamente que eram percursos feitos para ele, sem subidas extremas. Ao menos era isso que os franceses da Mirroir du Cyclisme diziam…porque assim Hinault ou Fignon não conseguiriam vencer!

Semestre mágico: no Mundial de Praga, em 1981, o circuito pouco seletivo e a grande forma nos sprints, faziam de Saronni o favorito número um. No entanto, Il Piccolino (como era chamado pelos adversários) e a Squadra Azzurra erraram feio e ele foi surpreendentemente batido por Freddy Maertens.

Praga, 1981, dia trágico para Saronni

 

Passado o trauma, Saronni treinou muito e não decepcionou no Mundial de 82, na Inglaterra. A forma como ele sprintou na subida final é difícil de se igualar na história do esporte – está certo que contou com uma ‘ajudinha’ de Greg Lemond que foi buscar seu próprio compatriota Jonathan Boyer…mas Saronni aproveitou a chance muito bem e dizimou Lemond.

Um ano depois, dia de glória na Inglaterra

Dia de glória na Inglaterra, 1982.

Pois bem, Saronni estava tão em forma que venceu o Giro di Lombardia no embalo – e olha que o seu estilo de correr era incompatível para a prova – e no início da temporada de 83 venceu a Milano-San Remo, que tanto lhe fugia das mãos (foi vice em 78, 79 e 80!). E ainda venceu o Giro do mesmo ano!

Depois teve um um último suspiro de forma em 1986, quando foi Medalha de Bronze no Mundial de Colorado Springs (vencido por Moreno Argentin). Continou se arrastando no pelotão até 1989, quando correu pela Del Tongo, ao lado de um garoto abusado chamado Mario Cippolini!

Foram 193 vitórias e um final melancólico. Mais um grande campeão que não soube a hora de parar…

Francesco Moser:

  • Giro d’Italia (1984)
  • Arc en ciel.svg Campeão Mundial de Estrada (Venezuela, 1977)
  • Milano – San Remo (1984)
  • Paris–Roubaix (1978, 1979, 1980)
  • Giro di Lombardia (1975, 1978)
  • La Flèche Vallonne (1977)
  • Paris–Tours (1974)
  • Tirreno–Adriatico (1980, 1981)
  • Gent–Wevelgem (1979)
  • Zürich-Metzgete (1977)

Análise: ele começou com tudo e desafiou os grandes belgas, quando estes estavam no auge. Pouco antes de fazer 23 anos foi segundo de uma dura Paris-Roubaix (perdeu para O Cigano Roger de Vlaeminck). E com 23 anos perdeu por pouco a Milano-San Remo para Eddy Merckx.

Mas a sua carreira na estrada foi marcada pelo tricampeonato na Paris-Roubaix (78-79-80), para desespero de franceses e belgas. Vale notar que ele venceu bonito na França e na Bélgica também, fato raro para um italiano, conforme disse acima.

Moser Campeão Mundial vence em Roubaix - 1978 - uma história de amor começava

Assim como Saronni, Moser precisou perder o Mundial de Estrada para Freddy Maertens (em Ostuni, ITA, 1976), para vencê-lo no ano seguinte. Em 1977, aqui pertinho, na Venezuela, ele destacou com a fera alemã Dietrich Thurau e bateu-o no sprint. Os belgas, mais fortes e desunidos, deram vexame e dalí para frente aquela geração foi ladeira abaixo.

E também como Saronni…Moser também teve um semestre mágico. A diferença é que Checcho já estava em declínio terminal, quando em 1984 renasceu das cinzas. Cercado de um time de especialistas em medicina esportiva, aerodinâmica e tudo mais, Moser trucidou o Recorde de Hora de Merckx, com a lendária marca de 51km 151m.

Acreditem, em 1983, quando anunciou que tentaria quebrar o recorde de Merckx, Moser e sua equipe foram tachados de loucos, pretensiosos e tudo mais. Lembro-me como se fosse hoje…eu achava aquilo uma proposta abilolada! O gigante italiano não seria páreo para Merckx nem no seu auge, por volta de 1980, quanto mais em 1984…mas especialistas como Conconi e Ferrari fizeram ‘milagres’ com Moser – além da bicicleta absolutamente inovadora (ele foi o primeiro a usar rodas fechadas, chamadas na época de ‘lenticular’).

A tecnologia que fez um milagre acontecer no ciclismo

Mais tarde, estes mesmos especialistas estariam envolvidos em todas as práticas de doping do ciclismo italiano. Moser nunca foi santo, mas na época não foi pego em nada proibido.

Enfim, por conta desta imensa preparação, em 1984 Moser venceu de uma levada só a Milano-San Remo (que também lhe era sempre negada), o citado Recorde e o Giro d’Italia, que todos (e eu também) julgavam impossível. Moser rolava demais e bateu o favoritíssimo Laurent Fignon (que um mês depois trucidaria Bernard Hinault no Tour) nos CRIs. Por outro lado, Fignon tinha tudo para meter-lhe de 3 a 5 minutos na grande etapa de montanha, mas esta foi cancelada por conta do mal tempo.

OK, nevava um bocado naquele dia, mas os franceses entrarão no século 22 reclamando disso. As Mirroir du Cyclisme dá época são muito legais de tanto que acusam os italianos de patriotada. Dizem também que os helicópteros da RAI se posicionavam de forma a ventar contra Fignon e a favor de Moser. 

Um dia de união – mas não é que um dia Moser e Saronni correram do mesmo lado? E não foi num Mundial, porque ali nem a Maglia Azzurra os unia (era cada por sí!). Foi num Trofeo Baracchi, antiga e tradicional prova contra-relógio disputada em duplas. Aconteceu na edição de 1979 e graças a um cachê zilionário eles toparam se unir neste único dia…para vencer. E nunca mais!!

Aqui o link do Trofeu Baracchi.

Bons tempos de apaixonantes rivalidades das Grandes Nações européias do ciclismo!

E então, você seria tifoso de quem?

Abraços! Fernando

PS: este post tem uma ‘Parte B’ que eu considero muito interessante. Aguardem durante a semana.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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12 Responses to Rivalidades Titânicas no Giro – Parte IVa: Moser x Saronni

  1. Sômulo N Mafra says:

    Excelente post!
    Promessa é dívida, já estou na expectativa da parte B!

  2. Sômulo N Mafra says:

    Quanto à escolha, tenho certeza de que a SUA escolha foi o Moser.
    Vencer com Panache as clássicas belgas contribuíram fortemente pra isso, acertei?

    Eu escolheria o Moser. Os dois tem conquistas muito parecidas, mas o fato do Moser ter sido “menos caseiro” e, principalmente, por ter demonstrado capacidade de se reinventar, vencendo Giro e batendo recorde da hora no final de carreira, são qualidades de se tirar o chapéu.

  3. Juca says:

    Belo post Fernando! Já tinha comentado que a população de Palu di Giovo é do tamanho da torcida de um time do litoral paulista!

  4. José Carlos SBC/SP says:

    Outra bela história Fernando!
    Você sobrou nessa semana, vai ter que escrever muito para recuperar o tempo perdido, ahahahah

  5. Leandro Bittar says:

    Torceria pelo Moser. Até pela impressão negativa que tenho do Saroni hoje e pela trajetória do Moser pelo recorde da hora. Ele bateu várias marcas em condições distintas, não? altitude, coberto, nível do mar…e até usou uma bike tipo a do Obree.

    Boa, Fernando. Aproveite a etapa plana para nos mandar a parte B!!rs

    • José Carlos SBC/SP says:

      Leandro, sem falar que ele buscou provas fora da Itália e ainda bateu de frente com um tal de………. Eddy Merckx! hehehe

    • Sômulo N Mafra says:

      Oi, Leandro, apenas por curiosidade: qual a impressão negativa que vc tem do Saroni?

      Um abraço,
      Sômulo N Mafra

      • Leandro Bittar says:

        Sômulo,
        acho ele um diretor de uma equipe nebulosa, com uma postura nebulosa, principalmente em relação ao doping. Por isso não tenho nada contra, apenas uma imagem negativa.

  6. José Carlos SBC/SP says:

    Cadê você Fernando??????

  7. Juca says:

    Cadê você Fernando?????? (2)

  8. Sômulo N Mafra says:

    Cadê você, Fernando??? (3)

  9. Juca says:

    Seguinte, o Fernando mandou um recado para todos que visitam o blog, e devido a não atualização estão curiosos, segue ae o recado :

    “Estou vivendo um drama desde 2af: deu algum bug no WordPress e eu simplesmente NÃO consigo me logar como administrador do meu próprio blog, i.e. não consigo postar ou sequer comentar. Patético.
    O pessoal de TI da empresa está falando com a WordPress para tentar resolver o imbroglio.

    Valew! Abs! Fernando “

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