A Saga Moser x Saronni – Parte2

Caros – apesar do atraso, segue a 2a parte da rivalidade entre os dois campionissimos italianos que encantaram e dividiram a torcida nos anos 70-80.

No auge: Saronni com a Maglia Ciclamino e o Moser com sua Maglia Tricolore

Abaixo segue traduzida uma entrevista que os dois deram – em separado, naturalmente – para a maravilhosa e finada revista francesa Mirroir du Cyclisme, em maio de 1993. Os franceses fizeram as mesmas perguntas para os dois – repito, em separado – e as respostas são ótimas!

1. A rivalidade entre vocês dois foi boa ou ruim para a sua carreira?

Moser – Não, eu não posso dizer que esta rivalidade foi ruim para mim. Seria desonesto. Eu acredito que a imprensa italiana, sempre alerta para causar provocações entre nós, contribuiu enormemente para que nos odiássemos. Mas aos poucos me apercebi que isto era estúpido. Nós nem tínhamos as mesmas qualidades como corredores. E nós dois construímos um belo palmarès. É certo que durante os campeonatos do mundo nossa co-habitação na seleção era por vezes difícil de se administrar. Especialmente nos anos 80, quando Saronni chegou a ser campeão mundial. Como eu já havia sido em 77. Eu me lembro de uma bela vitória em conjunto com ele no Trofeo Baracchi em 1979. Nós éramos complementares.

Saronni – Ruim para mim? Não, por que seria? Na nossa carreira nós devemos encarar nossos adversários como parceiros. Nas competições de alto nível a mídia faz de tudo para jogar um campeão contra o outro, criar diferenças, oposições, rivalidades. Certamente nos anos 80 Francesco e eu nos nós atacávamos. As vezes com motivo, outras vezes não. Mas a imprensa italiana, sempre muito ligada neste tipo de coisa, se encarregou de fazer eco nas nossas diferenças.

2. E para o ciclismo italiano, isso foi bom ou ruim?

Moser – hum, isso? Eu não sei… Questão muita ampla. Eu penso que contanto que falem do ciclismo, sob todas as suas formas, isto é uma coisa boa. A saúde do ciclismo nacional é sempre fornecida pelos campeões. Eu penso que nós dois servimos, à nossa maneira, ao ciclismo italiano. No fim dos anos 70 e início dos 80 a Itália enloqueceu pelo ciclismo.

Saronni – Em termos de imagem? Sim, é ajudou, ainda que nem sempre nós passamos a imagem mais nobre do esporte. Mas é preciso relativisar tudo isso. Neste contexto isso é aceitável. Os italianos amam as estórias, a polêmica. Nossa rivalidade alimentou as crônicas e de uma certa maneira serviu ao ciclismo italiano. Se todos se interessaram tanto por nós dois é porque nossas personalidades não os deixava indiferentes. Mas antes de tudo, o que importava eram os resultados.

3. Qual foi o peso dos patrocinadores na sua carreira?

Moser – Eu corri pela Filotex a partir de 74, para finalmente conhecer os sorvetes Sanson a partir de 78. Eu nunca tive nenhum conselho, nenhuma ordem da parte deles. Na nossa época, a única demanda dos patrocinadores era ter resultados.

Saronni – Não, nenhuma pressão particular. Em cada início de temporada nós definíamos os objetivos. E o patrocinador, na minha visão, confiava plenamente nos nossos Diretores Esportivos. Eu creio que é isso: uma vez que você pratique o seu esporte de forma adequada ninguém tem que reprová-lo de nada. Questão de estado de espírito. Se uma marca usa o ciclismo ela espera que elevemos a sua imagem. Como? Ganhando, por exemplo!

4. Como eram as suas relações com a imprensa italiana?

Moser – por vezes simpáticas, por vezes tensas. É importante destacar que na Itália a imprensa quer saber tudo sobre a sua vida. E isto as vezes gera inexatidão e confusão. Tudo acontece muito rapidamente. A imprensa italiana é a bíblia de cada cidadão que ama o seu esporte. E as pessoas as vezes levam muito a sério aquilo que leem nos jornais. Da minha eu não tive grandes coisas para reclamar. Eu acho que os italianos, sejam da imprensa ou não, são antes de tudo grandes torcedores.

Saronni – eu sempre fiz questão de impôr limites e um código de relacionamento com a imprensa. Eu não tinha necessariamente que abrir a minha vida privada. Eu constantemente recusei entrevistas na minha casa, porque sempre a considerei um domínio privilegiado onde a imprensa não tinha o direito de entrar. Minha vida de corredor, por outro lado, era uma vida pública. E sempre que me pediam uma opinião sobre este ou aquele assunto ligado ao ciclismo ou sobre algum ciclista, na medida do possível, eu sempre a dava. Eu não imagino ter criado inimigos na imprensa, mas tampouco fiz muitos amigos.

5. Num Giro d’Italia, você passaria a sua roda para o seu arqui-rival (Moser ou Saronni)?

Moser – a pergunta não faz sentido. Se fossemos da mesma equipe, eu seria o líder. E nesta situação é o gregário, Saronni, que me passaria a roda. Eu não quero nem pensar numa situação oposta, de ter que dar a ele a minha roda.

Saronni – eu jamais me encontraria nesta situação. Mas na época em que corremos pelas mesmas cores [p.ex.: no Mundial], se o Diretor Esportivo me pedisse eu teria aceitado. Existe um princípio no ciclismo de nunca colocar o seu líder em perigo e ficar todo o tempo a seu serviço.

6. Como quem você se indentifica hoje em dia, com Bugno ou Chiapucci?

[Nota de FB: esta entrevista é de 1993 e, naqueles dias, a imprensa italiana tentava criar mais uma grande rivalidade no ciclismo local. E os alvos (ou vítimas) eram Giani Bugno e Claudio Chiappucci]

Moser -ah, é muito difícil de se comparar, são dois corredores muito diferentes, com personalidades distintas e duas maneiras diferentes de correr. Em Bugno, eu amo a potencia e a serenidade que ele emana. Eu o reprovo, porém, por sua passividade e falta de audácia nos Grand Tours. Para corrigir esta falta ele terá que vencer o Tour de France, isto é óbvio. Quanto a Chiappucci , até agora ele prova correr só pelo instinto. Quando ele está bem, ele ataca. E se desgasta sem se poupar. Mas eu acho que este comportamento vem do fato dele, no fundo, saber que nunca vencerá um Grand Tour.

Saronni – Eu não me identifico nem com um, nem com o outro. Eu sigo suas carreiras como espectador do ciclismo. No plano pessoal, eu vejo Bugno com grandes qualidades e que estas um dia permitirão que ele vença o Tour de France. Mas ele me parece ser sempre vencido por uma frangilidade mental, sempre que os grandes desafios se apresentam. Pelo menos é isso que ele nos passa, após estes dois últimos anos [nota de FB: em 91 e 92, ele fez um segundo e um terceiro no Tour…e Chiappucci fez um terceiro e um segundo nos mesmos anos]. Dos dois, é Bugno que pode ameaçar Indurain, mas ele precisa acreditar nisso. Chiappucci, ele é o chouchou do público. Ele é popular porque tem um temperamento atacante, de ganhador. É um corredor espetacular, generoso e muito talentoso, mas lhe falta a capacidade de rolar e isto é indispensável numa prova por etapas. E não tem jeito. É uma questão de porte físico e potência.

Então, foi isto que foi dito em 1993 sobre uma verdadeira guerra esportiva – e de palavras – entre 1977 e 1985. Antes disso Moser era mais forte e já mais famoso, depois disso os dois foram ladeira abaixo. Mas ambos apaixonaram os fãs do ciclismo.

Moser recém-aposentado abraça Saronni, que se aposentaria em breve - foto histórica

Arriverderci! Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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6 Responses to A Saga Moser x Saronni – Parte2

  1. alex ernesaks says:

    lendas !

  2. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Mostraram, através de palavras, profundo respeito pelo esporte e pela profissão.

  3. Thiago says:

    Bem interessante, mostra como a imprensa gosta de criar uma outra imagem deles, que pelas palavras parecem ser muito iguais.

  4. José Carlos SBC/SP says:

    Outra bella história Fernando!
    Hoje em dia, a imprensa apenas joga mais lenha nas polêmicas provocadas pelos proprios atletas. Com a tecnologia atual (twiter, facebook…..) eles se enrolam sozinhos, muitas vezes, perdem a chance de ficar calados.

    • Sômulo N Mafra says:

      O mais engraçado é quando eles tentam consertar depois, muitas vezes a emenda sai pior que o soneto, rsss…

  5. Sômulo N Mafra says:

    ”a pergunta não faz sentido. Se fossemos da mesma equipe, eu seria o líder. ”

    Essa aqui foi a melhor! Digna da marra do baixinho Romário!!!

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