O ciclismo francês de Anquetil e Poulidor: razão e paixão

Prezados,

Como falamos neste post, o ciclismo francês teve em Louison Bobeto o seu primeiro grande campeão do Tour. E mal o herói Bobet se preparava para a aposentadoria logo surgia um outro ícone, e que o ultrapassaria: Jacques Anquetil.

Já me desculpando aos admiradores do grande Fabian Cancellara, Anquetil ainda é o maior rolador da história do ciclismo. Mas para aceitar esta afirmação é preciso entender o que o G.P. des Nations (Grande Prêmio das Nações) representava: ele era chamado de “campeonato mundial de CRI” informal, fazia parte do restrito Super Prestige Pernod (que era o verdadeiro ranking profissional nos anos entre 1958 e 1988) e foi vencido por todos os roladores dígnos deste nome. Ok, vamos a alguns vencedores desta prova:

  • Coppi (2x), Bobet, Koblet, Gimondi (2x), Ocaña, Merckx, Maertens, Van Springel (2x), Schuiten (2x), Van den Broucke, Hinault (5x), Mottet (3x), Fignon, Gisiger (2x), Kelly, Rominger (2x), Boardman, Voigt…e um certo Lance Armstrong!!

PS: os nomes sublinhados eram grandes roladores de CRI e foram reis nos velódromos nas provas de Perseguição Individual Profissional. Antigamente, os maiores roladores de CRI aumentavam seus rendimentos correndo Perseguição, 6 Dias, etc. Era difícil ganhar dinheiro no ciclismo, então a turma se virava do jeito que dava.

Então, está bom de vencedores? Pois Maitre Jacques venceu o G.P. des Nations 9 vezes!! E mais, a sua primeira corrida como profissional foi justamente o Nations, aos 19 anos…e ele venceu!! Fenômeno!

Foto rara: Anquetil num ciclo-cross

Vítima do sucesso – Anquetil estava para as provas por Etapas o que a lenda belga Rik van Looy (Rik I) estava para as Clássicas. Estes dois gênios do esporte polarizaram o ciclismo dos anos 60. E o francês era extremamente popular e requisitado, mas…aos poucos…sua popularidade foi caindo por um motivo inesperado.

O normando Anquetil, loiro de olhos azuis e personalidade bon vivant, estava sempre cercado de mulheres e dirigindo carros esportivos. E tornou-se um fenômeno em cima da bicicleta. O que poderia dar errado? É que ele calhou de ter no seu caminho um outro grande ciclista francês, Raymond Poulidor, o Poupou, que era o seu oposto!

Poulidor ganhou muita corrida importane (Vuelta, Flèche Wallone, Milano-San Remos, G.P. des Nations, Criterium International, etc.), mas nunca venceu o Tour de France e sequer vestiou o Maillot Jaune!! Foi 4 vezes segundo colocado do Tour!! Não era boa-pinta e era um homem simplório, do campo. Tinha tudo para ser menos popular que Anquetil, certo?!

Errado! Poupou conquistou a França e ofuscou Anquetil, que limitou-se a ser respeitado pelas suas grandes vitórias, mas nunca foi querido pelo povo. Acho que isso só acontece no ciclismo!

Pior, Anquetil passou a ser criticado por pulverizar seus rivais nos CRIs e apenas ‘gerenciar’ a diferença de tempo nas montanhas, poupando-se (Indurain também foi acusado disso – aliás, era acusado de copiar Anquetil). Também era considerado um ciclista extremamente cerebral. Já Poulidor era um grande escalador e mais voluntarioso, o que lhe angariava simpatizantes que achavam a superioridade de Jacques Anquetil arrogante.

Como assim? – amigos, eu conheço bem a cultura francesa e eles realmente não gostam de grandes vencedores, sabiam? Francês prefere o segundo, o coitadinho, o humilde…se o sujeito se destaca muito é antipatizado. Isto apesar de curtirem internamente a coisa da grandiosidade francesa (ou grandeur français como eles dizem) dos tempos da colonização, das conquistas de Napoleão, etc., etc. Difícil de entender? Nem tente!

E Poupou ficou mais querido no coração dos franceses do que o charmoso e glamouroso  mega campeão Anquetil. Apesar desta popularidade, Poulidor, que nunca escondeu sua admiração por Anquetil, depois de aposentado confessou que não suportava vê-lo vencer com tamanha autoridade. E Anquetil sempre teve mágoa de não ser tão querido.

Este caso é um bom exemplo de como o ser humano nunca está totalmente satisfeito na vida, não é?

A foto das fotos: Tour 1964, quando Poulidor perdeu o "seu" Tour

Jacques “Terminator” – uma coisa que aprendi hoje, pesquisando numa revista de 1971, é que ele também foi considerado culpado pela fragilidade de quase 10 anos do ciclismo francês, que se seguiu após parar de correr. O grande jornalista francês de ciclismo, Abel Michea, escreveu na Mirroir du Cyclisme de março de 1971:

Estou convencido. Jacques massacrou duas gerações de ciclistas franceses. Oh! E ele pode dormir sobre suas orelhas [expressão francesa] porque ninguém irá acusá-lo. Ele tem direito a todos os atenuantes…E Anquetil foi o lançador da moda das puxadas muito duras, que ajudou a dizimar legiões de jovens esperanças do ciclismo francês.

Poupoumania – pouco antes da edição acima citada, a mesma Mirroir lançou uma edição em homenagem a Raymond Poulidor, com o título: Un Phénomène National (Un Fenômeno Nacional). E o editor Claude Parmentier escreveu:

Jacques Anquetil era um campeão. Poulidor também é um campeão, mas é também um fenômeno social. O primeiro entrou para a história pelas suas vitórias, mas nunca será chamado carinhosamente de Jacquot. Mas o seu eterno segundo foi adotado pela França como Poupou. E por causa dele a língua francesa criou um termo de dicionário, o  poulidoriste  para indicar o eterno segundo querido por todos.

Observação: Poulidor venceu mais corridas do que ficou em segundo lugar. Mas o imaginário popular o associou ao segundo lugar por conta do Tour de France. Fazer o quê…

E o que o maior rival de Poulidor disse sobre ele? Com a palavra um já aposentado Maitre Jacques:

Este diabo de Poupou me meteu medo algumas vezes. Em 1964 eu tive que lutar até a morte para meter-lhe um punhado de segundos. Eu vinha de vencer o Giro e estava desgastado. E hoje ele ainda é o número um do ciclismo francês, aos 34 anos de idade, fato que me alegra muito, pois tenho enorme amizade e carinho por ele.

E sabiamente completou:

Nossa rivalidade não nos prejudicou, bem ao contrário. Sem Anquetil, Poulidor não teria sido o bem-amado da França, por quem as massas deliram. E sem Poulidor eu teria sido menos feliz nas minhas conquistas.

Ainda sobre Poupou eu diria: vai ser azarado assim lá no Limousin (onde ele nasceu)!! O sujeito iniciou a carreira com Anquetil voando. E quando este se aposentou surgiram dois outros fenômenos com idêntica e imensa ambição: Eddy Merckx e Felice Gimondi!! Dava para ser pior?

Aos 38 anos de idade, mais uma vez vice...para o Canibal - a direita o terceiro colocado, Lopez -Carril

E já que citamos o inevitável Merckx, separei as seguintes declarações que ele fez sobre os dois rivais franceses:

Sobre Anquetil: “Sempre foi um cavalheiro. Lembro-me quando no início da minha carreira eu o peguei pelas costas num CRI. Eu tive vergonha de ultrapassá-lo e olhei para baixo, constrangido. Ao contrário, quando a mesma coisa aconteceu contra Rik van Looy eu fiz questão de olhá-lo bem nos olhos, para que ele engolisse todas as provocações que me fez!”

Sobre Poulidor: “Um corredor muito equilibrado, um campeão da regularidade. Ele não tinha a imensa classe de Anquetil, mas seria importante que a França tivesse muitos outros Poulidor. É isso que eu desejo.”

É isso. A seguir virá a geração dos anos 70! Aguardem!

Abraços, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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6 Responses to O ciclismo francês de Anquetil e Poulidor: razão e paixão

  1. Eduardo says:

    Fernando, parabéns pelo texto e tb pelo blog.
    Outra aula de ciclismo e cultura … que muitos outras rolagens venham por ai … quem sabe umas sobre Hinault, Zoetemelk e Cippolini

  2. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Muito bom mesmo ! Cada vez melhor Fernando.
    Como seria bom se surgissem novos talentos no ciclismo francês, comos seria bom….

  3. Sômulo N Mafra says:

    Fotos espetaculares, Fernando!

    A primeira, do Anquetil carregando a bike, é um achado! Conheço um pouco a história dele, mas não sabia que havia competido tb em CicloCross. A foto está perfeita, parece que foi ensaiada para um comercial publicitário, muito show!

    A segunda foto é uma das mais clássicas do Ciclismo Mundial. Até hoje quando a vejo fico impressionado com a quantidade de atributos típicos do Tour de France que são transmitidos por esta foto: sofrimento, dor, rivalidade, disputa, público acompanhando de perto…

    A terceira tb está muito bacana e reflete fielmente o que vc afirmou: a vocação de eterno underdog que o Poupou teve. Merckx parece ter reconhecido isso, ao dar um tapinha nas costas de um já conformado Poupou, rsss…

    Parabéns,
    Sômulo N Mafra

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