1975 – 1985: Década de Ouro do Ciclismo Francês

Após o período Bobet, que inspirou o período Anquetil, a França produziu três grandes vencedores do Tour e grandes personalidades na história do ciclismo profissional. Reparem só as vitórias francesas no Tour nestes anos:



  • 1975 e 77: Bernard Thévenet

  • 1978, 79, 81, 82 e 85: Bernard Hinault

  • 1983, 84: Laurent Fignon

Foram 9 vitórias em 11 edições do Tour!!


Apenas o belga Van Impe em 1976 e o holandês Joop Zoetemelk em 1980 blasfemeram no sagrado solo francês do Tour de France!!


Vamos conhecer um pouco mais sobre estes três grandes campeões:


BERNARD THÉVENET





Momento histórico: Thevenet larga Merckx para vencer o Tour 1975, iniciando o fim da Era Merckx

Nascido na região da Borgogne, terra de vinhos da melhor qualidade, Bernard Thévenet venceu sua primeira etapa no Tour de France aos 22 anos de idade, em 1970, quando da sua primeira participação! Curiosamente ele não estava relacionado sequer como reserva da equipe, mas contou com a sorte e dois titulares sofreram quedas e ele ganhou a vaga – e a honrou!


E ele venceu com classe, no alto de La Mongie (onde Lance Armstrong também venceu!), que é um platô a caminho do topo do lendário Tourmalet. Era um dia de grande nevoeiro e chuva, próprio para uma épica vitória de um grande campeão. Não foi o caso, mas foi a vitória de um futuro grande campeão.


Bernard não venceu muitas corridas de grande prestígio, mas venceu poucas muito boas! Foram dois Tour de France (1975 e 77 + 9 etapas), dois Dauphiné Libéré (75, 76), uma Semana Catalã, uma Vuelta a Catalunya e um Tour de Romandie. Era homem de alta montanha e só focava nisso.


Thévenet fez carreira na grande equipe Peugeot, dirigida pelo lendário Maurice de Muer. Lá permaneceu de 1970 a 1979 – bons tempos em que os esportistas eram leais às suas equipes. Hoje em dia… 


Mas o grande destaque da carreira de Bernard Thévenet foi o fato de ter infligido a primeira derrota a Eddy Merckx num Tour de France. Aliás, a mídia da época não sabia se destacava mais a vitória do francês ou a derrota de Merckx e as razões para tal.


Foi em 1975: Merckx usava o Maillot Arc-en-ciel de Campeão Mundial (venceu em Montreal, 1974) e provava que com ele não tinha essa conversa de “maldição”. Na primavera de 75 ele havia vencido “apenas” a Milano-San Remo, o Tour de Flandres, a Liège-Bastogne-Liège e o Amstel Gold Race (e foi segundo na Paris-Roubaix). A 6a vitória de Merckx no Tour de France eram favas contadas, quase uma formalidade, diziam todos os jornalistas de ciclismo da época.


Mas não foi bem assim que aconteceu. Hoje Merckx diz que haviam sinais claros que o grande corredor de provas por etapas estava em declínio (apesar de tantas vitórias em Clássicas). Num Grand Tour existem outros desafios: a capacidade de recuperação, as etapas de alta montanha, os longos contra-relógios, etc. Mas o Grande Eddy também teve dois problemas enormes naquele Tour:



  1. Na 15a etapa, quando escalavam o Puy-de-Dôme, Merckx foi agredido com um soco no estômago e, além de perder tempo na etapa, teve que tomar uma medicação que o enfraqueceu na etapa seguinte (foto acima, em Pra-Loup) e perdeu tempo para Bernard. A medicação, segundo explicação de Merckx, era para afinar o sangue e fez mal para ele.

  2. Eddy também levou um tremendo tombo, quebrou o maxilar e correu a última etapa de alta montanha, com chegada em Morzine, em péssima condição (não conseguia sequer comer!) – e ele que já não vinha respirando bem em etapas anteriores, nesta a coisa ficou dramática. Ainda assim, cheio de orgulho, venceu o último CRI daquele Tour, somando 2 vitórias de etapas e ficando com o 2o lugar da Classificação Geral, da Montanha e por Pontos. Incrível…



    Foto histórica: o Rei em lágrima explica a covarde agressão

Apesar destes dramas,  apenas Thévenet chegou na frente do Canibal. E olha que Felice Gimondi estava lá também.


Em 1977, Bernard Thévenet largaria de novo como um dos favoritos, ao lado do holandês Joop Zoetemelk e do belga Lucien van Impe. Deu França e Thévenet entrou no panteão dos Grandes do Ciclismo.


Veio 1978 e um jovem de 24 anos também chamado Bernard, mas de sobrenome Hinault, se apresentava com imensa ambição e grandes resultados: ele havia vencido a Ghent-Wevelgen e a Liège-Bastogne-Liège em 76 (às barbas de Merckx, De Vlaeminck, Maertens, Dierickx, Goodefroot, Pollentier, Planckaert e demais super-belgas), o Dauphiné de 1977 e a Vuelta a España de 78.


Mas a dúvida era: o pequeno ciclista da Bretagne (terra sem vinho, mas de grandes campeões do ciclismo francês) faria frente ao experiente bi-campeão do Tour Thévenet? Mais: seu treinador, o jovem Cyrille Guimard, da equipe Renault-Elf Gitane, seria capaz de superar o experientíssimo Maurice de Muer, da Peugeot-Esso?


O que aconteceu– para surpresa geral, Hinault não foi incomodado nem um segundo por Thévenet, porque este sobrou na primeira montanha como se fosse um sprinter. E acabou por descer da bicicleta no Col de Marie Blanque, quando era ultrapassado pelo ciclista holandês de Clássicas planas Gerrie Knetmann a 10 km/h. As fotos da época são chocantes e mostram o sofrimento de um decadente campeão.





A máscara do sofrimento em Marie Blanque, 1978…fim de uma era

Doping – após anos negando tomar qualquer substância ilícita, o ciclista da Borgogna confessou que havia tomado esteróides e estava viciado em corticóides. Provável vítima de medicação errada, Bernard tornou-se uma pálida imagem do grande ciclista que um dia foi.


Em 1979 praticamente não correu e foi demitido da Peugeot. Em 1980, já com 32 anos,  conseguiu um contrato com a forte equipe espanhola Teka e, com muita fibra, enfrentou o Tour de France para terminou num honroso 17o lugar. A mídia francesa – em especial a Mirroir du Cyclisme – foi muito elogiosa ao retorno do velho campeão.


Sua carreira se encerrou de forma apagada em 1981, quando correu pela SEM-Puch, ao lado da lenda portuguesa Joaquim Agostinho. Ainda assim venceu três criteriums.


Pós-pedal – Bernard largou as corridas e poucos anos depois experimentou a carreira de Diretor Esportivo, tendo sido, inclusive, o primeiro diretor do nosso Mauro Ribeiro na RMO. Atualmente é um simpático (e expert) comentarista de ciclismo da TV francesa. Este soube se aposentar, porque só aparece sorrindo onde quer que esteja. Parece gostar da câmera!


Retour a 1978 – este foi o ano da grande troca da guarda do ciclismo francês, com um Bernard substituindo o outro. Só que o mais novo, conhecido como Blaireau (ou texugo, em francês), superou o mais velho em larga margem.





Troca da Guarda: início do Tour ’78…Thévenet é só sorrisos (o boné verde indica que a Peugeot liderava a Classificação por Pontos) e o Hinault vestido de Campeão Francês

Aguardem o próximo post!


Bien cordialement, Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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7 Responses to 1975 – 1985: Década de Ouro do Ciclismo Francês

  1. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Impressionante o Merckx. Mesmo com todos esses problemas, ainda assim, chegar em 2.o . Uma lenda mesmo.
    Já o Thévenet, sinceramente, eu não conhecia. Agradeço por esse post Fernando, pois realmente estou órfão de pai e mãe quanto ao ciclismo em geral.

  2. Até antes desse post eu tb n sabia quem era o cara do lado do Hinault e do Wiggins nas fotos da etapa de ontem da Dauphiné. http://www.steephill.tv/2011/criterium-du-dauphine-libere/photos/stage-04/

  3. Juca says:

    Mascara d edor…Phill Liggett dizia isso..”He’s wearing the mask of pain” -Phil Liggett

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