Bernard Hinault e os Anos de Ouro do Ciclismo Francês

Amigos, preparem-se, porque este post será longo…se você for fundista leia de uma só vez, mas se corredor por etapas tente em “duas ou três etapas”!

Bernard Hinault, ah, esse eu vi explodir no ciclismo….que Campeão com “C” maiúsculo! Completo na bicicleta e com uma personalidade sem igual. Para mim, sem sombra de dúvida, o segundo melhor da história, depois de Rei Merckx!

Aos 22 anos, neo-profissional

Em 1977, quando eu comecei a correr, antes de ir pra escola eu pegava o jornal do vizinho e xeretava os resultados das provas na Europa. Eram notinhas de 3 linhas, mas que me permitiam saber o que estava acontecendo lá fora, quem-era-quem, o nome das provas, etc. E foi assim que acompanhei a vitória de Thévenet em 1977, com Merckx ficando em 6o lugar. Fim de uma era.

Em 1978, já completamente fanático pelo ciclismo, comprei a minha primeira Mirroir du Cyclisme e aprendi a ler francês quase perfeitamente graças a esta revista. Bom, neste ano Bernard Hinault mudou a história do ciclismo mundial.

Mas antes das corridas vamos falar sobre Hinault:

  1. Ele nasceu em Yffiniac, uma vila que pouco ou nada se sabe além do fato de Bernard Hinault ter nascido lá. Mas eu destaco o fato dele ser Breton, i.e. nascido na região da Bretagne, a grande nation ciclística da França. Louison Bobet também era de lá. O Bretão é um povo orgulhoso, que tem forte influência dos povos celtas e fala um dialeto terrível (de origem celta) … eles não chegam a ser como os bascos ou catalães, mas se acham “diferentes” dos demais franceses. E a Bretanha tem um clima ruim – muito vento e chuva – e muitas subidinhas, que tornam o ato de se pedalar uma bicicleta um martírio. Qualquer semelhança com os Flandres da Bélgica não é coincidência rsrs. Não é à toa que de lá sempre saem ciclistas muito fortes, preparados para sofrer.
    As chamadas “Nações Celtas”, com a Bretagne pintada de preto, no bico da França – povos durões com idiomas complicados…

    Ciclismo também é cultura – eu morei na Escócia, que também é uma “Nação Celta” (no alto em azul), e lá muita gente fala a língua celta conhecida como gaélico (por exemplo, Escócia em inglês é Scotland e em gaélico é Alba…nada a ver!). O idioma celta da Bretanha é chamado de Breton e estima-se que 200 mil pessoas da região falem está língua. E apesar de não ter o status oficial de nação celta, os espanhóis da Galícia tem muita semelhança com estes povos – até tocam gaita de foles, como os escoceses.

  2. A personalidade de Hinault é lendária. Foi o maior brigão de todos os campeões do ciclismo. Tinha uma liderança incontestável e por isso ganhou o apelido de Patron (ou patrão). E ele não esperou virar grande campeão para demonstrar sua liderança: no seu primeiro Tour de France, aos 24 anos, ele liderou um verdadeiro motim do pelotão por causa das más condições dos hotéis (qualidade, distância, comida, etc.). Também brigou, aos tapas, contra manifestantes – era comum os franceses (que adoram protestar contra tudo) fecharem estradas do Tour para ganhar audiência da TV. E até agora, com seus 50 e tantos anos, continua não levando desaforo pra casa. As fotos comprovam:

    1978: Hinault novinho lidera a greve e desafia os organizadores do Tour - o já Todo-poderoso Maertens, de Verde, observa o novo "Patron"

E mais:

1984: Hinault retorna às competições pela La Vie Claire e "demonstra sua discordância contra alguns manifestantes na Paris-Nice

E para fechar esta sessão:

Outro dia: fazendo o papel de “diplomata do pódium” do Tour, saiu no tapa contra manifestantes em Besançon

3. Le Blaireau: o apelido O Texugo, segundo a literatura disponível, diz que é porque assim como o pequeno animal, Hinault jamais desistia da sua presa. Ele mesmo, porém, diz que isso vinha de uma gíria do pelotão (algo como “E aí, Blaireau, tudo bem?”). Mas alguns franceses me disseram que o apelido vem do fato que quando bretão atacava ele fazia um movimento facial (como um bico) que o deixava com cara de texugo. Então…

4. O nosso bretão foi o campeão mais íntegro quando o assunto foi Aposentadoria: no auge da carreira, com vinte e poucos anos, ele declarou (e sempre reiterou) que se iria pendurar as sapatilhas no final da temporada de 1986, quando tivesse 32 anos de idade. E mais: disse que isso aconteceria num Criterium a ser realizado na sua cidade natal. E assim foi. E ele ficou 20 anos sem pedalar uma bicicleta! Parou no auge, após ter sido segundo colocado no Tour daquele ano, fazendo o que havia prometido um ano antes: ajudar Greg Lemond a vencer seu primeiro Tour.

5. Pós ciclismo, Hinault se dividiu entre a vida de fazendeiro e algumas funções ligadas ao ciclismo. Como fazendeiro, ele empresariou por 20 anos e, vítima da famosa crise da Vaca Louca, resolveu vender a fazenda. No ciclismo, ele foi o selecionador da equipe francesa para os Mundiais entre 1988 e 1993 – detalhe: ele substituiu nada mais nada menos que Jacques Anquetil. Depois, já nos anos 2000, ele aceitou trabalhar para a ASO, a organizadora do Tour. Entre outras funções, Hinault é o Mestre de Cerimônias do pódium do Tour e apresenta os ciclistas que por alí passam para as autoridades de cada etapa. Eu nunca entendi isso, porque ele, um sujeito tão orgulhoso, fica ali pagando moral para ciclistas com pouca relevância…e muitos nem parecem saber quem ele é ou o que conquistou!

6. Conservador por natureza, Hinault nunca foi de inovar nos aspectos técnicos. Quando correu – e venceu – o Trofeo Baracchi ao lado de Moser, o inovador, Bernard nem sequer usou as rodas fechadas (conhecidas como ‘lenticulares’). Pareciam ciclistas de séculos diferentes: o italiano cheio de tecnologia e o bretão todo ‘farrapeiro’ (licença poética, naturalmente).

1984: vence junto com Moser o Trofeo Baracchi...mas olha a bicicleta do Blaireau

Mas ele aprendeu…

Em 1985, já modernizado, ele rola no CRI para vencer seu 3o Giro d'Italia

7. E ele só correu sob as ordens (sob as ordens?) de dois senhores: Cyrille Guimard (entre 1975 e 1993), nas equipes Gitane (até 77) e depois Renault-Elf Gitane (até 1983), e depois para Paul Koechli, na equipe La Vie Claire (até se aposentar em 1986). Guimard, ele mesmo um ex-craque do ciclismo francês que mal parou de correr tornou-se Diretor Esportivo, pegou Hinault ainda neo-pro e o levou ao estrelato. Mas Guimard era um dirigente centralizador e só um milagre fez com que trabalhassem juntos por tanto tempo. Em 1983, sentindo que tinha em Laurent Fignon  um futuro campeão, Guimard resolveu endurecer e o breton obviamente não aceitou e se mandou.

Hinault se encantou com as técnicas modernas de treinamento do suiço Paul Koechli, assim como com a oferta milionária do empreendedor francês Bernard Tapie. Assim foi criada a equipe La Vie Claire em 1984, cujo objetivo era tornar conhecidos os produtos das empresas de Tapie, especialmente a empresa Look (primeiro equipamentos de ski e depois para ciclismo como bem sabemos). E como deu certo…Mas a vida de Tapie pós-ciclismo foi uma sucessão de confusões. Ele virou apresentador de TV (tinha um ego similar ao Mario Cippolini, deu pra entender?), Deputado Federal, dono de time de futebol, empresário falido-processado-preso por conta de fraudes (foi dono da ADIDAS), etc., etc.

8. Hinault foi ‘tutor’ de três grandes esperanças do ciclismo: dois deram muito certo (Fignon e Lemond) e um não foi muito longe (Jean René Bernaudeau). Os três, de alguma forma, se rebelaram contra o Patron. Jean René, o mais velho, brilhou em 1979 e 80, mas em seguida abandonou a Renault-Elf Gitane, foi para a rival Peugeot e se posicionou como rival declarado de Hinault. Pobrezinho…nunca mais!

Fignon assumiu a liderança da Renault-Elf em 1983 meio que sem querer. Hinault havia vencido a Vuelta (que naquela época acontecia em abril) e, no auge, teve que operar o joelho. Fignon foi correr o seu primeiro Tour e assim como Hinault em 1978, foi, viu e venceu – ainda que com um pouco de sorte, pois o líder e favorito Pascal Simon caiu feio e teve que desistir da prova vestindo o Maillot Jaune. Em 1984, Fignon ignorou o retorno do Blaireau e, arrogante, humilhou Hinault. E nunca mais! Lemond ajudou Hinault a vencer o Tour de 1985, mas depois viveram um festival de desconfianças e acusações mais ou menos veladas. Acho que Hinault foi mesmo um líder autoritário e nunca gerou muita simpatia em seus liderados.

9. Apesar de dominar sua geração, Hinault venceu apenas o necessário em termos de Campeonatos, i.e. uma vez o Mundial (1980) e uma vez o Francês (1978). Nunca focou muito nisso, infelizmente, porque tinha perna para ganhar vários!

10. Hinault tem um recorde que ninguém tem: foi o único ciclista a vencer os três Grand Tours mais do que uma vez cada: Tour 5x, Giro 3x, Vuelta 2x. O grande Merckx só venceu 1 Vuelta. Aliás, Merckx venceu 11 Grand Tours e Hinault 10…pertinho, hein?!

11. Corredor completo: apesar de raramente se enfiar no meio dos sprinters para grandes sprints de pelotão, Hinault poderia vencer ali também. Escalava como poucos (auto-explicativo), rolava como poucos (venceu Prólogos, CRIs aos montes e 5x o GP des Nations) e também venceu belos sprints. O mais espetacular deles, na minha opinião, foi quando venceu os maiores sprinters do mundo no sprint mais disputado do mundo: a última etapa do Tour, no Champs Elysee. Foi em 1982 e a foto da revista é sensacional (mas não achei no Google e a Mirroir está perdida entre outras centenas…).

Foto rara: Hinault vence o Amstel God Race em '81, a frente de De Vlaeminck, De Wolf, Kelly, Raas e o pelotão

12. Em 1982, a revista de ciclismo Vélo publicou um artigo – com foto na capa – em que Hinault e as duas estrelas da Fórmula 1 francesa Alain Prost (tetracampeão mundial) e René Arnoux conversavam sobre esportes – os dois também corriam por uma equipe patrocinada pela Renault-Elf. A foto é linda: Bernard Hinault sentado dentro do cockpit do carro de Prost…e Prost, por acaso, é um fanático por ciclismo!!

Alain Prost entre Merckx e Hinault: foto histórica!!

13. Frases e muitas polêmicas:

  • “Eu não corro para agradar ninguém. Eu corro apenas para vencer”
  • “É possível vencer o Tour de France tomando apenas água mineral”
  • “É ilógico correr o ano todo pela minha equipe ao lado de Lemond, e um dia por ano correr contra ele e ajudar outro francês da equipe rival a usar o Maillot Arc-en-ciel o ano todo” (após ser duramente criticado pela imprensa francesa, por declarar que não rolaria para buscar o americano Lemond no Mundial)
  • “Eu estou aqui para ajudar Lemond, mas não terá presentes: para vencer o Tour terá que pedalar como um vencedor” (uma das diversas controvérsias do Tour 1986)

14. Antigamente os ciclistas de alto eram escalados para os Grand Tours desde novos, tipo 19 anos. Mas Hinault, sob estreita proteção e aconselhamento de Cyrille Guimard, só foi correr o Tour de France após já ter vencidos Clássicas belgas, um Dauphiné, além da Vuelta de 78, dois meses antes da sua estréia na Grand Boucle francesa. A imprensa francesa não se conformava com tamanha esperava e até o impaciente Hinault não aguentava mais. Mas o programa deu certo: Hinault correu o seu primeiro Tour com uma segurança e autoridade de um veterano (de 24 anos…). Fenômeno!

15. Início de 1978: Hinault já havia vencido em Liège e em Wevelgen, além do Dauphiné. Apesar destas vitórias de grande prestígio, ele não havia vencido (ou sequer corrido)  nenhum Grand Tour, mas isto não impediu os franceses de elegê-lo a candidato de sucessor de Eddy Merckx. Olhem estas imagens históricas:

Capa da Mirroir du Cyclisme: Hinault x Maertens...deu França e de longe

E até o lendário desenhista francês Pellos produziu esta histórica caricatura dos dois:

Desisto!!!…dá para ficar escrevendo por meses e nunca publicar o post…escreverei outro só falando das grandes vitórias dele.

Au revoir! Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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9 Responses to Bernard Hinault e os Anos de Ouro do Ciclismo Francês

  1. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Que post maravilhoso ! Quanta informação ! Parabéns, Fernando .
    Realmente o homem era um fenômeno. É impossível comparar atletas de gerações diferentes, mas não concordo quando dizem que, por exemplo, Contador será maior do que Hinault (aliás, isso soa como blasfêmia) ou Merckx (aí já é um ultraje) .

    • Muito obrigado, Rogério!! Olha, eu até acho que o Contador tem idade e potencial para empatar com Hinault, mas só em Grand Tours – estão faltando 2 Tours, 1 Giro e 1 Vuelta. Perfeitamente possível. Mas falta ganhar muitos Clássicos, Mundial e ter a personalidade de Patron…e isso tudo é quase impossível. Empatar com Merckx? Nem eu duas encarnações! Abs!

  2. Eduardo says:

    Parabéns e mais outra aula !!
    Infelizmente ou felizmente o tempo não permite( ou permitiu) o maior encontro de gerações Hinault X Merckx !!!

    • Obrigado, Eduardo! Realmente, foi uma autêntica “troca da guarda” e se deu nos Clássicos de 77, com Hinault já levando vantagem sobre o Maior de Todos. Mas teria sido GENIAL!!! Abs!

  3. Juca says:

    A frase dele que eu mais gosto é:
    “Paris-Roubaix est une connerie” – “Paris-Roubaix é uma besteira” ou “Paris-Roubaix é pura estupidez” – Bernard Hinault em 1981 após o triunfo na P-R.

  4. Thiago says:

    Mais uma grande aula. Valeu Fernando, o Hinault (ou seria Eddy Merckx?) da história em português sobre o ciclismo.

    • Que é isso, Thiago!! Obrigado + abraços, F.

      • Sômulo N Mafra says:

        Concordo com o Thiago! Por ser triatleta, eu tb acompanho blog`s de outros esportes (corrida, natação, triathlon e ciclismo) e nenhum deles é tão completo e rico em detalhes como este. Parabéns por mais um belo post, Fernando!

  5. Sômulo N Mafra says:

    Link para a foto da vitória do Hinault na Champs-Elysées:

    Esta foi a única vitória de Hinault no Tour de 82, e ele fez para “calar os críticos” que o acusaram de ganhar o Tour sem panache. É mole?

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