Bernard Hinault ano a ano!

Bonsoir mes amis!

No último post eu falei um monte de coisas sobre a carreira e a vida do grande ciclista bretão. Neste (e nos próximos) focarei nas suas conquistas. Boa leitura:

A Infância profissional

Em 1975, com apenas 22 anos, Hinault venceu a dura e tradicional Circuit de la Sarthe e o título de campeão francês de Perseguição Individual (seria bi-campeão em 76). Dentre as não-vitórias, destaque para um 7o lugar na Paris-Nice (vencida por Freddy Maertens) e para um critérium pós-Tour em que ele não parou de atacar Eddy Merckx!!

Em 1976 outra vitória de prestígio doméstico, na prova de 1 dia Paris-Camenbert (terra de queijo famoso…), mais várias provas por etapas: Circuit de la Sarthe (de novo), Tour d’Indre-et-Loire, Tour de l’Aude e o Tour du Limousin. Ele já era um dos melhores ciclistas do Hexagono (como os próprios franceses muitas vezes chamam o seu país), ao lado do veteraníssimo Raymond Poulidor.

A Adolescência Profissional

E veio 1977, seu terceiro ano como profissional. Ninguém, por mais otimista ou patriota que fosse, imaginaria que aquele jovem francês, com pouquíssima experiência internacional, poderia se impôr frente aos belgas em duas Clássicas da Primavera. Detalhe: os franceses não venciam uma Clássica desde 1966 (Anquetil em Liège e Stablinsk no Amstel).

Numa Ghent-Wevelgen de 276 km (sim, antes era muito mais longa que os atuais 200 km!!), que aconteceu logo após a Paris-Roubaix (vencida por De Vlaemink), alguns astros ficaram de fora, porque queriam se preservar para as provas da Ardenes (*). Eram apenas Merckx, De Vlaemink e Maertens. Mas lá estavam todas as demais feras do pelotão internacional, i.e. os belgas Goodefroot, Dierickx, Demeyer, Pollentier e Planckaert + todos os holandeses da Raleigh (Kuiper, Raas, Knetmann, etc.), todos os italianos, além do futuro vencedor do Tour (Thévenet) e o de 1973, Luiz Ocaña da Espanha.

(*) naquela época, os grandes ciclistas corriam para ganhar tanto as provas pavés como as provas das Ardenes. Hoje em dia, com a super especialização o pelotão se dividem em dois, com cada grupo focando num perfil específico de corridas.

Voltando a Wevelgen, após uma sucessão de ataques, fugas e perseguições, o jovem francês atacou o seu grupo de sete fugitivos após a última escalado do Mont Kemmel (ou Kemmelberg). Textos da época relatam como seus adversários, muito mais experientes e de prestígio, não conseguiram pegar a roda de Hinault e foi c’est fini.

Hinault já na ponta do pelotão na 2a escalada do Mont Kemmel

Cinco dias depois chegava o dia da La Doyene – “a mais antiga” (desde 1892)-, Liège-Bastogne-Liège. Com o retorno da elite do pelotão (Merckx, Maertens e De Vlaeminck), mais o fato de Hinault não mais ser uma “surpresa”, significava que o francês não teria a menor chance numa prova muito mais dura. Sei, sei…

E Hinault, tal qual um veteranos (que nãoe era), soube aproveitar-se da imensa rivalidade entre Merckx (FIAT), Maertens (Flandria), De Vlaeminck (Brooklyn), Goodefroot (Ijsboerk), etc., para vencer de novo! – o Blaireau, desde novinho, sempre teve pernas + inteligência + raça sem iguais!!

Primeiro, os “reis” do pelotão belga despacharam seus gregários na Coté de Stockeu – Pollentier (representando Maertens), De Witte (por De Vlaemink) e Bruyère (por Merckx) – forçando as demais equipes rivais a persegui-los no trecho mais dura da corrida. Quando foram alcançados, a jovem estrela alemã Dietrich Thurau (da Raleigh) atacou forte e abriu, num primeiro sinal que tudo conspiraria contra a ‘Realeza’ belga. E quem teve de ir atrás do fugitivo? Merckx e alguns gregarios de FIAT. De Vlaeminck, que já havia vencido o Ronde e Roubaix não tinha pernas e Maertens não era muito fã do sobe-e-desce de Liège. Ao final da corrida, Merckx, que nunca gostou de Maertens, falou cobras-e-lagartos dele por causa da falta de ajuda.

E quando Thurau foi alcançado o bi-campeão da Flèche Wallone Andre Dierickx (MAES) fez um ataque mortal, com apenas Hinault conseguindo grudar na sua roda. O Blaireau não puxou até a entrada de Liège, pois temia ser engolido pelos perseguidores e estar sem pernas para reagir. Mas ao perceber que isto não aconteceria – e por achar que não seria digno disputar o sprint sem haver puxado – foi a fundo e ajudou o belga. O mundo achava que, no sprint, Dierickx meteria 10 bicicletas de vantagem no jovem rolador francês…mas Hinault fez o sprint da sua vida (até aquele dia) e o bateu. Tempos depois, Hinault declarou que nem viu a linha de chegada e continuou pedalando até quase atropelar os fotográfos.

LBL 1977: Hinault na roda dos “monstro sagrados”. Na chegada seria diferente

Nota: um texto da época destaca a puxada que Hinault usou naquele dia: 53×14. Que tal? Hoje em dia os meus amigos Sênior/Master usam 54×11…e eu digo pra eles: “Para que?!?”…não adianta este puxadão sem força suficiente para girar as pernas, sem souplesse

De quebra, o Bretão ainda venceu o Dauphiné Libéré em junho e o G.P. des Nations em outubro. Ele não correu o Tour de 1977 porque seu diretor, Cyrille Guimard, achava que era muito cedo – Hinault ainda tinha 23 anos.

A Vida Adulta chegou cedo

Em 1978 ninguém mais duvidava da capacidade de Bernard Hinault vencer tudo. Já havia vencido os belgas na Bélgica, os montanheiros no Dauphiné e os roladores no Nations. Só faltava empacotar isto tudo num Grand Tour de 3 semanas!

La Vuelta – o ciclismo espanhol estava em baixa. Na Vuelta 1978 foram 2.995 km de corrida e apenas 100 ciclistas largaram (só 52 terminaram), com média horária de 35 km/h (incrível, não?).  A largada foi em Gijón e, curiosamente, terminou em San Sebastian, no País Basco – não terminar em Madrid seria bastante estranho hoje em dia, mas acontecia naqueles tempos (no Giro e na Vuelta…no Tour, desde que acompanho, sempre foi em Paris!). Enfim, Hinault venceu 5 etapas e colocou 3 minutos no espanhol José Pesarrodona, da forte KAS. O menino Jean-René Bernaudeau (também da Renault-Gitane Elf de Hinault) chegou em terceiro.

Merckx havia parado de correr meses antes, em março. Ninguém duvidava quem seria o novo patron do pelotão! Mas faltava provar vencendo o Tour de France!

Tour 1978 – Hinault largou para o seu primeiro Tour de France como um dos favoritos, mas ele enfrentaria um grupo de adversários de peso: Thévenet (Tour ’75), Van Impe (Tour ’76), Zoetemelk (3x Vice do Tour), Pollentier (Giro e Tour de Suisse), Kuiper (Tour de Suisse, Campeão Mundial), entre outros.

Apesar disso e mesmo não dominando o Tour como se tornaria padrão no futuro, o Bretão venceu com autoridade os dois contra-relógios e uma etapa de meia-montanha no sprint do grupo. E foi mais regular que seus rivais nas etapas de alta montanha.

Destaque para um escândalo num antes visto: o belga Michel Pollentier, que havia vencido o Dauphiné semanas antes e despontara como favorito, venceu em L’Aple d’Huez, vestiu o Maillot Jaune e foi eliminado minutos depois! Ele foi flagrado tentando fraudar o exame anti-doping (levando um frasco de urina normal debaixo do agasalho da equipe) e eliminado no ato.

Depois de episódio, Hinault só precisou gerenciar os ataques de escaladores como Van Impe e Agostinho e vencer com mais de 3 minutos sobre Zoetemelk.

L’Alpe d’Huez 78: Hinault puxa Kuiper à caça de Pollentier

No final do ano venceu de novo o G.P. des Nations.

1979 – Ano da Confirmação do Patron

Ok, em 1978 ele não deixou dúvidas que as apostas que nele fizeram foram acertadas. Mas haveria um segundo super ano? Sim, houve!

A temporada de vitórias Hinault começou com a Flèche Wallone em abril, seguiu com o Dauphiné em junho, o Tour de France em julho e fechou com glória: mais um G.P. des Nations (o terceiro!) e o Giro di Lombardia (a primeira grande vitória de Hinault em terras italianas).

A dominância de Hinault no Tour de 1979 foi patética:

  • Ele venceu os Maillots Jaune e Vert (Zoetemelk o usou por ser o segundo na classificação)
  • Meteu 3 minutos em Zoetemelk (de novo), que foi pego com doping e tomou 10 minutos de penalização – mesmo assim ficou em 2o lugar.
  • O terceiro colocado – de novo o veterano português Joaquim Agostinho (aos 37 anos de idade!), da Flandria – ficou a distantes e impressionantes 26m53seg !!!!!!!!!!
  • Venceu 5 etapas: na meia montanha de Pau, na alta montanha de Morzine-Avoriaz, os contra-relógios e no plano dos Champs Elysee (destacado com Zoetemelk, bateu-o facilmente no sprint).
Hinault puxa Zoetemelk (usando a Verde no lugar do francês), o francês Raymond Martin (à esquerda) e o italiano dopado Giovani Battaglin (líder da Montanha)

Apesar da dominação acima citada, Hinault tomou um tremendo susto quando na etapa Amiens-Roubaix tomou quase 4 minutos de uma fuga, que contava com os rivais Pollentier, Zoetemelk e Thurau. Bernard furou no primeiro setor de pavés e a troca de roda durou uma eternidade e um grupo de 12 ciclistas foi para a ponta e dane-se o fair-play. Hinault teve de puxar quase que sozinho 100 km para limitar sua perda. Neste dia Zoetemelk tomou-lhe o Maillot Jaune e usou-o até os Alpes, quando foi trucidado por Hinault.

Uma nota sobre o doping: assim como em 1978, o Tour ’79 foi consideravelmente manchado por esta praga. O vice-campeão Zoetemelk foi flagrado e punido em 10 minutos (mesmo assim terminou em segundo lugar). O vencedor da Montanha, o italiano Giovani Battaglin, também foi: também tomou 10 minutos de penalty e perdeu todos os pontos … mas só da etapa em que foi pego dopado, i.e. caiu para 6o na Geral e ainda conseguiu o camisa de bolinhas vermelhos. Além de outros menos cotados, como Van Looy e Chaumaz. O doping vem de longe, amigos, de muito longe…

É isso por hora…falar das vitórias de Hinault precisará de muitos posts!…

A Bientot, Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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3 Responses to Bernard Hinault ano a ano!

  1. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Hinault era um dos caras ! Ele tem aquele olhar assassino, inquebrantável mesmo. Excelente post, Fernando !

  2. José Carlos SBC/SP says:

    Post sensacional!
    Esses caras passavam o ano inteiro competindo, entrava numa prova para vencer, diferente de hoje que um top entra numa prova, toma mais de 10 minutos na geral e no final diz que estava apenas se preparando para o Tour, por exemplo.
    Se o Contador vencer o Tour, ou ele arrisca na Vuelta, ou só ano que vem, o cara até some da midia (se não se meter em mais problemas, é claro, hehehe).
    É isso aí Fernando, se seu teclado gastar, te mando outro.
    abraço.

  3. Fabio Corte Real /Sorocaba SP says:

    Ótimo Fernando !
    Exemplar para quem acha que Armstrong foi o maior ciclista do mundo ?????? Meu Deus!
    O bitolado atleta de uma prova só .Agora o mundo sabe como !
    Grandes ciclistas, como Merckx, Hinault, Indurain, construiram Palmarés versáteis ( Tour, Giro, Vuelta, Classicas e outras mais…
    Até hoje Bernard Hinault se faz presente nos podiuns do Tour.
    Vida longa, campeão!!!!

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