Vive Le Tour 2011 – Passage du Gois

Bonsoir!

E neste sábado começa o Grand Tour dos Grand Tours: o de France!! E começa num lugar particularmente pitoresco que, possivelmente, tenha mudado a história do ciclismo para sempre!

Le Passage du Gois (em português fala-se Goá)- é uma estrada de 4,5 km, que liga a França continental à ilha de Noirmourtier. O diferente é que duas vezes ao dia, quando a maré sobe, a passagem/estrada fica absolutamente submersa, sendo visualmente impossível se imaginar que por ali se atravessa aquele estuário.

Um belo lugar turístico...em condições normais

Mas quando a maré sobe…

…a estrada some!!!

Tour de France 1999, 2a etapa, Challans – Saint Nazaire: numa 2af de sol e calor os 202 km daquela etapa absolutamente plana, feita para os sprinters, prometia emoções fortes apenas nos últimos 1.000 metros.

Só que com que pouco mais de 70 quilometros o pelotão atravessaria a Passage du Gois e ali aconteceria um dos mais espetaculares tombos coletivos da história do Tour. Como disse acima, a Passage fica submersa várias horas do dia e os organizadores do Tour falharam na projeção de horário e nas consequências do alagamento diário. Em outras palavras, quando o pelotão lá chegou a maré já havia recuado, mas o solo estava um sabão, tamanha humidade, limo e detritos trazidos pelos carros da caravana.

Com o pelotão entrando na Passage a mais de 50 km/h, assim que o primeiro ciclista deslizou no piso traiçoeiro dezenas de outros capotaram e bloquearam a estrada. Moral da história, o favoritíssimo Alex Zulle (Banesto) e um grupo enorme tomaram mais de 6 minutos do pelotão que se rachou. Lance Armstrong estava neste grupo, que disputou a chegada e foi vencido pelo super sprinter belga Tom Steels.

"Carnificine du Gois"

O suiço Zulle já havia vencido a Vuelta 1991 e sido segundo colocado do Tour 1995 (vencido por Indurain), sempre correndo pela espanhola ONCE. No entanto, em 1998 cedeu à proposta milionária (e ‘farmacêutica’) da FESTINA e foi envolvido no escândalo do doping daquele Tour (vencido por Pantani, com Ullrich em segundo).

Suspenso pela UCI por apenas 1 ano, ele retornaria ao pelotão à véspera do Tour 1999. Tal qual um relógio suiço, Zulle treinou no exato percurso das provas que fariam parte do seu calendário de corridas em 1999, sempre largando 1 hora antes do pelotão. Com sol, chuva ou neve, ele percorreu todos (!) os quilometros que teria corrido se não estivesse suspenso.

Voltando ao Tour ’99, Lance Armstrong foi a surpresa do ano ao vencer o Prólogo, mas eu e o mundo considerávamos aquilo um acaso e que o suiço esmagaria a concorrência nas montanhas. Mas o destino mostrou que Lance estava muito forte mesmo, não só não perdendo nada para Zulle, mas ainda colocando mais 1 minuto nele nas etapas que se seguiram.

Por outro lado, Alex Zulle enfrentou as etapas de montanha com mais de 6 minutos de atraso em relação ao texano, fato que, seguramente, mexeu com a moral do suiço. Não fosse o tombo coletivo na Passage du Gois e o atraso de 6 minutos, talvez Zulle o enfrentasse com outra condição psicológica e vencesse o Tour – e talvez Lance não teria tido a trajetória tão brilhante que teve.

Tudo, repito, TUDO isso no terreno das hipóteses e suposições. Mas certamente este pedaço de estrada semi-alagado influenciou o primeiro Tour de Lance Armstrong e talvez a história do nosso esporte.

Tour de France 2011: Passage du Gois – Mont des Alouettes, 191 km

Se nada der errado na Passage du Gois, o pelotão deve chegar compacto no Mont des Alouettes, mas a vitória não deverá ser de um sprinter puro. Favoritos? Em primeiríssimo lugar vem Phillipe Gilbert. Outros? Edvald Boasson-Hagen (norueguês da Sky) e Peter Sagan (eslovaco da Liquigas).

E eu estarei pedalando a minha Bianchi no rolo em frente da TV!!!

Allez!!!

Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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10 Responses to Vive Le Tour 2011 – Passage du Gois

  1. Rogério Yokoyama-Palmas/TO says:

    Essa passagem do TDF/99 eu não sabia….
    Fernando, quais são seus candidatos ao pódio este ano ?
    Abraços.

  2. Gustavo says:

    Ótimo post, como sempre. E, Fernando, parabéns pela matéria sobre o Mauro na VO2 de julho !

  3. jucaxc says:

    Belo post Fernando!!!! Passage du Gois é sensacional e em 2004 a Passage du Gois também entrou na rota do TdF e naquela edição quem se deu mal foi Iban Mayo (Euskaltel-Euskadi) que estava em grande forma e tinha ganho o Dauphiné Liberè e era apontado como uma pedra no sapato de Lance Armstrong… acontece que o pelotão veio rasgando na Passage du Gois e houve um tombo no meio do pelotão e Mayo caiuna muvuca e a USPS de Armstrong colocou de ponta em ritmo alucinante e foi embora acelerando…no fim o basco perdeu mais de 3 minutos!!!! ou seja, você não ganha o TdF em um dia, mas pode perder em um dia!!!

  4. José Carlos SBC/SP says:

    Sensacional Fernando!
    Li o post algumas vezes (como se fosse possível ler apenas uma vez o que vc escreve, hehehe)e depois assistindo o pelotão passando pelo local antes da largada oficial foi de arrepiar.
    Valeu.

  5. Fabiano says:

    Olá Fernando

    Me lembro desse estagio do TDF-99 e considero esse tour como um dos melhores para quem curte chegadas em sprints.
    Seu blog está excelente!
    Abraços

    • Muito obrigado pelo apoio, Fabiano!
      Uma coisa que eu não parei para analisar – e que seria interessante – é a seguinte: quantos concorrentes de fato temos em cada uma das principais Classificações, i.e. quantos ciclistas com real potencial de vitória. No período 97-99, haviam chegadas que Cipo, Zabel, Moncassin e Blijlevens (esqueci de mencionar este no post) chegaram emparelhados! Valeu, Abs!

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