O rico Ciclismo Basco

Caros – na sequência da simpática prova basca Classica San Sebastian, escrevo aqui sobre o ciclismo do País Basco (ou Vasco). Esta linda região da Espanha é mais conhecida por aqui e no mundo, lamentavelmente, por causa das ações terroristas do grupo ETA. Mas o povo de lá é nota 1.000 e é o mais fanático por ciclismo de toda a Espanha, ou talvez de toda a Europa.





A bandeira do Pais Basco não tem nada de cor de laranja….

Aquela pequena região montanhosa (lá no norte, na fronteira com a França) sempre teve duas voltas de uma semana de grande expressão: a Vuelta al País Vasco e a Bicicleta Vasca – ou no indescritível idioma local: Euskal Herriko txirrindulari itzulia e Euskal Bizikleta – deu pra sacar a complexidade da língua? Até onde eu sei, estudiosos não conseguiram até hoje precisar a raiz linguística da Euskara (nome do idioma basco).


A região da Viscaya (ou Pais Basco ou Vasco em espanhol) compreende duas Regiões Autonômas (parecido com o que aqui chamamos de Estado): Euskadi e Navarra (terra de Miguel Indurain).





Euskal Herria (ou Pais Basco)…olha onde fica: tão pequena e tão ciclística!

Volta ao País Basco – está prova sempre fez parte dos principais rankings da UCI e agora não é diferente. Acontece sempre no meio de abril, geralmente entre o Tour de Flandres e a Paris-Roubaix, e é a terceira grande volta de 1 semana do calendário (primeiro vem a Paris-Nice e depois a Tirreno-Adriatico) – em seguida vem o Tour de Romandie. Estão todas no mesmo patamar.


Não é prova para principiantes, dado que os fortes ciclistas bascos a disputam à morte e as montanhas são duras! Os vencedores sempre foram da melhor qualidade (corredor médio é a absoluta exceção). Que tal: Bartali, Anquetil, Ocaña, Kelly, Roche, Zulle, Rominger (3 vezes seguidas!), Jalabert, Menchov, Di Luca e Contador (2x). Curiosa a trajetória do alemão Andreas Kloden, que a venceu em 2000, quando era considerado o herdeiro de Jan Ullrich, e agora em 2011, quando já é um veterano de 36 anos. Ah, e Eddy Merckx – milagre! – nunca venceu esta!!


Apesar dos ciclistas bascos amarem esta prova (como os flamengos veneram o seu Tour de Flandres/Ronde van Vlaanderen), o seu grande ídolo Miguel Indurain nunca a venceu. Não sei se sabem, mas Don Miguel nunca gostou do frio e da chuva, marcas tradicionais desta prova. Miguel dizia que tinha dificuldades na Vuelta a España porque esta era corrida em abril (antes do Giro) até 1995 e o frio jogava contra ele.


Outro basco famoso que também nunca venceu a sua Volta foi Marino Lejarreta, tendo sido 3o colocado nela nada menos que 4 vezes! Marino tinha uma classe danada. Na Vuelta a España, porém, venceu e ousou atacar o todo-poderoso Bernard Hinault em seus anos de ouro. A Vuelta de 1983 foi lendária por conta dos incessantes ataques do ciclista basco, que venceu 3 etapas e ficou em segundo lugar na Geral para Le Blaireau. Talvez os esforços a que foi exigido nesta Vuelta agravaram os problemas que levaram Hinault a não largar no Tour ’83, vencido por Laurent Fignon.





Tour 1990: já veterano, Marino mede forças com o futuro vencedor Lemond e um promissor Indurain.

Antes do surgimento de Indurain era Marino Lejarreta o grande nome do ciclismo basco e espanhol. Venceu a Vuelta de 1982 em cima do belga Michel Pollentier por 18 segundos. Pollentier já havia vencido o Giro d’Italia e o Tour de Suisse em ’77, o Tour de Flandres ’80 e muitas outras provas de grande destaque. Era amigão e co-equipier de Freddy Maertens na poderosa Flandria-Velda-Lano. No Tour de France caiu em desgraça em 1978, quando foi flagrado tentando fraudar o exame anti-doping, após vencer em L’Alpe d’Huez e vestir o Maillot Jaune. Foi um vexame…


Voltando a Marino, no seu final de carreira, talvez por sentir que as novas gerações sempre o bateriam na Classificação Geral dos Grand Tours, ele mudou a estratégia da sua carreira. Ao invés de correr as muitas voltas de 1 semana que recheavam o calendário espanhol na época (toda Província tinha a sua!), o basco passou a correr e terminar com destaque os 3 Grand Tours no mesmo ano.


Ele fez isso 4 vezes – recorde absoluto! – e não corria apenas para fazer número, não! Os números:



  • 1987: 34o Vuelta, 40 Giro, 10o Tour

  • 1989: 20o Vuelta, 10o Giro, 5o Tour

  • 1990:  55o Vuelta, 7o Giro, 5o Tour (1 etapa)

  • 1991: 3o Vuelta, 5o Giro (1 etapa), 53o Tour

Também venceu a importantíssima Vuelta a Catalunya 2 vezes e a sua Classica San Sebastian 3 vezes! Além disso, venceu umas 10 x as grandes provas espanholas em escalada, como Subida al Naranco, Escalada a Montjuic (em Barcelona) e a Subida a Urkiola.


Bicicleta Vasca – a ‘prima pobre’ também teve seus grandes campeões, em especial nos anos 90, quando os seguintes vencedores do Giro d’Italia também a dominaram: Giani Bugno, Franco Chiocciolli, Euvegni Berzin e…Miguel Indurain. Outro basco, Abraham Olano também a venceu 2 vezes.


Olano é um caso emblemático, que eu vi nascer e acompanhei de perto. A cena era a seguinte: Don Miguel empolgava a Espanha, que até então era considerada uma nação menor no ciclismo europeu. Ele brilhava no Tour e no Giro. Enquanto isso, o jovem neo-pro Abraham Olano não fazia nada de relevante entre 91 e 93. Mas em 1994 um olheiro o descobriu para a então mega-equipe MAPEI (de Johan Musseuw, Andrea Taffi e tantos outros craques) e ele se transformou: venceu os Campeonatos da Espanha de Estrada e Contra-relógio. De quebra venceu a Vuelta a Asturias.


Em 1995, porém, Olano mudou de patamar: fez um espetacular 2o lugar na Classificação Geral da Vuelta, vencendo 3 etapas e dando um tremendo calor no vencedor, a então fera Laurent Jalabert (que corria para a lendária equipe basca ONCE). Embalado e em grande forma (foi o primeiro ano em que a Vuelta foi corrida em setembro, seguida do Mundial), Olano seguiu com a armada espanhola para Duitama, na Colômbia, para disputar o Mundial.


Num circuito feito para cabritos (eu tenho o VHS e é impressionante), a Espanha de Indurain e Olano dominou os poucos rivais que chegaram na volta final…entre eles um já reconhecido Marco Pantani. Num jogo de equipe perfeito, Olano atacou na certeza de que seria alcançado e confiante que Indurain contra-atacaria para vencer o Mundial.


Mas seus adversários estavam exaustos e Olano não seria alcançado, seguindo firme para conquistar o primeiro Mundial da história do ciclismo espanhol. De forma assustadora, no último quilometro o tubular de Olano furou mas ele seguiu inabalável…a câmera de TV, na moto, filmando aquele aro achatado foi emocionante. No sprint para o pódium, Don Miguel bateu Pantani, fechando um top 3 de Mundial pouco usual, apenas com escaladores.





Vitória histórica para o Pais Basco e para a Espanha

Apesar disso:


Veio 1996 e Olano tornou-se gente grande na cena internacional. Correu o Giro muito bem, vestiu a Maglia Rosa nas Dolomites, mas não resistiu ao escalador russo Pavel Tonkov: teve um jour sans na última etapa de montanha e acabou o Giro em 3o na Geral. No Tour largou como candidato ao pódium, já que Indurain era inquestionável (acabava de vencer de forma insolente o Dauphiné).


Mas como todos sabem, há 25 anos mudava um capítulo da história do ciclismo mundial: a forma de Indurain simplesmente desapareceu (misteriosamente, aliás) e o gigante simpático acabou o Tour num dramático 11o lugar. A festa foi da equipe alemã Deustche Telekom, com vitória do dinamarquês Bjarne Riis. Os alemães Ullrich (2o na Geral) e Zabel (primeiro por Pontos) completaram a festa…regada a EPO como viríamos a saber 10 anos depois.


Elano Olano<<desculpem-me, torço para o Santos e ando traumatizado – valeu, Juca>>, correndo pela poderosa MAPEI ao lado de Tony Rominger (ex-tricampeão da Vuelta e vencedor do Giro 95), ficou entre os primeiros durantes várias etapas mas outro jour sans o despachou para o 9o lugar na Geral.


Miguel aposentou-se dos pelotões em setembro do mesmo ano, ao abandonar a Vuelta a España irritadíssimo com sua equipe BANESTO (também basca!). Automaticamente, Olano tornava-se para toda a Espanha o “herdeiro ungido” do grande ciclista de Navarra.


No ano seguinte, em 1997, Olano era favorito para o Tour e, apesar do honroso 4o lugar na Geral e de uma vitória de etapa, o ciclista de Gipuzkoa foi considerado uma decepção nacional. Até porque em nenhum momento conseguiu rivalizar com Ullrich, Virenque e Pantani – o top 3. Dali pra frente, em termos de Tour de France, foi ladeira abaixo e nunca mais fez nada na terra dos gauleses.


Olano viria a resgatar um pouco da sua honra como ciclista de Grand Tour ao vencer a sua Vuelta em 1998 (com uma vitória de etapa) – além de um surpreendente 2o lugar na Classificação Geral do Giro de 2001, quando ninguém mais esperava nada dele. De resto, seus principais sucessos sempre foram graças a sua capacidade de rolador: venceu o Mundial de CRI, uma Prata nos Jogos Olímpicos e o G.P. Eddy Merckx.





Voando no CRI, vestido de “Oro”, para vencer a Vuelta

Outras vitórias de destaque foram: Tirreno-Adriático, Tour de Romandie e Criterium International (sempre graças ao seu forte CRI). Venceu muito, mas muito menos do que dele se esperava. Classe ele tinha. Mas teria faltado resistência para os rigores das 3 semanas dos Grand Tours? Será que o Gatorade dele seria menos turbinado do que os concorrentes? Nunca saberemos ao certo. Ah, também sempre foi muito simpático.


Enfim, Olano teve uma carreira bonita, mas marcada pela esperança que todo um país nele depositou. O mesmo aconteceu quando Merckx e Hinault se aposentaram, gerando uma tremenda pressão sobre seus sucessores (que fracassaram da mesma forma…).


Equipe Nacional– a equipe Euskaltel Euskadi é conhecida por todos e muito simpatizada, pois representa o orgulho nacional do seu povo…é, os Bascos tem uma identidade como nenhuma outra que eu conheça na Europa. Eles relutam muito em aceitar qualquer ciclista que não seja basco/navarro, sendo a grande exceção Samuel Sanchez, Asturiano, de Oviedo. O patrocinador da equipe é a empresa telefônica da região (Euskaltel). Nunca venceram um Grand Tour, mas são sempre fortes protagonistas. Tiveram o forte escalador Iban Mayo que infelizmente não rolava nada. E ano passado estavam com grandes chances de vitória na Vuelta com Igor Anton – que sabe este ano? Além de Sanchez, naturalmente, que andou forte no Tour.





Cena clássica – e bonita – quando a estrada sobe na Vuelta

Bicicleta de primeira– a grande bicicleta espanhola também é basca. Quem não conhece as belas máquinas ORBEA e seu modelo agressivo Orca? Pois é, vem de lá também!





Equipando a “equipe nacional”…não poderia ser diferente!

Espanha x Pais Basco, que é melhor?


Ok, parece sacanagem comparar uma pequena província (de 2,15 milhões de habitantes) com todo um país (46 milhões), não é?! Mas a análise abaixo – considerando aqueles que considero os grandes nomes da história – dá conta da qualidade do ciclismo daquela região, quando comparado com o país todo:


Pais Basco: Miguel Indurain (5 Tour, 2 Giro), Marino Lejarreta (1 Vuelta), Abraham Olano (1 Vuelta, 1 Mundial), Igor Astaloa (1 Mundial).





Tempos recentes: Miguel e Marino, orgulhos de uma Nação, participam de um Grand Fondo

Espanha: Federico Bahamontes (Toledo / 1 Tour), Pedro Delgado (Segovia / 1 Tour, 2 Vuelta), Luiz Ocaña (Cuenca / 1 Tour, 1 Vuelta), Roberto Heras (Bejar / 3 Vuelta), Oscar Freire (Cantabria / 3 Mundial + Clássicas), Alejandro Valverde (Murcia / 2 UCI ProTour, 1 Vuelta + Clássicas), Samuel Sanchez (Oviedo / Medalha de Ouro J.O. Beijing), Carlos Sastre (Madrid / 1 Tour), Alberto Contador (Madrid / 3 Tour, 2 Giro, 1 Vuelta).


Na minha visão, esta análise – que é a melhor que consegui fazer com o pouco tempo e espaço que temos – mostra que os Bascos fazem bonito demais na história do ciclismo espanhol e são, de longe, a região mais vitoriosa da Espanha.


Adiós! Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
This entry was posted in Uncategorized. Bookmark the permalink.

7 Responses to O rico Ciclismo Basco

  1. Davi Benati says:

    Mais um post irretocáve, Fernando!
    Seu blog é fantástico, meus parabéns mesmo pelo belíssimo trabalho!

  2. Edson Sobreira says:

    Sensacional esse post, realmente os laranjas são torcedores que impressionam pela forma como gostam do ciclismo, lembro bem no Tour de 2003 (mais dificil que o Armstrong venceu) como os bascos ficavam loucos quando Iban Mayo atacava nas subidas. Lembro que a primeira vez que vi um vídeo da equipe em uma prova, foi quando Roberto Laseika venceu uma etapa da Vuelta e o uniforme ainda não era laranja.

  3. jucaxc says:

    Ótimooooo!!! Muito, muito muito show!!! Eu sempre fui admirador dos bascos (devido a questões até que políticas, pois creio que são um dos povos que não entraram no loteamento que os estadunidenses fizeram depois de 91…), enfim, são um povo de grande identidade com as coisas que gostam e certamente o ciclismo é uma dessas coisas. Em duas ocasiões eu conheci bascos. Na primeira vez eu trabalhava em uma empresa e iria ter um treinamento em uma máquina e um “espanhol” iria dar o treinamento. Perguntei se ele era espanhol e o cara disse que era basco! ae eu puxei assunto e ele me disse que a empresa que ele trabalha (Danobat) era do mesmo grupo (Mondragon) dono da Orbea! na outra ocasião eu fui visitar uma empresa que faz vagões de trem, era julho mês de TdF e na véspera o Mikel Astarloza tinha ganho uma etapa…ae estavamos no refeitório e chegou um cara com uma camisa com a bandeira do Pais Basco, e como eu estava com uma camisa amarela do TdF o cara me disse com um sotaque espanhol-basco-português ” Assistiu ontem?”…e eu que não sou leigo, disse que sim e que vi o basco ganhar e tinha torcido pra ele! Gora ta gora Euskadi! (essa tem no livro do Lance…vamos Pais Basco)…o cara ficou admirado, pois muitos aqui sabem que quando um europeu conhece algum brasileiro que gosta de ciclismo fica surpreso pois pensam que brasileiro só pensa em futebol, o FB sabe disso pois na Bélgica um amigo wallon dele ficou muito surpreso em ver FB torcer e saber de ciclismo mais que ele! Espero que eles sempre sejam vitóriosos e que continuem dando apoio ao ciclismo como fazem, pois sua equipe a Euskaltel-Euskadi é mantida pelo patrocínio da empresa de telefonia e pelos associados da Fundação Euskadi que formenta o ciclismo basco, e a Espanha está com ótimos ciclistas (e também com ótimos desportistas no tênis, F1, basquete, futebol…)…

  4. Pingback: Por essa eu não esperava…surpresa do dia, ou do ano! | Ciclismo Brasil

  5. Excepcional !!!!! Vale a pena demais ler este blog ! Parabéns, Fernando !

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s