Zurich: ciclismo da melhor qualidade na terra do dinheiro

Amigos,

No calendário internacional, o Championship of Zurich -também conhecida como Zuri-Metzgete ou Meisterschaft von Zurich, na língua local – sempre ocupou lugar de imenso destaque. Se a tradição definisse que deveríamos ter 6 Monumentos (ao invés de 5), certamente esta corrida seria a 6a.

O atual logo da prova (EKZ é o patrocinador)

Antes da mudança radical do calendário, até 1994 Zurich era disputadas na virada da Primavera, logo após Liège. A partir de 1995 passou a ser corrida após o Tour de France, junto com Classica San Sebastián, Hamburg Cyclassics (Hew, Vattenfalls), G.P. de Plouay, etc.

História – Calendário pré-1995

Pegando carona na mudança de datas do Ch. of Zurich, vamos analisar duas principais mudanças no calendário mundial:

  • Vuelta de España – era corrida em abril, logo antes do Giro e ‘competia’ com as Clássicas da Primavera. Dificilmente, portanto, tinha a participação dos melhores italianos e ciclistas top de Clássicas. Às vezes alguém usava a Vuelta para ‘treinar’ para o Tour (Hinault fez isso duas vezes). Depois passou para setembro e ganhou muito em prestígio, pois não competia com mais nenhuma prova e, melhor ainda, tornou-se uma boa preparação para o Mundial. Também passou a servir como última oportunidade da temporada para ciclistas que decepcionaram no Giro ou Tour. Não é por outro motivo que exitem tão poucos doubles Vuelta-Giro: apenas Alberto Contador < valeu, Davi! >, o italiano Giovanni Bataglin, em 1981, e o inevitável Eddy Merckx em 1973 – o Canibal optou por não correr o Tour e abriu espaço para o espanhol Luis Ocaña vingar-se do destino, após sua trágica queda de 1971, quando vestia o Maillot Jaune e tudo indicava que venceria Merckx.
  • Mundial de Ciclismo – era corrido no final de agosto e era, literalmente, a primeira  corrida importante após o Tour de France. Os ciclistas que estavam voando no Tour corriam uma dúzia ou mais de criteriums para ganhar um bom dinheiro e manter a forma para Mundial. Após a prova Arcen-ciel a maioria pendurava a sapatilha. Hoje é diferente, pois os ciclistas candidatos ao Mundial têm que manter a forma em alta até o fim de setembro. Esta mudança foi muito criticada pelos ciclistas e as vitórias de alguns nomes pouco relevantes após a mudança dava razão para os reclamões. Exemplos: 1995. Olano/Esp, 1997. Brochard/Fra, 1998. Camenzid/Sui, 1999. Freire/Esp, 2000. Vainstein/Lat – em 1996, em Lugano na Suiça, a vitória do belga Johan Musseuw não foi surpresa. A partir daí os melhores ciclistas aprenderam a periodizar suas temporadas e grandes campeões voltaram a vencer o Mundial. Exemplos: Hushvold, Bettini (venceu duas vezes), Boonen, Cippolini, Evans e um já famoso Freire (venceu mais duas vezes).

    Musseuw vence o duro Mundial de 1996, no duro circuito de Lugano, na Suiça

De volta pra Suiça – perdõem-me a divagada, mas voltando para a capital do dinheiro (sim, Zurich é onde fica a sede dos maiores e famosos bancos suiços, onde muito brasileiro já mandou dinheiro ‘esquisito’ para lá), a Zuri-Metzgete foi disputado pela primeira vez em 1914, parou na I Guerra Mundial e voltou a ser disputado em 1917 para não para mais, inclusive durante a II Guerra Mundial. Por ser país neutro, a Suiça continuar com suas atividades esportivas intactas de 1939 a 1945. É, portanto, a única Clássica que foi disputada initerruptamente durante tanto tempo.

Mas…tem sempre um mas…a crise econômica que se abateu sobre o ciclismo nos últimos anos matou esta linda prova! Desde 2007 o Championnat de Zurich (seu nome em francês…a Suiça tem quatro idiomas oficiais: alemão, francês, italiano e romanche) tornou-se uma grande e festiva prova para amadores, uma ciclo-turística/grand-fondo. Que pena!

Grandes vencedores: os suspeitos de sempre. A grande armada belga a dominou nos anos 70, com Maertens, De Vlaeminck, Godefroot, Van Springel…e esta Merckx não ganhou – só fez um pódium, em 1975 perdendo para O Cigano De Vlaeminck. Ludo Peeters (anos 80) e Johan Musseuw (anos 90) honraram a Bélgica mais recentemente.

Gregario de Eddy Merckx, Roger Swerts venceu Zurich em 1969, além de uma Ghen-Wevelgen...apesar da barriguinha

Os grandes italianos Moser e Saronni venceram lá atrás, mas outros dominaram a prova dos anos 90 para cá: Bartoli, Fondriest, Rebellin, Bettini, Bortolami, Nardello, Ferrigato e Frigo. Franceses raramente a venceram, assim como espanhóis…mas coube ao Campeão Olímpico Samuel Sanchez, da Euskaltel-Euskadi, equipe de Grand Tours, vencer sua última edição em 2006.

Pelas minha análise, a prova foi feita para ciclistas de Clássicas, com seu terreno sendo similar ao da Liège-Bastogne-Liège mas não tão duro. Tanto é que Moser, Maertens e Saronni a venceram. Os grandes campeões do Tour nunca a venceram: Anquetil, Merckx, Hinault, Indurain ou Lance. O americano até fez um podium. Eu tenho o DVD e a corrida selecionou 9 craques, até que estes se espalharam na subida final, ao lado do lindo lago de Zurich.

Os suiços, por outro lado, a venceram pouquíssimas vezes nas últimas décadas: apenas Laurent Dufaux (que é do lado francês da Suiça) em 2000 e Beat Breu (este sim da região de Zurich) em 1981.

Este Beat era um magrelinho que escalava como um cabrito! No Tour de 1982, vencido por Bernand Hinault, o suiço surpreendeu o mundo vencendo 2 das mais difíceis etapas da prova: L’Alpe de Huez e Saint Lary Soulon. Ele corria por aquela que foi a grande equipe suiça das últimas décadas: a Cilo-Aufina, combinação das lindas bicicletas Cilo e do banco suiço Aufina. A Cilo quebrou em 2002, lamentavelmente.

Escalando para vencer no Tour de France, mas como não rolava nada terminou em 6o lugar em 1982

Os resultados suiços na sua grande clássica também mostram como o ciclismo daquele país é mais frágil do que seus vizinhos europeus. Tiveram grandes nomes nos anos 50, como Hugo Koblet e Ferdi Kubler, nos 90 com Alex Zulle e Tony Rominger, e agora Fabian Cancellara, mas raramente tem nomes dominadores na cena mundial.

É isso. Nunca é legal escrever sobre grandes provas ou equipes que desaparecem, mas nestes tempos de crise econômica isto faz parte do jogo.

Abraços, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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14 Responses to Zurich: ciclismo da melhor qualidade na terra do dinheiro

  1. Davi Benati says:

    Fernando, elogiar a qualidade de seus posts e do seu Blog é chover no molhado, então dessa vez vim aqui para uma pequena correção: faltou o double Vuelta-Giro do Contador em 2008, quando a Astana foi “convidada a não participar” doTdF!

  2. George Panara says:

    Eu só não colocaria o Mundial de 1995 – na Colômbia nessa conta, o Olano só ganhou porque o Indurain resolveu não atacar o companheiro de seleção Abrahan Olano (que vinha com um pneu furado) e levar na roda o Pantani que poderia complicar as coisas e tirar da Espanha o primeiro lugar no pódio. Olano foi um vencedor acidental, ou o grande homenageado de Indurain que correu mais pelo país do que pelo título pessoal.

  3. George Panara says:

    Mudanças e reoorganização de calendário que resultaram numa quebradeira de pequenos organizadores de provas super tradicionais e o rebaixamento de hierarquia/importância das mesmas, período de promoção à exaustão dos escandalos de doping (o ciclismo foi toda a vida o alvo dos escandalos de doping,, até parece que nos outros esportes isso não existia(e) , equipes com vida cada vez mais curta, orçamentos apertados.E o ciclismo sobrevive e continua levando público ás estradas e avenidas aonde não se paga ingresso para ver por alguns instantes a passagem do pelotão , sentir o vento deslocado pelo grupo, o som das rodas e das trocas de marchas – parace que é só isso, mas a carga de emoção é enorme.

    • George, você comenta sobre uma grande mudança no lado “business” do ciclismo. Apesar de ser profissional, era pífio. Aí foram influenciados pelo estilo americano e radicalizaram, com os impactos que você bem colocou. Eu não tinha isto de forma estruturada na cabeça – obrigado! Quanto ao doping…até na academia de 2a linha aqui da esquina tem…onde não terá. O ciclismo paga por ser mais transparente…não que isso justifique seus próprios erros…mas os demais esportes são uma vergonha! Vide o caso do Cielo….e não tem esporte mais lindo, mais emocionante, mais dramático que o nosso querido ciclismo.

  4. George Panara says:

    Zülle era um dos ciclistas que ao iniciar a temporada deveria passar por uma benzedeira, rezadeira, pai de santo, ir ao Vaticano pedir a benção do Papa, o cara era um tremendo de um azarado (toc, toc, toc vamos tocar na madeira três vezes pra espantar o mau agouro), o cara sempre antes de uma grande volta, ou durante, sofria uma queda ou um problema de saúde que o afastava de um resultado mais expressivo.

    • Verdade, George. Ele era tido como um futuro campeão do Tour, mas não passou de dois Vices e uma Vuelta…nada mal, até porque ele cruzou na vida com Don Miguel Indurain…seu compatriota Rominger levou um Giro e três Vueltas, além de algumas clássicas. Abs!

  5. George Panara says:

    O lado bussiness do ciclismo também esta fazendo suas baixas nos fornecedores de quadros, veja quantos dos antigos fabricantes ainda em atividade estão fornecendo bicicletas às equipes profissionais, não há praticamente mais espaço para os pequenos artesãos que forneciam suas jóias aos profissionais, hoje as grandes marcas do mercado norte-americano de mountain bike tomaram de assalto o pelotão. Senão me engano a primeira a entrar nessa época da virada foi a Giant (com a Once) , depois Cannondale (Saeco) – ou o contrário – e aí vieram Specialized e tudo o que estamos vendo por aí. Por trás disso há também os problemas administrativos e fusões porque passaram as grandes fabricantes europeias, mas o pelotão agora roda com marcas da moderna história do ciclismo, e os artesãos que trabalhavam com o aço ao cromomolibdênio, tubos de ligas especiais de aço ou alumínio estão de fora, foram empurrados pela nova tecnologia do carbono (não reciclável), os moldes e as autoclaves.

  6. George Panara says:

    Quanto ao doping – o ciclismo paga o preço da transparência (ou da tentativa de moralizar) e por isso é o patinho feio do desporto olímpico. A ESPN fez aquela matéria detonando tudo, mas a impressão que tenho é que não atira as mesmas pedras no Cielo, no Solberg ou no Dr. De Rose que agora se voltou contra o Ladetec (laboratório aonde são feitos os exames de controle de dopagem no Braisl) para defender o jogador de vôlei de Praia – Pedro Solberg,
    Segundo a FSP: “A credibilidade do Ladetec foi questionada por Eduardo de Rose, principal autoridade do país em doping. Solberg foi suspenso provisoriamente em julho pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei) após testar positivo em antidoping feito pela Wada fora de competição.
    O atleta submeteu o resultado a De Rose, que enviou um e-mail à federação pedindo que fosse revogada a sanção por não estar “convencido de que o resultado era tecnicamente correto”.
    Mesmo sem ter ouvido o laboratório, a FIVB acatou a sugestão e anulou a suspensão provisória até o julgamento.
    O Comitê Olímpico Brasileiro preferiu não se posicionar e limitou-se a dizer que “De Rose é uma das maiores autoridades no combate ao doping no mundo”. ”
    Cielo ouro , Solberg filho de Isabel ex-jogadora de destaque no vôlei nos anos 80/90.. os figurões da mídia e com ótimos relacionamentos pessoais nada sofrem, agora se você for desportista oriundo de camadas sociais mais baixas prepare-se para tomar muita porrada e ser tratato como o pior dos criminosos, lembrem-se do que aconteceu no atletismo e com os ciclistas…

    • Você disse bem sobre a questão de esportes de elite/bem conectados x esporte de classes mais baixas (que é o caso do ciclismo e do atletismo). Eu adicionaria um ponto: o amadorismo com que a CBC tratou o episódio da ESPN. Na minha vida empresarial, estou acostumado com situações de crise de imagem, problemas com a imprensa. Para estas situações somos treinados a lidar com a imprensa, contratamos profissionais do ramo para nos apoiar a lidar com a situação, etc. Eu só estive com o J.L. Vasconcellos uma vez na vida, i.e. não tenho como julgá-lo, mas negar-se a atender a reportagem foi, para a imprensa, assinar atestado de culpa. E aí, meu caro, o jornalista vai contar a história dele tendo ouvido apenas um lado da história. A mancha no ciclismo, até para conseguir patrocínios, só aumentou Azar de todos nós…

  7. George Panara says:

    O esporte e a sua direção exigem capacitação, especialização. Não adianta ser abnegado, não adianta dizer que conhece o esporte de dentro e que sabe das suas necessidades, é preciso também estar muito, mas muito bem assessorado pra não cometer esse tipo de deslize. Conheci o Vasconcelos como atleta quando ele corria para a Pirelli e eu escrevia para o Notícias Pirelli (house-organ da multi-italiana), mas como você mesmo disse eu também não tenho como julgá-lo, o comportamento no pelotão pode ser diferente do comportamento como dirigente, porém deixar de atender a imprensa ou ser evasivo é como um boxeador baixar a guarda: só vai tomar porrada e com isso os patrocínios ficam cada vez mais difíceis, Se a única rede de tv que transmite corridas ao vivo do ciclismo nacional (TV Globo) se nega a falar o nome dos patrocinadores, limitando-se a dizer só a cidade da equipe e agora a CBC apronta uma dessas, acho que nenhum empresário sem algum envolvimento com o esporte viabilizará verbas para o ciclismo, ficaremos como sempre limitados às prefeituras e a pequenas empresas. Difícil crescer com essa dura realidade. O esporte está se tornando um dependente das estatais, o dia que essa corda arrebentar, espero que não tenhamos que passar por ajustes como os da Europa (Grecia/Portugal/Espanha/Italia/Irlanda…) senão morre o esporte olímpico brasileiro

    • Que legal que você fez parte do Notícias Pirelli. Acho que tenho alguns exemplares antigos, que vieram juntos na caixa de recortes de jornal do grande sprinter Eduardo Bifulco. Outro aspecto importante que você levantou: a importancia das estatais nos esportes. Incrível, mas nestes de crise é isso que vem salvando muita gente, aqui e lá fora. Na Vuelta, a campanha governamental Ahorra Energia é a patrocinadora principal. No Tour também contaram com recursos governamentais regionais (Vendée). Isso é falta de grana privada…assustador! Aqui então nem se fala, né?! BB, Petrobras, Eletrobras, etc.

  8. George Panara says:

    Fernando trabalhei na redação do Notícias Pirelli entre 1987 e 1989 – tempos do Cássio/ dos 3 Ferraros (Renan/Renato/Robson)/ Pacheco / Clovis Anderson/ Ipojuca/Silvestre/Daneliczen/Sabbião/Vanconcelos – entre outros – o legal foi que conseguiumos fazer um boletim que se chamava Flash e havia um encarte chamado Flash esportivo e aí publicavam-se todos os resultados do CAP – há época o clube que mais fornecia atletas para a delegação olímpica brasileira (SEul 1988).

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