Vai começar La Vuelta – anote na agenda !!

Amigos, sábado próximo começa o terceiro Grand Tour de 2011 e aquele que mais cresceu proporcionalmente nas últimas décadas.

A largada será em Benidorm, cidade praiana da Comunidade Valenciana com 71 mil habitantes, mas que recebe (ou recebia antes da crise econômica hispano-européia…) milhões de turistas ao longo do ano. Beni, como é carinhosamente chamada pelos locais, também é conhecida como BeniYork, por causa dos inúmeros edíficios que lá subiram nas últimas décadas.

Parece a minha Santos...

A chegada será em Madrid no dia 11 de setembro, com os sobreviventes percorrendo uma curta etapa de 96 km pelas ruas da capital, com sprint de pelotão garantido. No entanto, a Vuelta acabará mesmo no País Basco, fato que não acontece desde 1979. Ali os ciclistas percorrerão as duas últimas etapas da prova, com chegadas nas importantes cidades de Vitoria e Bilbao.

Mapa – o pelotão começará pelo sul, na região de Valencia, segue em direção a Portugal e depois sobe direto até o norte do país. Dali vai cortando as grandes regiões nortistas: Galícia, Asturias, Cantabria e País Basco, esta já na fronteira com a França.

O destaque positivo, para mim, será a 15a etapa, no domingo do dia 4 de setembro: chegada no Alto de L’Angliru, com passagem pelo temível Cordal. Eu adoro o Angliru, com seus 15 km de rampas duríssimas. O destaque negativo é a não inclusão das regiões da Catalunha e dos Pirinéus, que quase sempre incluem etapas no alto de Andorra – aquele país pequenino encravado nas montanhas, entre França e Espanha.Percurso pouco comum, mas com forte teor histórico: País Basco será decisivo

Prima pobre quando comparada com Le Tour e Il Giro, La Vuelta vem crescendo na esteira dos seguintes acontecimentos:

  1. A mudança de calendário para agosto/setembro fez com que grandes campeões passassem a participar. Isto porque ela deixou de rivalizar com o Giro e também por funcionar como importante corrida de preparação para o Mundial.
  2. A entrada da Espanha na Comunidade Européia (http://europa.eu/index_pt.htm) enriqueceu muito este país e, por tabela, facilitou a atração de patrocínios de maior monta.

Isto fica claro quando comparamos o perfil dos campeões que a venceram.

  1. Apesar de grandes campeões da história a terem conquistado, isto aconteceu com pouca frequência: Hinault 2x, Merckx e Anquetil apenas 1x, enquanto que Armostrong, Indurain e Coppi nunca a venceram. Isto demonstra o pouco interesse que a Vuelta despertava nos maiores nomes do esporte.
  2. Outros grandes ciclistas de Clássicas, como Maertens, Kelly e Jalabert, a venceram mesmo competindo com escaladores puros, demonstrando que a Vuelta oferecia uma combinação de rota menos duras e competidores menos fortes.

Mas isto mudou e mudou bem. Dos anos 90 para cá, apenas homens em grande forma a venceram. E, quase sem exceção, sempre temos disputas apertadas nas estradas espanholas.

Benidorm na história do ciclismo

Não, tem nada a ver com a Vuelta. Apesar de já ter sido base de etapa outras duas vezes, o grande destaque ciclístico desta cidade turística mediterrânea se deu em 1992, quando recebeu o Campeonato Mundial de Ciclismo.

Ainda corrido no final de agosto, este Mundial de percurso de média dificuldade teve como protagonistas os três primeiros colocados do Tour de France: Miguel Indurain, Claudio Chiapucci e Giani Bugno.

Benidorm é cercada de algumas montanhas, o que fez com que a prova fosse seletiva…mas não tanto a ponto de evitar um sprint de 20 ciclistas. Eu assisti esta prova pela TV, ao vivo, pois morava na Escócia, e lembro-me como se fosse hoje os ataques violentos de Indurain e Chiapucci, que tentavam largar ciclistas menos potentes porém mais rápidos do que eles.

O favorito destacado era o francês Laurent Jalabert. Com 23 anos de idade, Jalabert era a grande sensação do ciclismo do Hexágono. Muito rápido mas também capaz de enfrentar percursos duro, Jajá (como até hoje é chamado) havia conquistado uma espetacular segunda colocação na UCI World Cup de 1991 (com apenas 22 anos) e vencido a Classificação por Pontos (Maillot Vert) do Tour deste ano de 1992.

Cercado de escaladores por todos os lados, Laurent entrou no último quilometro da corrida de Benidorm já campeão do mundo na visão dos franceses – até porque tinha 4 companheiros de equipe à sua disposição. O link abaixo, narrado em francês, mostra claramente que a vitória do compatriota era favas contadas…e que decepção viria depois.

http://www.youtube.com/watch?v=ebHnpeTzWY8&feature=related

Giani Bugno, que já havia vencido o Mundial de 1991, em Sttutgart na Alemanha, lançaria um sprint longo e Jalabert simplesmente não conseguiu sair da sua roda. O pódium foi completado pelo russo Dimitri Konishev. Na 4a posição veio o escalador-rolador suiço Tony Rominger.

Bugno eufórico; Jalabert frustrado; Indurain..."Mierda de circuito tan llano!!"

Giani Bugno – este foi um dos ciclistas de maior classe que eu vi pedalar. Ganhou muito, mas ainda assim sempre foi perseguido pela imprensa italiana, que exigia que ele vencesse muito mais. A avaliação geral é que faltava a Bugno a agressividade, o egoísmo, o “mental” do Campionissimo. Talvez. Bugno era introspectivo, caladão, reservado, humilde, educado.

Ainda assim, o italiano nascido na Suiça (em Brugg) venceu:

  • UCI World Cup 1990
  • Bi-Campeão Mundial: 1991 e 1992
  • Giro d’Italia 1990 (de ponta a ponta) + 9 vitórias de etapas ao longo da carreira
  • No Tour de France foi 2o em 1991 e 3o em 1992 + 4 vitórias de etapas (L’Alpe de Huez inclusive)
  • Clássicas: dois Monumentos, Milano-San Remo e Tour de Flandres, mais duas da UCI World Cup, Wincanton Classic (Inglaterra) e Classica San Sebastián

    Ronde van Vlaanderen 1994: Bugno deu ao favorito Musseuw a mesma lição que havia dado a Jalabert em 92

Nada mal para qualquer ciclista do mundo, mas muito pouco para a tradicional histeria italiana. Bugno abandonou o pedal em 1998 correndo pela poderoso MAPEI e ainda venceu destacado uma etapa da Vuelta daquele ano. A classe dele nesta etapa foi emocionante.

Apaixonado por voar, Bugno tornou-se piloto profissional de helicóptero especializado em resgate de pessoas perdidas (nas montanhas, na neve, etc.) – coisa de gente especial. E no verão, quando cai a demanda pelos seus serviços, ele pilota o helicóptero da RAI durante a transmissão do Giro d’Italia. Único!

Nos próximos dias falaremos bastante sobre a Vuelta e assuntos relaciondos!

Abrazos! F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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9 Responses to Vai começar La Vuelta – anote na agenda !!

  1. George Panara says:

    Há um detalhe importante quando se fala da Vuelta, até meados dos anos 1990 ela era disputada na primavera do hemisfério norte, ou seja no início da temporada e isso afastava também alguns dos principais nomes do ciclismo que ainda estavam em fase de preparação da temporada. Dizia-se à época que Indurain não corria a Vuelta por ter sérios problemas de alergia ao pólen que se espalhava com o vento pelos campos espanhóis. A Vuelta depois foi transferida para o mês de setembro e agora agosto/setembro, já servindo mais como encerramento de temporada, mas Indurain até por alguns problemas com o antigo organizador da Vuelta nunca chegou com força ou vontande para vencê-la.

  2. George Panara says:

    Tudo sobre a primavera europeia mais explicadinho no post: Zurich: ciclismo da melhor qualidade na terra do dinheiro

  3. Waldemar dos Santos - Comissário nacional UCI says:

    Belo trabalho Fernando!!!!!!!!!!!!! abração….

  4. Erico says:

    Fernando. seu blog é fantastico. depois de le-lo, nao sei se irei manter o meu! rs

    • Valeu, Erico, muito obrigado pelas suas palavras, mas não diga isso nem brincando!! rsr O ciclismo brasileiro precisa de muitos Ericos e Fernandos para divulgar o esporte.
      A sua pegada de divulgar em detalhes eventos atuais é muito importante e eu não isso tão bem. Já o meu lance é o lance histórico ou algo fora do conhecido geral, quando posso acrescentar informações ligadas às minhas viagens. E vamos nos visitar mutuamente!! Abração + sucesso!

    • Sômulo N Mafra says:

      Opa! Mais um blog pra acompanhar!

  5. Sômulo N Mafra says:

    Belo post, Fernando!

    Parabéns pelo destaque sobre a cidade de Benidorm. Na minha ignorância, eu nunca tinha ouvido falar dela! Maravilha…

    Vários pontos me chamaram a atenção neste tópico. Vou enumerar um-a-um:

    1) Acho que L’Angliru merece um post à parte. Eu assisti pela TV a vitória de Alberto Contador na Vuelta de 2008 e fiquei impressionado com a dificuldade da escalada. O recém-campeão do Tour de France na ocasião, Carlos Sastre, chegou bem atrás. E olha que Sastre ainda trocou de bike na base da subida de l’Angliru (colocou uma relação de 28).

    2) Sobre o Jaja, ele vem eventualmente competindo em algumas provas de Triathlon como amador. Se não me falha a memória, ele obteve a melhor parcial de pedal no meio-ironman (90 km de Ciclismo) da Florida no ano passado. Ficou à frente até dos profissionais!! Nada mal para o “velhinho”, que utilizou uma TT da Look “com a mesma configuração que veio da fábrica, nem me importei em trocar componente nenhum”, rsss…

    3) Giani Bugno vs Imprensa Italiana. Quem dera algum ciclista brasileiro tivesse pelo menos um desses títulos conquistado pelo Bugno!

    É difícil entender essa cobrança aparentemente absurda, mas daí é só lembrar como nós mesmo tratamos nossa Seleção Brasileira quando esta consegue um frustrante 6° lugar na copa de 2010. Dunga fracassou, mesmo tendo conquistado Copa América, Copa das Confederações, 1° nas Eliminatórias etc. Rssss…

    4) Por fim, fiquei com dúvida na última foto: quem é o Bugno?

    Das duas uma: ou ele é o de amarelo que está comemorando antecipadamente a vitória, ou ele é o ciclista que está sprintando e rouba a vitória do fanfarrão no último segundo, hehe… desconfio que seja o de amarelo…

    Um abraço,
    Sômulo N Mafra

    • Valeu, Sômulo, muito obrigado! Eu preciso achar a revista Cyclo Sport antiga que eu tenho, em que o grande ciclista Fernando Escartin, da lendária equipe Kelme, “testou” o Angliru antes de sua primeira escalada numa Vuelta. Nas fotos, feitas fora do período de pico de treinamento, o grande escalador colocou o pé no chão!!

      Você disse tudo! Esporte é paixão: aqui (e no mundo todo) a turma corneta o mundo do futebol…em alguns poucos lugares, como na Itália, a turma corneta o ciclismo também!!🙂

      E o Bugno é o de amarelo sim, de amarelo Polti. Ele não passou o vexame de tomar um ‘jump’ em cima da linha…e num Tour de Flandres, que horror!! O Zabel é que pode nos falar disso, ao perder uma Milano-San Remo assim, né?! rsr Abração!

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