Domingão ciclístico: Vuelta + Plouay

Amigos – neste domingo a Vuelta encerra sua primeira semana com uma chegada em alta montanha, justo na terra do tri-campeão que caiu em desgraça pelo doping Roberto Heras, em Bejar.

Por enquanto o simpático catalão Joaquim “Purito” Rodriguez vai confirmando sua vocação de atacante-nato. Lidera merecidamente após duas vitórias de etapas, sempre com ataques fulminantes na última rampa. É o que se chama na França de “finalizador” de estapas de montanhas.

Curiosamente, Purito tem o físico oposto ao de Phillipe Gilbert, mas foi ele quem mais atacou o belga na sua ‘fase canibal’ de abril. Perdeu todas mas atacou sempre e eu o admiro por isso. Até o início deste ano o catalão assinava uma interessante coluna mensal na revista espanhola Ciclismo en Ruta e era muito legal acompanhar suas observações sobre o pelotão e a vida de um profissional. Ele é um típico pro europeu, que trata o ciclismo com a devida seriedade, mas que este é apenas um trabalho/emprego, i.e. cabe a devida ambição mas não o sacrifício supremo. Lendo suas observações – e a de tantos outros ao longo destes meus mais de 35 anos de “carreira” – fica claro porque tão poucos se destacam demais e por tantos anos. O nome disso é obsessão. Purito é muito forte e capaz, é dedicado, mas não é obsecado pela sua profissão. Poderá ganhar esta ou outra Vuelta, mais uma Vuelta a Catalunha ou prova similar, mas nunca irá muito além disso.

Comparar a sua visão de mundo com as de um Merckx (que se dizia inseguro e por isso atacava tanto e sempre), de um Hinault (que corria pela glória, pelo “panache”) ou de um Armstrong (este redefiniu o significado das palavras obsessão, superação, determinação e outras), mostra claramente a diferença na lista de vitórias. Eu já fui meio obsecado na minha carreira executiva, fiquei estressado, doente e…não quero (e não consigo) mais ser um destes…estou na minha fase Purito Rodriguez de vida…rs.

A Vuelta, até agora, está sem brilho, mas isso é porque o ciclismo vive uma fase de pouco brilho mesmo. Já escrevi isto aqui e em outros cantos da blogosfera. Nibali e Scarponi brigarem por Maillot de líder de qualquer Grand Tour prova isso, porque são apenas bons ciclistas profissionais, não Grandes ciclistas. Outros craques, como os Schlecks, vem demonstrando limitações sérias. Até a vitória do mega-simpático Evans, aos 34 anos de idade e muito pouca vitória na vida, reforçam esta minha visão um tanto pessimista. Contador é o único fora-de-série desta geração – e de longe -, tendo provado isto no Giro…mas também foi muito mal no Tour, não conseguindo fazer o ‘double’ mais famoso do ciclismo (que fizeram Merckx, Hinault, Indurain…).

Francamente, não espero muito desta Vuelta. Não consigo ver ninguém se destacando com panache e acho que teremos uns 3 ou 4 brigando até o final. Emocionante sim, brilhante não. Espero estar enganado. Estou torcendo pelo Purito!!

Vive la Bretagne– a terra de Hinault, de Bobet, de Robic e de tantos ciclistas de renome receberá neste domingo a 75a edição do G.P. de Plouay. Com seus quase 250 km, a prova é disputada num longo circuito (19 km), duro, ondulado, que já até serviu para o Campeonato Mundial de Ciclismo, em 2000.

Zebra Lituana em Plouay...até eu me surpreendi com o sprint de um pelotão seleto

Nos tempos áureos do ciclismo havia tamanho número de corridas de alto nível na Europa, que o G.P. Plouay não costumava ser corrido pela elite do pelotão internacional – era uma corrida de alto nível doméstica. Motivos não faltavam: muito dura, pagava pouco e era circundada por outras corridas de maior prestígio, tais como Mundial, Paris-Tours.

Os franceses a corriam como preparação para o Mundial e os ciclistas de outros países se preparavam em casa mesmo. Vale relembrar que o Mundial era corrido no fim de agosto e a turma havia acabado de correr o Tour e focava principalmente nos “criteriums” caça-níqueis….

De fato, o primeiro estrangeiro a vencer em terras bretãs foi o mediano holandês Fritz Pirard, em 1979. Mas a partir dos anos 80 o prestígio da prova cresceu e ciclistas de classe mundial passaram a participar e vencê-la.

Sean Kelly, a primeira estrela internacional a vencer na Bretanha

Quando Sean Kelly a venceu em 1984, outros grandes pareceram se animar com a tradição e seus rigores. Além da nata francesa, a lista de vencedores internacioanais é curta mas respeitosa: Andrei Tchmil (1994, ano que venceu a Paris-Roubaix), Frank Vandenbroucke (1996), Michele Bartoli (2000), George Hincapie (2005), uno giovane Vincenzo Nibali (em 2006).

Para a edição deste domingo, a mídia internacional está dando muito destaque para o vencedor da edição de 2007, Thomas Voeckler. O chouchou dos franceses, que originou o termo Voecklermania, venceu com autoridade naquele ano e neste 2011 está em estado de graça. Não correu prova alguma após o Tour e virá motivado e descansado, para tentar uma última vitória de prestígio antes da aposentadoria (que chegará ao final deste ano).

Le Voeckler, toujours a la ataque...ici en Plouay 2007

Agora, ao pesquisar para este texto (ou alguém acha que eu sei tudo isso de cabeça?), eu relembrei que o vencedor do ano passado foi um então sprinter-embalador chamado Matt Goss, que bateu o sprinter maison da Garmin, Tyler Farrar. Foi uma surpresa geral, afinal, Tyler poderia perder para o líder da HTC Mark Cavendish, mas não para o seu embalador. Bem, o fato é que Goss mostrou em Plouay que ele não era apenas “mais um embaladorzinho rápido”, mas que tinha sim talento de sobra…até para vencer a Milano-San Remo de 2011!

Matt é fera e vai brilhar muito...Tyler é rápido mas limitado

 Encerrando o post, está tudo muito bom, está tudo muito bem, mas quem é o favorito mesmo para vencer a prova…nada a declarar…

O homem quer ganhar tudo em 2011 !!

Abraços e bom domingo ciclístico a todos!! F.

 

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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14 Responses to Domingão ciclístico: Vuelta + Plouay

  1. acruzcosta says:

    Belo jeito de levar a vida, esse de Purito.
    ABS !!!!

  2. José Carlos SBC/SP says:

    O que deixa a Vuelta interessante é justamente isso, na falta dos tops, a prova fica mais aberta e dificil de prever um ganhador. Não há muito “respeito”, é ataque sobre ataque. Todos querem tirar uma casquinha, diferente do TDF, que é aquela marcação que da até nervoso.
    Quanto a prova da França, segue abaixo o resultado (outro ilustre desconhecido, pelo menos pra mim, rsss):
    http://www.comitedesfetes-plouay.com/PDF/Classement_World_Tour_Plouay_2011.pdf
    abraço FB!

    • É, JC, deu uma zebra da Eslovênka em Plouay…mas o final foi emocionante, com Gerrans atacando com Gilbert na roda e ainda ficando segundo, com Voeckler em forma em 3o. Eu esperava mais do Hushvod, que ficou em 4o, pois é mais sprinter que eles. O Gilbert mostrou estar curto de forma, pois não colaborou com o Gerrans e não sprintou também. Talvez esteja reconstruindo sua forma para o Mundial…a ver. Abs!!
      PS: a Eslovênia é um pedacinho da ex-Iugoslávia, com apenas 2 mm de habitantes, mas sempre produziu bons ciclistas – mais do que todo o resto dos países que também se desmembraram (Croácia, Sérvia, Montenegro, Bósnia, Macedônia). Impressionante. Talvez por estarem colados na Itália e terem muito contato com regiões ciclísticas do Trento.

      • José Carlos SBC/SP says:

        E aqui no Brasil com mais de 200 mi de habitantes, temos como idolo um gregário que precisa urgentemente de um banho de sal grosso.
        Não desmerecendo o Murilo é claro, até acho que ele tem mais potencial que o eterno favorito Farrar.

  3. jucaxc says:

    Gilbert correu pra tentar fazerr pontos e passar o Evans no ranking e não conseguiu..chegou em 57th…ainda tem chance no Giro di Lombardia, já Evans não correrá mais provas ProTour.

  4. Luisa says:

    Bom dia,
    Gostaria de um e-mail de contato para conversarmos sobre publicidade no blog.

    Obrigada

    Luisa

  5. George Panara says:

    Pois é, se lá na Europa o mundão do ciclismo está sentindo a falta de grandes nomes, imaginemos a seca que estamos atravessando aqui abaixo da linha do Equador? Desculpem por uma análise um pouco mais dura, talvez simplista demais, porém muito real: não desemerecendo o valor dos nossos ciclistas, mas encaixar sprinters/velocistas no cenário internacional e até simples, a internacionalização do esporte ajuda, as equipes sempre buscam esse tipo de ciclista, é sempre útil ter mais um para puxar o “trem” ou para auxiliar no lançamento do grande sprinter. Porém “O CICLISTA” aquele homem que sabe levar 2 a 3 semanas de castigo nas pernas é uma outra história, e isso também se reflete na mão de obra – ou pernas – que exportamos e preparamos, é uma consequência do calendário e do tipo de provas que disputamos. Nosso grande último ciclista para as grandes voltas foi o Cássio de Paiva Freitas – tivemos outros competidores mas quem conseguiu chegar lá foi só o mineiro. Segundo muitas pessoas com quem conversei e até gente que o conheceu e acompanhou sua carreira na Europa – faltou a ele o salto do ciclismo português para o ciclismo espanhol. E voltando a Espanha agora é esperar o Angliru e ver o estrago que ele pode provocar e o tempero que ele pode colocar nessa disputa entre vários franco-atiradores.

  6. Davi Benati says:

    Acompanhando as notícias da Vuelta depois da sarrafada do Cobo no Angliru, encontrei esta declaração do mesmo e lembrei deste post do Fernando comentando sobre o estilo de vida do Purito e a maneira de encarar o ciclismo como profissão:

    Cobo disfruta ahora de su dulce momento, pero no siempre ha sido así. Su visión del ciclismo es particular. “La bici ni es mi pasión, es mi deporte y es mi trabajo. Creo que esto es la recompensa a los malos ratos que he tenido que pasar a cuenta de la bicicleta”. (trecho retirado de http://www.biciciclismo.com/cas/site/noticias-ficha.asp?id=42921)

    • George Panara says:

      Talvez o mais importante nesse renascimento de Cobo esteja na confiança depositada no ciclista por seu diretor Joxean Fernández “Matxin” que soube recuperar o homem para o ciclismo de competição tirando a pressão por resultados e sem cobranças, confiou no ciclista e apareceram os resultados, afinal Cobo já havia dado sinais em algumas provas de que poderia ser mais que um mero figurante. Outro detalhe muito importante é que Matxin é honesto com a realidade da equipe, afinal apostava guerrear nas fugas para obter algum resultado expressivo e é direto ao declarar que se for no mano a mano sua equipe não teria como enfrentar as grandes, sem rodeios ou falsos sinais de poder na estrada.

      • George Panara says:

        Acima eu dei um escorregão e viajei no que andei lendo sobre o diretor da GEOX – confundindo realidades de hoje com a temporada passada, pois um cara que tem o Menchov e o Sastre como líderes de equipe não iria só para as fugas.. Com esses dois “líderes” ninguém apostaria no seu primeiro gregário (e com todo o histório negativo) fosse o principal ator.

  7. José Carlos SBC/SP says:

    Fernando, volta!!!!
    Ninguem vai ficar bravo com você pela ausência, hehehe
    abraço!

  8. Eduardo says:

    Poh, Fernando! Tava lendo q convidaram o Cavendish para participar da Paris-Tours e q Boonen e Freire n conseguiram a dobradinha Mundial+Paris-Tours dae vim correndo aqui pensando em ler tudo sobre Paris-Tours, a única clássica q o Merckx n ganhou, prognósticos, estatísticas, comparações, relatos e tudo o mais q sempre podemos ler no blog e nada. Volte, por favor! hehe

  9. José Carlos SBC/SP says:

    Só passei pra dar um bom dia Fernando!

  10. Thiago says:

    Nessa época de férias do ciclismo sinto falta das histórias contada pelo Fernando.

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