Zebras Históricas – Parte 1 / Milano-San Remo

Caríssimos,

Ontem eu publiquei um “Best of 2011”, mas também comentei diversos “piores momentos“, incluindo várias ‘zebras’. Aí me ocorreu de escrever sobre outras zebras, tão ou mais históricas, que eu presenciei durante as minhas diversas ‘encarnações’:

1. Milano – San Remo

  • 2011 – Matt Goss, HTC: o australiano não é um qualquer e vinha colhendo bons resultados até março, mas o cara sempre foi embalador de Mark Cavendish e ele dificilmente estaria na lista de favoritos de alguém. Reforça esta minha visão o fato que La Primavera tem mais de 290 km e algumas subidas/descidas complicadas no final, i.e. gregarios, em geral, já não estão na ponta combatendo pela vitória e lhes falta experiência e sangue frio nesta hora. Mas Goss foi brilhante e o 2o lugar no Mundial mostrou que ele foi um vencedor de valor em 2011…ainda que inesperado.

    Goss cruza a Via Roma com Cancellara e Gilbert na roda: feito para muito poucos!

Grande Zebra da Milano – San Remo: edição de 1982, Marc Gomez (FRA), equipe Wolber:

Naqueles tempos pré internet, era quase impossível saber o que acontecia no ciclismo internacional. Então, para fanáticos como eu, restava esperar o aviso da lendária Livraria Francesa, de São Paulo, que todo mês me ligava para dizer “Bonjour, Fernando, chegou a sua Mirroir du Cyclisme“…e eu, com meus 20 e poucos anos, pegava o ônibus salivando rumo ao Centro de SP à busca da minha mais preciosa leitura do mês (os textos da FGV eram sempre segunda prioridade…).

A festa já começava no ônibus de volta para o trabalho ou faculdade, quando eu consumia cada linha, degustava cada foto…sempre com um dicionário Francês-Português do lado. E como cada edição levava entre 30 e 45 dias para chegar aqui, artigos e fotos eram vistos e revistos algumas vezes!

Mas a edição de março de 1982, que chegou no fim de abril (!!!), celebrava na capa a conquista dos desconhecios franceses Marc Gomez (Wolber) e Alain Bondue (La Redoute – Motobecame) na Milano – San Remo. Eu não queria acreditar: cadê Moser, cadê De Vlaeminck? Achava que o meu francês pobre daqueles tempos havia me pregado uma peça.

Grande emoção reencontrar com esta imagem...eu tinha 20 anos e essa revista era muito importante para mim

Afinal, 100 entre 100 analistas apostavam suas fichas em uma das seguintes feras: os italianos inimigos Francesco Moser e Giuseppe Saronni, ou no belga Fons de Wolf (que a havia vencido em 1981, assim como a Lombardia de 80), o holandês Jan Raas (que iria vencer o Ronde semanas depois), o outro belga Roger de Vlaeminck (envelhecido mas ainda voando) ou Silvano Contini (que iria vencer em Liège um mês depois). Freddy Maertens, que havia sido a sensação de 1981 e Campeão Mundial em título, vinha de um vexame atrás do outro e não fez nada em 82 e além.

De Wolf ataca no Poggio em 81, enquanto Raas observa incrédulo o jovem belga voar para a vitória

A prova – após muitas deliberações e polêmicas (como tudo na Itália), o então ‘capo’ do ciclismo italiano Vincenzo Torriani decidiu que a Milano – San Remo havia ficado muito fácil, por conta da melhoria técnica das bicicletas e da preparação dos atletas. A solução para signore Torriani foi dificultar o final da prova e introduzir a escalada de La Cipressa e seus poucos mais de 5 km, 10 km antes do Poggio. Eu a subi uma vez…de carro! É nojenta, mas não para um profissional.

Voltando à prova, como sempre, fugas matinais se formaram e naquela que realmente vingou estavam os dois franceses. Na subida da então desconhecida Cipressa (e naquela época não se dava muita bola para altimetria, reconhecimento de percurso e outros ‘luxos’ que conhecemos hoje), os franceses atacaram e deixaram alguns companheiros de escapada para trás.

Dali pra frente, Gomez e Bondue – ambos excelentes roladores nos seus tempos de amadores – baixaram a cabeça e não seriam mais alcançados até a chegada. Calma, eles NÃO eram tão mais fortes que o pelotão! Esta prova teve um componente muito particular! 

Esta foi uma daquelas típicas corridas em que a titânica rivalidade entre as estrelas do pelotão acaba por anular os esforços de perseguição, permitindo que ciclistas escapados de menor expressão tirem proveito desta guerra particular. Os textos da época dão conta que os Famcucine de Francesco Moser se recusavam a rolar em benefício do veloz Giuseppe Saronni, da Del Tongo. Aí, os Raleigh de Jan Raas também paravam. E quando os belgas de De Vlaeminck notaram que estavam puxando sozinhos também sairam da ponta.

Em dado momento, o pelotão começou a passear pela costa meditarrânea, enquanto les bleues socavam a lenha pelos capi em direção a San Remo. Quando chegaram ao Poggio, a dúvida era sobre qual dos dois venceria: o mais velho Gomez, que se profissionalizara perto dos 28 anos, ou a jovem estrela da Perseguição Individual (havia conquistado o Bronze nos J.O. de Moscou, 1980), Alain Bondue.

Os dois neo-pro (como dizem os franceses) mal conseguiam acreditar na enorme possibilidade que se abria à sua frente. Seus Diretores Esportivos, a partir dos carros de apoio, gritavam palavras de incentivo (não havia radinho naquela época!!). Porém, como bom Monumento que se preza, aquela Milano-San Remo ainda reservava um drama pertinho do final.

Fazia frio, vento e chuva no início daquela primavera européia. As estradas pareciam ter sido ensaboadas por um São Pedro fanático por ciclismo e louco por emoção! 

E aí, descendo a toda velocidade o Poggio, com San Remo e a perspectiva de glória a tão poucos quilometros, os nervos trairam o inexperiente Bondue que, nervoso, tombou duas(!!) vezes. Apesar de grande rolador, o nortista Alain não conseguiu alcançar Gomez, que tinha uma pinta de Woody Allen.

"Chute, chute!! Bondue a chuté!!!" gritava o locutor da TV francesa...sonhava eu...

"Chute, chute!! Bondue a chuté dans le Poggio!!!" gritava o locutor da TV francesa...sonhava eu...

Dois minutos depois, o pelotão dos favoritos sprintava pelo 3o lugar, vencido pela então nova promessa do ciclismo italiano: Moreno Argentin, que tinha apenas 21 anos. Este, apesar de vencer muitas Clássicas, etapas de Grand Tours e o Mundial, nunca conquistou a sua tão querida La Primavera.

1992: 10 anos após seu 3o lugar e muitas vitórias depois, Argentin perdia de novo em San Remo. Desta vez para um já veterano Sean Kelly

O Top 10 de 1982 foi:

1 Marc Gomez (Fra) Wolber, 7-04-12
2 Alain Bondue (Fra) La Redoute a 10sec
3 Moreno Argentin (Ita) Sammontana a 2-01
4 Francesco Moser (Ita) Famcucine
5 Tommy Prim (Swe) Bianchi
6 Claudio Bortolotto (Ita) Del Tongo
7 Silvano Contini (Ita) Bianchi all same time
8 Patrick Versluys (Bel) Boule d’Or at 2-42
9 Leo Van Vliet (Ned) TI Raleigh at 3-35
10 Walter Delle Case (Ita) Atala same time

Saronni, que era o principal favorito, viria a cair na descida do Turchino e abandonou a prova.

Gomez na Via Roma: falta de hábito atrapalhou a comemoração, que foi muito sem graça para tamanha conquista!

Após esta tremenda vitória (de sorte!), Marc Gomez conquistaria uma etapa da Vuelta do mesmo ano e o título de Campeão Francês de 1983. Virava estrela…cadente, pois nunca mais venceu nada minimamente importante.

Já o pistard Bondue (também foi duas vezes Campeão Mundial de Perseguição)…

Aqui ele brilhou...sempre largava como favorito na Perseguição Individual

… viria a ser um eterno favorito da Paris-Roubaix. No entanto, ele não passou de um 3o lugar (além de um 10o). Ah, assim como Gomez, ele também venceu uma etapa da Vuelta.

Alain voando pelos "pavés" de Roubaix, em 1984, para conquistar um honroso 3o lugar - vitória de Kelly

Como se vê, a Milano – San Remo 1982 teve no pódium dois ciclistas que, até hoje, são mais lembrados pela surpresa daquele resultado do que pelos seus feitos anteriores ou posteriores. Acontece nas melhores famílias, quer dizer, nas melhores Clássicas! Aguardem outras ‘zebras’ de 1a grandeza nos próximos posts.

Ciao! Fernando

PS: quem descobrir quem está na roda de Alain Bondue, na Paris-Roubaix acima, ganha uma caramanhola com Gatorade!

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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3 Responses to Zebras Históricas – Parte 1 / Milano-San Remo

  1. José Carlos SBC/SP says:

    Muito feliz com seu retorno Fernando!
    Dois dias, duas belas historias.

  2. jucaxc says:

    E aquela do Zabel em 2004 comemorando e o Freire ganhando…não se esqueça tb daquela do Pozzato em 2006 com o Boonen figindo comemorar o triunfo do italiano, sendo que ele era o cara pra ganhar! kkkk

  3. Thiago says:

    Grande post, valeu por mais essa aula Fernando. Eu particularmente gosto muito quando um desconhecido ganha, acho que é aquilo de torcer pelo mais fraco que os franceses gostam tanto, rs.

    Quanto a que está na foto do Paris Roubaix é o companheiro de equipe dele, Gregor Braun. No youtube tem quase 2 horas do Paris Roubaix de 84 http://www.youtube.com/watch?v=BBBV4FHgfw0

    Abs

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