Os melhores do mundo segundo WorldTour, ProTour, Vélo d’Or, Super Prestige Pernod etc., etc.

Meus amigos,

Enquanto assisto as más notícias do dia pela TV5 francesa (em francês as tragédias humanas parecem menos horríveis…talvez por que eu não as entenda direito rsrs), me inspirei para escrever sobre a história das classificações e rankings internacionais.

Desde o tempo em que as bicicletas passaram a ter duas rodas que alguém mede, compara, classifica, elege um melhor ciclista do mundo. Abaixo as classificações internacionais que eu encontrei:

Nome do Ranking / Organizador / País / Período de premiação

  • Challenge Yellow / Sédis (*) / França / 1931-82
  • Challenge Desgrange-Colombo / Diversos (**) / Diversos (**) / 1948-58
  • Super Prestige Pernod / Pernod (***) / França / 1959-87
  • UCI World Ranking / UCI / UCI / 1984-04
  • UCI World Cup / UCI / UCI / 1989-04
  • UCI ProTour / UCI / UCI / 2005-08
  • UCI WorldTour / UCI / UCI / 2009-presente
  • (*) Sédis era uma marca de correntes de bicicleta que, quando eu comecei a correr no final dos anos 70, era top de mercado. Algum leitor do blog já ouviu falar desta lenda?
  • (**) Jornais L’Equipe (França), Gazzetta dello Sport (Itália) e Het Nieuwsblad-Sportwereld (Bélgica). Bem internacional, portanto.
  • (***) Pernod era a maior empresa de bebidas da França. Hoje, após diversas fusões e aquisições, é uma das maiores do mundo e chama-se Pernod Ricard. Mesmo quem não bebe já deve ter ouvido falar dos whiskies Chivas Regal, Ballantine’s, Teacher’s, Jameson (irlândes) e os supremos single-malts The Glenlivet e Laphroig. Também fabricam outros campeões de venda, como a vodca Wyborowa, o gin Beefter, o conhaque Courvoisier, entre outras 100 marcas de tudo que vocês possam imaginar.

Antes que vocês me achem um alcoólatra que anda de bicicleta…rsrs…o meu conhecimento do tema vem do fato de eu ter morado na Escócia, terra do whisky, e por ter uma pequena coleção de Scotch, mas bebo pouquíssimo!!

Voltando às classificações…

Eu e estes rankings – num belo dia de fevereiro de 1979, minha amiga rica Patricia voltava da Europa me trazendo de presente 3 revistas Mirroir du Cyclisme (eu tinha só uma até então e quase infartei aos 17 anos de idade!). Uma delas, chamada Le Livre d’Or (O livro de ouro) trazia as matérias das últimas corridas do ano e um resumão maravilhoso da temporada.

Foi ali que eu descobri que o Giro di Lombardia de 1978 tinha sido vencido pelo grande Francesco Moser, com o não-sprinter Bernard Hinault chegando em terceiro lugar mordendo os cabos do guidon. E por que tanta raça do Blaireau? Porque ali se decidia o vencedor do Super Prestige Pernod daquele ano. Naquele momento eu aprendi a importância desta premiação. O que vem abaixo é memória + pesquisa.

Super Prestige Pernod

Este era o verdadeiro Campeonato Mundial da temporada. Era assim que os franceses o tratavam, por que o vencedor não era fruto de uma única corrida, mas graças a sua regularidade durante o ano todo.

Faziam parte da classificação todas as Clássicas, entre elas pérolas desaparecidas (ou quase) como o G.P. de Zurich e o G.P. de Frankfurt. Um Het Volk/Nieuwsblad não era, por exemplo. Além dos Grand Tours também fazia parte o Campeonato Mundial.

Ali não tinha zebra, por que era muita corrida e só corrida importante. Quem venceu mais vezes o Super Prestige??? Quem acertar ganha…não ganha nada porque é óbvio demais: EDDY MERCKX, 7 VEZES!! Ele viria a suceder a supremacia de Jacques Anquetil e suas 4 conquistas. O sucessor de Merckx foi Bernard Hinault, também com 4 vitórias.

Para um ciclista passista/sprinter vencer este ranking era quase impossível, pois os especialistas em Grand Tours marcavam uma enormidade de pontos – ah, e estas provas conferiam duas vezes mais pontos do que uma Clássica, por exemplo.

Imaginem em 1978, a vantagem de Hinault após vencer a Vuelta e o Tour. Apesar disso Moser o bateu no Super Prestige, por bem pouquinho. O italiano venceu a Paris-Roubaix, o Giro di Lombardia, foi 2o do Mundial, 3o do Giro d’Italia e 3o em Liège.

Apenas dois outros não escaladores venceram o Super Prestige: o primeiro foi o meu ídolo mór Freddy Maertens, em 1976 e 1977, quando destronou Merckx e seu seguidor mais próximo, Roger de Vlaeminck (3 vezes segundo colocado!). E por falar em “eterno segundo”, o simpático Raymond Poulidor venceu 1 vez esta Classificação, para alegria geral da França. Foi em 1964.

O sensacional irlândes Sean Kelly – tão pouco conhecido e comentado atualmente – foi tricampeão, sucedendo o reinado de Hinault. Apesar de ter vencido uma Vuelta e obtido um 5o lugar no Tour, Kelly brilhou mesmo nas Clássicas. Suas múltiplas vitórias incluem San Remo, Roubaix, Liège, Lombardia e muitas outras. Só não venceu o Ronde e o Mundial. Eu era fã incondicional deste sujeito que começou a carreira como embalador do próprio Maertens e que hoje é comentador da EuroSport…ele tem um sotaque terrível de se entender, por sinal…

Uma curiosidade diz respeito à nacionalidade dos vencedores: os belgas venceram 10 vezes consecutivas (o primeiro a vencer foi Herman van Springel em 1968, ano em que foi 2o colocado do Tour). A Irlanda, minúscula e nada tradicional no ciclismo, teve 4 vitórias consecutivas também, sendo 3 com ‘King’ Kelly e 1 com Stephen Roche em seu ano mágico de 1987, quando venceu o Giro, o Tour e o Mundial na Áustria.

Pré-história

Eu falei esse monte do Super Prestige por que eu nasci para o ciclismo no auge desta Classificação. Antes dela os franceses já tinham duas outras:

  • Challenge Desgrange-Colombo foi, de fato, o precursor do Super Prestige (houve uma briga por poder entre os organizadores e…) e laureou os maiores nomes dos anos pós II Guerra Mundial, como Schotte, Coppi, Bobet, Ockers, Kubler e De Bruyne.
  • Challenge Yellow que era diferente no conceito: só contavam pontos provas no território francês, incluindo muitas que não eram disputadas pelas grandes feras. Em seus 50 anos de vida apenas 2 estrangeiros (ou quase…) o venceram: o belga Lucien van Impe, em 1976, quando correu pela equipe francesa Gitane-Campagnolo junto com um jovem Bernard Hinault e venceu o Tour. O outro foi o “mais francês dos holandeses” Joop Zoetemelk, em 1977, quando teve um grande correndo pela também francesa Gan-Mercier (*). Os grandes nomes do Hexagono são os que mais venceram mesmo: Hinault (5 vezes e teria vencido mais um ou dois se o Challenge não deixasse de exitir em 82); Poulidor (7 vezes!!! um verdadeiro canibal de pequenas e médias provas francesas); Anquetil (só 2 vezes, por que não dava muita bola para corrida doméstica pequena); Bobet (5 vezes seguidas: era de um tempo em que se tinha que correr tudo e sempre…para comer).

Nota: essa Gan (gigantesca seguradora francesa) é a mesma que 20 anos depois iria patrocinar Greg Lemond. Mercier era uma bicicleta top francesa que eu nunca mais ouvi falar.

A UCI entra em cena

Durante todo o período do Super Prestige a vida dos analistas de ciclismo foi muito fácil. Uma grande Classificação internacional, umas 15 provas para acompanhar e pronto. Aí a UCI do presidente holandês Hein Verbruggen – ambicioso como poucos – resolveu que a entidade máxima do esporte deveria ter a verdadeira Classificação Oficial internacional.

Nada de errado…desde que fossem consistentes! Mas isso é o que menos vem ocorrendo. Até eu, um historiador fanático do ciclismo, me atrapalho todo em seguir tantas Classificações que ao longo do tempo se sobrepõem, desaparecem, mudam de regras etc. De 1984 para cá são 4 Classificações diferentes, fora mudanças de regulmento!

UCI World Ranking – lançado em paralelo com o Super Prestige Pernod (teve Sean Kelly vencendo as duas nos 3 anos de sobreposição, mostrando que eram consistentes), todas as provas da UCI faziam parte deste ranking.

Era muito interessante também por seguir o sistema da ATP (de tenis), em que os pontos obtidos nas provas do ano corrente substituem os mesmos do ano anterior. Também nunca teve zebra, por que só fera conseguia ser tão consistente ao longo do ano e com todas (!) as provas contando pontos.

Dentre os ciclistas que terminaram o ano na ponta do Ranking tivemos: Kelly (5x), Fignon, Bugno (2x), Indurain (2x), Rominger, Casagrande, Jalabert (4x), Zabel (2x), Bettini e Cunego. O World Ranking terminou em 2004. Do contrário, Bettini teria vencido mais algumas vezes.

UCI World Cup – aqui a UCI começou a se atrapalhar e ao criar um calendário específico chacoalhou o conservador mundo do ciclismo. As equipes passaram a se preocupar em marcas pontos – em serem regulares – ao invés de apenas vencer corridas. Diferentemente dos dias do Super Prestige, a UCI inventou uma camisa de líder, obrigava o ciclista a usá-la, os patrocinadores implicavam etc.

A World Cup foi uma precurssora do mais recente ProTour e teve como vencedores em sua curta vida de 16 anos os maiores ciclistas de Clássicas da história deste período – a World Cup não incluia provas por etapas e foi neste período que inventaram novas “clássicas” (muitas não duraram), como ano canadense G.P. des Ameriques, a inglesa Wincanton Classic, a alemã HEW Cyclassics, a japonesa Japan Cup e a espanhola (ou basca!) Classica de San Sebastian.

Curiosamente, também fazia parte do ranking um contra-relógio por equipes chamada G.P. de la Liberation. Apesar desse nome tão francês era disputada em Eindhoven, na Holanda, e sempre foi uma unanimidade no pelotão: “Acabem com esta corrida inútil!!”. Depois ela mudou de nome e sobreviveu até 2007.

World Cup foi vencida por Kelly (sempre ele!), Bugno, Fondriest, Ludwig, Museeuw, Bartoli, Bortolami (teve um único super ano na vida), Zabel, Tchmil, Deker e o recordista de vitórias Paolo Bettini (3x).

Fase Moderna

De 2005 para cá a UCI chacoalhou suas estruturas de novo, batendo todos os recordes de confusão, ações legais, prejuízos etc. Foi quando acabaram com as classificações anteriores e introduziram o ProTour (atualmente WorldTour).

Os problemas:

  • A lógica do ProTour é que as equipes definidas como tal devem correr TODAS as provas do calendário. Este é enorme, longo e cobre todo o globo (além das tradicionais provas européias, o pelotão vai até a China, Austrália e Canadá).
  • Outro ponto que gerou controvérsia foi o pacote de transmissão que a UCI fechou com as redes de televisão, arrecandando para sí uma fortuna (acho que aprenderam com a sua vizinha FIFA). Pois bem, quando perceberam que os seus Grand Tours gerariam um dinheirão para a UCI, os organizadores das grandes voltas se rebelaram e chutaram a UCI para fora da organização. A briga durou 2 anos, mas voltaram às pazes quando o checão foi melhor dividido.
  • As equipes grandes odeiam o Pro/WorldTour por que isso encareceu demais o custo de operação. As equipes precisam ter pelo menos 22 ciclistas (antes se mantinham com 15), viajam muito mais e são obrigadas a correr provas que, muitas vezes, não lhes interessam (seja pela pouca tradição ou por razões mercadológicas).
  • As equipes pequenas odeiam por que não podem participar das provas ProTour, salvo se forem convidadas via Wild Card. Antes isso era menos complicado. Por exemplo, uma equipe espanhola nem ia ao Tour de Flandres, o que abria uma vaga para uma equipe menor da Bélgica. Só o Tour que não muda: sempre teve mais candidato do que vaga…

Agora eu pergunto: alguém lembra quem foram os vencedores do ProTour desde 2005? Confesso que eu não lembrava até escrever este post. Já os do Super Prestige Pernod e do UCI World Ranking eu lembrava. Tudo era mais simples, mais enxuto e racional.

Mas vamos lá. Os vencedores da “dupla” ProTour e WorldTour (esta em itálico) são:

  • 2005: Danilo di Luca (Liquigas)
  • 2006: Alejandro Valverde (Caisse d’Epargne)
  • 2007: Cadel Evans (Predictor Lotto)
  • 2008: Alejandro Valverde (Caisse d’Epargne)
  • 2009: Alberto Contador (Astana)
  • 2010: Joaquim Rodrigues (Katusha)
  • 2011: Phillipe Gilbert (OmegaPharma Lotto)

Você ainda está lendo? Ok, se não dormiu depois de tanta Classificações/rankings diferentes, segue a última e que difere de todas as demais! É a premiação conhecida como Vélo d’Or (ou Bicicleta de ouro), e promovida pela revista francesa Vélo (sobrevivente dos tempos da Mirroir!!).

Enquanto todas as demais têm a objetividade dos números, resultado da soma dos pontos obtidos nas provas, o Vélo d’Or é definido pelo voto de dezenas de jornalistas especializados no mundo – torçamos para o nosso Leandro Bittar um dia entrar nessa lista!

Segue abaixo a história desta premiação, que é, atualmente, a de maior prestígio no mundo do ciclismo. Alguma dúvida que Phillipe Gilbert levou o prêmio este ano? Nenhuma. E mais, além do Vélo d’Or e do WorldTour, o wallon também foi escolhido (de novo) como Esportista do Ano na Bélgica. Que ano!

1992  Indurain (ESP)  Rominger (SUI)  Chiappucci (ITA)
1993  Indurain (ESP)  Fondriest (ITA)   Rominger (SUI)
1994  Rominger (SUI)  Indurain (ESP)  Berzin (RUS)
1995  Jalabert (FRA)   Indurain (ESP)  Olano (ESP)
1996  Museeuw (BEL)  Riis (DEN)  Zülle (SUI)
1997  Jan Ullrich (GER)  Jalabert (FRA)  Pantani (ITA)
1998  Pantani (ITA)  Bartoli (ITA)  Armstrong (USA)
1999  Armstrong (USA)  Ullrich (GER)   Tchmil (BEL)
2000  Armstrong (USA)  Zabel (GER)  Ullrich (GER)
2001  Armstrong (USA)  Zabel (GER)  Dekker (NED)
2002  Cipollini (ITA)  Armstrong (USA)  Bettini (ITA)
2003  Armstrong (USA)  Bettini (ITA)  Vinokourov (KAZ)
2004  Armstrong (USA)  Cunego (ITA)  Freire (ESP)
2005  Boonen (BEL)  Armstrong (USA)  Di Luca (ITA)
2006  Bettini (ITA)  Valverde (ESP)  Cancellara (SUI)
2007  Contador (ESP)  Cancellara (SUI)  Bettini (ITA)
2008  Contador (ESP)  Cancellara (SUI)  Sastre (ESP)
2009  Contador (ESP)  Cavendish (GBR)  Cancellara (SUI)
2010  Cancellara (SUI)  Contador (ESP)  Schleck (LUX)
2011  Gilbert (BEL)  Evans (AUS)  Cavendish (GBR)

Abraços, F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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7 Responses to Os melhores do mundo segundo WorldTour, ProTour, Vélo d’Or, Super Prestige Pernod etc., etc.

  1. jucaxc says:

    Sédis que foi adquirida pela Sachs, que depois foi comprada pela SRAM!

  2. Pobre do Sean Kelly, ninguém fala dele o quanto deveria. Baixei um tempo atrás as Paris-Roubaix de 1985, 86 e 87 e a Lombardia de 1985, 87 e 88 e pude vê-lo vencer. Emocionante!
    De repente vc poderia escrever uma biografia dele, né não?

  3. jucaxc says:

    O grande King Kelly! andava muito esse irlandês!

  4. Xará, descobri seu blog através do Maglia Rosa e gostei bastante. Tem alguns nomes que nem conhecia. Muito bom. Acompanharei à partir de agora. Pedalo há 39 anos e já competi regionalmente por 3 anos, de 1991 à 1993, mas agora é só por prazer mesmo. Grande abraço!

  5. thiagocae says:

    Cade você Fernando?

  6. thiagocae says:

    Cadê você Fernando?

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