Lago Laceno: Giro 2012 x Giro 1998

Buongiorno!

Neste domingo os heróis do pedal enfrentarão 229 km (quilometragem típica de Grand Tour dos anos 70…hoje em dia diminuiu muito) de sobe-e-desce, numa etapa de grande desgaste. O final se dará no alto de Lago Laceno, após 9 km de escalada.

Uma etapa com um trajeto belo demais para um pelotão tão sem graça. Mas entremos na máquina do tempo e vamos até 1998, quando o Giro passou por alí!

1998 – Um Giro de Gigantes

Era a 81a. edição da Corsa Rosa e grandes nomes do ciclismo da época participaram, tonando-o épico. O pelotão percorreu 3.811 km, em 22 etapas – bem mais duro do que atualmente.

E foi um Giro bem internacional também, pois largou na França (Nice), passou pela Cidade-estado de San Marino e antes de terminar em Milão teve duas etapas na Suiça. Mas notem que era tudo pertinho, nada de pegar avião como este ano na Dinamarca…

Curiosamente, assim como neste ano, em 1998 a primeira etapa com subida dura aconteceu em Lago Laceno (na 6a “tappa”, enquanto que amanhã será a 8a).

No campo do sprint, se em 2012 a grande estrela é o campeão mundial Mark Cavendish, em 98 brilhava Mario “Re Leone” Cippolini, sempre embalado pelo seu “red train” da Saecco.

O Grande Mario e sua Saecco foram surpreendidos nas primeiras etapas, quando um ataque surpresa de Mariano Piccoli tirou dele uma vitória certa na primeira etapa. Depois tivemos uma verdadeira zebra, com a vitória do sprinter espanhol Angel Edo na 2a etapa. Mais uma surpresa – esta mais moderada – foi quando o rápido italiano Nicola Minali o bateu na 4a. Detalhe, Minali não era um qualquer, pois venceu 2 vezes Paris-Tours (a Clássica dos Sprinters e uma dúzia de etapas de Grand Tours).

Minali bate os homens rápidos da época (em 4o ficou um então jovem Alessandro Pettachi e em 5o um já coroa Silvio Martinello, hoje comentarista da RAI). Cippo caiu antes do sprint final.
 

Dali pra frente só deu Saecco. Cippo venceu 4 etapas e venceria facilmente a Maglia Ciclamino da Classificação por Pontos, mas – como aconteceu mais de uma dezena de vezes em Grand Tours – ele abandonou a prova enquanto se arrastava pelas montanhas da 3a semana de prova.Cipo à frente de Minali (esq.) e Edo (dir.): dominação em Grand Tours...até as montanhas chegarem

 

Com a desistência de Cippolini, o seu embalador-mór Gian Matteo Fagnini assumiu o papel de sprinter-maison da equipe e, para surpresa de muitos, venceu as duas últimas etapas planas daquele ano, incluindo a prestigiosa etapa final de Milão, em frente da lindíssima catedral do Duomo!!

O Lançador se torna Finalizador. Fagnini vence debaixo d’água vestido de Azzurra (líder da Classifica Intergiro – sprints intermediários)
 

Classificação Geral – aqui a corrida tinha um favorito absoluto e alguns ótimos candidatos para o pódium. O nome da prova era Alex Zulle, que após anos na forte equipe espanhola ONCE, mudou e assumiu a liderança da ainda mais forte francesa FESTINA.

Este suiço chegava naquele Giro trazendo na bagagem o bicampeonato da Vuelta a España (97 e 96), o título de Campeão Mundial de CRI (96) e um 2o lugar no Tour de France 1995, logo atrás de um certo gigante de nome Miguel Indurain.

A concorrência italiana daquela época era famosa por serem excelentes escaladores (e se odiarem!) – Marco Pantani, Ivan Gotti (vencedor do Giro 97) e os futuros bicampeões Gilberto Simoni e Paolo Savoldelli. Lá estava também a estrela russa Pavel Tonkov, vencedor do Giro 96.

Traduzo abaixo um texto do livro “The Story of the Giro d’Italia” (que acabei de achar na internet e quero comprar!!):

“Havia consenso entre a maioria dos competidores, diretores esportivos e jornalistas que Alex Zulle era o favorito para o Giro 1998. Alex Zülle era o homem a ser batido. Ele era um tremendo contra-relogista e os 80 quilometros de CRI certamente jogavam a seu favor. Ivan Gotti, arquirival da Polti, declarou que tanto CRI daria a Zulle uma vantagem de 4 minutos sobre os escaladores italianos, que deveriam ser compensadas nas montanhas. Mais fácil falar do que fazer, Zulle era também um excelente escalador, capaz de vencer qualquer Grand Tour.

Por outro lado, ninguém dava muita bola para Marco Pantani, que era considerado super escalador, mas sem qualquer chance de vencer um Giro com tanto contra-relógio pela frente.

Zulle venceria o Prólogo, a primeira etapa de montanha (justamente esta de Lago Laceno), destroçando os escaladores italianos e o contra-relógio de Trieste (15a etapa). Lembro-me como se fosse hoje, pois assisti ao vivo pela RAI, a depressão da italianada: ciclistas e jornalistas diziam que o Giro havia terminado antes do final da 2a semana. O suiço parecia vir de outro planeta, tamanha sua superioridade.

Zulle “O Extraterreste” trucida os escaladores italianos em Lago Lucena

 

Só que, de repente, sem qualquer explicação plausível, Alex Zulle teve uma sucessão de panes quando o Giro chegou nas Dolomites (etapas corridas nas duríssimas Selva di Val Gardena, Alpe di Pampeago e Plan di Montecampione) e despecou na “Classifica Generali” – terminou fora do Top 10, a mais de 30 minutos de Pantani.

Para mim, Zulle, que havia entrado de cabeça no “esquemão” do doping da FESTINA (lembram do escândalo do Tour 98?), resolveu aliviar para não ser pego – sua queda de rendimento foi abrupta demais para ser apenas má forma.

Zulle sofre nas montanhas das 3a semana e não seria um lanchinho que mudaria seu destino

 

Por outro lado, Marco Pantani (Mercatone Uno) e o russo Tonkov (MAPEI) disputaram arduamente a vitória final, com cada um levando uma etapa de alta montanha. A etapa de Plan de Montecampione foi lendária, com Pantani atacando o russo continuamente até que este cedessse faltando apenas três quilometros para a chegada.

Pantani x Tonkov: passo forte só interrompido por sequênciais ataques fulminantes

 

Mas ainda teria mais emoção: o contra-relógio final, corrido na Suiça (entre Mendrisio e Lugano), favorecia Tonkov – vocês não fazem ideia como Pantani era ruim como passista. Mas Pantani fez o contra-relógio da vida dele e levou sua primeira e única Maglia Rosa.

Ao final, a Classificação Geral mostrou que o Giro 1998 foi uma corrida entre dois homens e terminou assim:

  1. Marco Pantani
  2. Pavel Tonkov a 1’33”
  3. Giuseppe Guerini a 6’51” (a)
  4. Oscar Camenzid a 12’16” (b)
  5. Dani Clavero a 18’04”

(a) Guerini era um super escalador e levou a 17a tappa em Selva di Val Gardena porque Pantani gentilmente não sprintou, num típico acordo de cavalheiros. Mas ele era um sério candidato a vencer o Giro no futuro até que, mais preocupado em ganhar EUROS do que corridas, este franzino italiano foi correr para a T-Mobile como escudeiro de Jan Ullrich nas monstanhas do Tour de France.

(b) O suiço Camenzid seria Campeão Mundial meses seguintes, na Holanda. Nunca venceu tudo aquilo que se esperava dele, até que acabou a carreira em desgraça em função de tantas suspensões por doping.

Acabava o Giro d’Italia e toda uma nação voltava a delirar pelo ciclismo. Um ídolo do povo voltava a vencer. Toda a esperança colocada em Marco “Il Pirata” Pantani ao longo dos anos finalmente frutificara. A vitória, em julho seguinte, no Tour de France o colocou no panteão dos Campionissimi do ciclismo italiano. O que viria depois seria só tragédia, no entanto.

 A dor estampada no rosto de Pantani. Ele sofria, mas impunha o dobro de sofrimento em seus rivais

 

Então, toda essa história por causa da etapa de hoje em Lago Lucena. Mas dá para comparar este Giro com aquele de 1998? Você me responde.

Ciao amici! F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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4 Responses to Lago Laceno: Giro 2012 x Giro 1998

  1. Davi says:

    Nossa, Fernando, realmente, Pantani, Zulle, Tonkov, Cippo… dá pra parar por aí, né!!! Pena que deu uma caída no setlist do Giro, mas se for ver não é só este ano, já ano passado, em detrimento do Contador, o resto era esse mesmo pessoal de 2012, Scarponi, Purito, Rujano, Nieve, Gadret… saiu o Nibali mas em compensação entrou o F. Schleck para este ano.
    Com as super periodizações (legado de Lance???), os tops cada vez mais abrem mão do Giro para focar o ano no TdF, vide Evans e A.Schleck, dois dos maiores GC e atuais campeões dos últimos TdF… pena, o Giro é tão charmoso, não merecia ficar com o segundo escalão!

  2. Realmente eu pude acompanhar o giro e o tour 1998.
    Não tem comparações Il pirata fazia a diferença nos alpes com seus ataques fulminantes, quando ele levantava do banco não tinha para ninguém ele empunha um ritmo que os outros sobravam de roda.
    A grande diferença de 1998 para 2012 é que naquele ano de OURO tinhamos muitos candidatos ao titulo e grandes escaladores que definiam nas montanhas.
    Pantani sempre será lembrado passe o tempo que passar ele será sempre um Herói para quem pode acompanhar suas escapadas.
    ETERNO PIRATA!

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