Começa o “mini-Tour de France” – Vive le Critérium du Dauphiné !!

Bonjour mes amis du cyclisme!

Finalmente entramos naquela fase do ano em que o frisson se veste de amarelo (ou melhor de jaune), pois Le Tour de France já aparece no horizonte – a foto acima mostra os Alpes franceses vistos a partir de Grenoble (capital do Dauphiné).

Acontece que por conta dos Jogos Olímpicos de Londres o calendário pós Primavera foi todo antecipado e o Tour largará já no dia 30 de junho.

E como acontece há muitas décadas, três provas por etapas montanhosas antecedem o Tour e servirão de (a) aperitivo para nós, (b) medição de forças entre os rivais, (c) afinamento de forma para os favoritos. A primeira delas é o:

Critérium du Dauphiné – a antiga Critérium du Dauphiné Libéré começa neste domingo (dia 3/6) e traz um pelotão de primeiríssima linha – uma verdadeira avant-première do Tour. Principais características desta prova alpina:

  • Etapas: 1 prólogo + 7 etapas, cobrindo
  • Distância: 1.052 km
  • Contra-relógio: além de um prólogo clássico (5,7 km por avenidões, com poucas curvas) na linda Grenoble, as feras percorrerão 53 km num terreno plano na 4a etapa. Mas ao ver altimetria fico com impressão que é como interminável sobe-e-desce em pequenas subidinhas nervosas. Será uma etapa para um puncheur e os escaladores puros tomarão muito tempo.
  • Montanhas: após algumas etapas para sprint e outras com montanhas no meio da etapa – aquelas que favorecem fugas matinais -, as duas últimas (sábado e domingo da semana que vem) serão duras e com o perfil do Tour. No sábado o pelotão chegará no alto da mítica Morzine, passando por Joux-Plane e Colombiére. Já a etapa de domingo termina em Châtel e apresentará uma série de pequenas montanhas, seguida de uma interminável  subida leve, para terminar ao estilo Flèche Wallone (Huy) ou Amstel (Cauberg).
  • Os participantes: eu não me lembro de um Dauphiné com tantos favoritos ao Tour (Maillot Jaune e Top 10). Dá a impressão que nenhum favorito irá correr o Tour de Suisse – no passado, Lance e Ullrich nunca corriam a mesma prova, para não mostrarem a verdadeira fora frente-a-frente antes da hora! Vamos analisar equipe-por-equipe:

(1) Sky – Bradley Wiggins: a esperança britânica para a tão sonhada vitória na Classificação Geral do Tour vem tendo um ano dígno de toda esta esperança (e de todas as Libras Esterlinas que a Sky vem despejando nele e na equipe). A ex-fera dos velódromos já venceu este ano as duras e prestigiosas Paris-Nice e Tour de Romandie (na Suiça), tendo faturado os dois contra-relógios. Vencedor do Dauphiné ano passado, para mim parte como favorito de novo.

Foto: Wiggins gosta do “maillot jaune” com barrinha azul do Dauphiné, mas ele mira mesmo naquele outro, só “jaune”

(2) BMC – Cadel Evans: o último vencedor do Tour de France havia sido 2o no Dauphiné em 2011. Este ano venceu o tradicional e competitivo Critérium Internacional (na França). Outro favorito.

(3) Lotto – Jurgen van den Broeck: a nova (i.e. ressucitada) equipe “governamental” belga vem com sua força máxima para as montanhas. Van den Broeck, que foi 4o do Dauphiné e do Tour em 2010, este ano andou apagado e só fez um 3o na Volta a Catalunya. Seu gregário Jelle Vanendert, que surpreendeu no Tour 2011 após a queda de Van den Broek (1 vitória de etapa, um segundo lugar, usou o Maillot a Pois Rouge e terminou em 20o lugar), este ano mostrou boa forma nas Clássicas onduladas (2o no Amstel, 4o na Flèche e 10o em Liège). Se os rivais amolecerem pode dar Bélgica no Dauphiné, fato que não acontece desde … 1978, com Michel Pollentier (da poderosa Flandria).

Foto: Pollentier, baixo-magro-feio-desengonçado, mas poderoso na montanha e no CRI (e no doping também…)

(4) AG2R – Jean-Christophe Peraud: o veterano francês (35 anos), que fez um surpreendente 9o lugar do Tour 2011, vem bem acompanhado por Christophe Riblon (ano passado venceu 1 etapa do Tour e foi 7o do Dauphiné). Estes franceses não tem chance no Tour, mas o Dauphiné poderá estar ao seu alcance.

(5) Radio Schak – Andy Schleck: o eterno segundo (salvo se o vencedor comer “carne batizada”) usará o Dauphiné para lapidar sua forma, de modo a vencer o seu “segundo” Tour na estrada. Este ano esteve preocupantemente apagado.

(6) Liquigas – Vincenzo Nibali: o siciliano vem para vencer, mas a equipe que o acompanha é fraca –  a forte ficou perdendo tempo no Giro, ajudando inutilmente Basso. Para quem já fez pódium no Giro e venceu uma Vuelta disputadíssima, Nibali – em forma – é favorito. Nesta Primavera andou forte: venceu a Tirreno-Adriático, fez um grande 2o em Liège (após pregar supreendemente quando liderava com folga, já nos últimos quilometros) e um belo 3o em San Remo.

(7) Euskaltel – Samuel Sánchez: os simpáticos bascos vem, como sempre, com tudo para o Dauphiné. Já o venceram em 2004 e 2005 (com Iban Mayo e Iñigo Landaluze, respectivamente) e Sanchez vem em grande forma: venceu a duríssima Vuelta al Pais Basco, além de um 2o na Volta a Catalunya e dois 7o lugares, no Amstel e em Liége.

Além destas feras, outros nomes de grande reputação liderarão suas equipes, ainda que, na minha opinião, não tenham lá muita chance. Exemplos: o “inaposentável” Vinokourov (Astana), outro que já passou dos seus melhores dias é Menchov (Katusha), o incansável atacante Voeckler (Europcar), o fortíssimo ex-gregario (de Contador) Daniel Navarro (Saxo Bank), Jerome Coppel (Saur-Sojasun) e Luis León Sanchez (Rabobank).

Enfim, salvo alguma honrosa exceção (como na Rabobank, onde o líder do Tour deverá ser Robert Gessink, que acabou de vencer o Tour of California, e não largará nesta prova), a elite do Tour estará correndo esta semana pelas estradas do Dauphiné.

História da Corrida

O Critérium du Dauphiné Libéré (nome oficial até 2010) é disputado desde 1947 e era organizado por jornal de mesmo nome. Com seus tentáculos cada vez longos e fortes, o “polvo” ASO encampou mais esta prova e manteve apenas o nome da região: Dauphiné.

Aqui a regra é clara: só ganha ciclista forte e famoso. Não é terreno para novatos, desconhecidos ou oportunistas. Olhando a lista de vencedores dos últimos 50 anos, eu encontrei uma poucas exceções que confirmam a regra, i.e. ciclistas que tiveram nesta conquista seu grande momento de glória.

Foto: Don Miguel, que classe! Saudades…

As surpresas aconteceram em:

  • 1974 – Alain Sainty: foi seu único bom ano, com alguns pódiuns de valor e um 9o no Tour
  • 1984 – Martin Ramirez: este colombiano surgiu do nada e estampou sua superioridade em cima de um Bernard Hinault que vinha de cirurgia. Ramirez venceria o Tour de L’Avenir em 1985 e eu jurava que ganharia muito…e não ganhou mais nada.
  • 1998 – Armand de las Cuevas: ex-gregário de don Miguel Indurain, este francês de nome espanhol rolava forte e fez vários Top 10 em provas importantes, mas eu quase caí da cadeira quando soube desta vitória. Zebra? O homem rolava forte, deixaram escapar numa subida e ele levou.
  • 2005 – Iñigo Landaluze: este picareta venceu o Dauphiné para em seguida ficar em 100o no Tour (sim, centésimo!)…e ser descoberto com mais testosterona no sangue do que o pelotão inteiro. Caiu em desgraça. Não venceu nada que prestasse antes ou depois. O farmacêutico foi seu melhor co-equipier.
  • 2010 – Janez Braijkovic: este talentoso esloveno é um constante Top 1o de provas duras, mas nunca havia se provado um vencedor….e continua não sendo. Num pelotão envelhecido, quem sabe a hora dele não chega agora.
Foto: A vitória de etapa ficou para o escalador Jimenez, mas o baixinho de trás – De las Cuevas – levou a Geral

Grandes Vencedores do Dauphiné

Com exceção dos duplo-Maillot Jaune Laurent Fignon e Alberto Contador, todos os grandes vainqueurs du Tour de France venceram o Critérium du Dauphiné Libéré:

  • Louison Bobet (FRA) venceu em 1955 / 3 Tour de France (*)
  • Jacques Anquetil (FRA) venceu em 1963 e 65 / 5 Tour de France (*)
  • Eddy Merckx (BEL) venceu em 1971 / 5 Tour de France (*)
  • Bernard Thevenet (FRA) venceu em 1975 e 76 / 2 Tour de France (*)
  • Bernard Hinault (FRA) venceu em 1977, 79 e 81 / 5 Tour de France (*)
  • Greg Lemond (EUA) venceu em 1983 / 3 Tour de France
  • Miguel Indurain (ESP) venceu em 1995 e 96 / 5 Tour de France (*)
  • Lance Armstrong (EUA) venceu em 2002 e 03 / 7 Tour de France (*)

(*) Ciclistas que venceram o Dauphiné e o Tour no mesmo ano – isto aconteceu 10 vezes.

Foto: Menino poderoso – venceu os Grandes no Dauphiné e em agosto venceria o seu primeiro Mundial.

Estranhou que Merckx só venceu o Dauphiné uma vez? Não se esqueça que o Canibal tinha por hábito correr – e vencer – o Giro d’Italia no mesmo ano, além de meia-dúzia de Clássicas e voltas de uma semana.

Os Tricampeões do Dauphiné – ninguém ganhou 4x esta prova, mas 4 ciclistas a venceram 3x. O grande Hinault o fez magistralmente. Quando não a venceu foi porque preferiu correr o Giro (correu 3x…e o venceu 3x). A fera espanhola Luis Ocaña – grande rival de Merckx – foi outro que o conquistou o Tri. Este grande ciclista era um homem perturbardo (suicidou-se), mas venceu o Tour 1973 (sem Merckx). É sabido, porém, que o teria vencido antes, em 71, não fosse um tombo que quase o matou, na descida do Col de Portet d’Aspet durante um dilúvio histórico – Merckx venceu e declarou: “Não a mereço; será uma vitória manchada para sempre”.

Foto: lamentavelmente, a imagem mais conhecida de Ocaña. Sua queda chocou o mundo, pois seria o primeiro a bater o imbatível Merckx num Grand Tour.

Os outros dois tricampeões foram Nello Lauredi (especialista em Dauphiné!), nos anos 50, e Charly Mottet, nos anos 80. Este eu acompanhei bem e era tido como um sucessor de Fignon, mas nunca foi além de um 4o lugar no Tour (e 6 vitória etapas em diversos Tours) e algumas belas vitórias em Clássicas (3x GP des Nations, Lombardia, Zurich) – Mottet foi colega de equipe do nosso Mauro Ribeiro na RMO.

Foto: Mottet rolava forte e escalava bem…mas não tão bem para um pódium do Tour. Brilhou no Dauphiné e fez um pódium no Giro e um no Mundial de 1986

Le Dauphiné – a região

Terra de grande orgulho, o Dauphiné era uma nação independente até 1349, quando a França o absorveu – sem guerra. O motivo foi que o pequeno reino se afundara em dívidas, graças ao estilo gastador do seu governante, o Dauphin. O Reino da França então aproveitou a chance e, após assumir as dívidas do Dauphiné e do seu perdulário Dauphin, tomou conta das riquezas e belezas da região. 

Foto: a região do Dauphiné, encrustrada nos Alpes, faz fronteira com a Suiça francesa

O prestigio da região, no entanto, permaneceu e um tratado determinou que os filhos dos reis franceses passariam a ser chamados de Dauphin de France – a região também conseguiu manter uma certa autonomia de Paris, mas isso não durou muito.

Se você tem uma grana e quer conhecer lugares menos óbvios da França, aqui está um bom lugar para pesquisar. Tem montanha para esquiar e escalar, bosques e trilhas, pistas e estradas abundantes para pedalar, temperatura amena (menos no inverno), boa comida e bom vinho etc., etc., etc. A lista é longa.

Foto: gosta de batatas? A batata dauphinoise tem por aqui e é um absurdo de bom…e de calórica!

E a região é boa para negócios e para estudar. Pesquise e encontrará de tudo por aqui.

Terra de grande ciclismo, a região é visitada quase que anualmente pela caravana do Tour de France, pois suas cidades são ricas e belas. Nomes como Grenoble, Valence, Vienne, Brianson, Gap, entre outros, são ville-etape com frequência. E dois Campeonatos Mundiais já aconteceram em suas terras:

  • 1972 – Gap: com dobradinha italiana. O sprinter Marino Basso ultrapassou nos últimos metros o campatriota Franco Bitossi (favorito e líder da equipe), em mais um momento de grande controvérsia do ciclismo azurro.

Foto: “Traição à Italiana”? Marino Basso sentiu que seu líder, Bitossi, seria ultrapassado pelo francês Cyrille Guimard e foi à luta. Bitosse nunca o pedoou, pois Guimard acabou em terceiro mesmo.
 
  • 1989 – Chambery: eu estava lá e foi uma luta sem fim no duro circuito alpino, desenhado para o francês Laurent Fignon vencer – do mesmo jeito que fizeram Sallanches para Bernard Hinault vencer em 80. Se Le Blaireau Hinault honrou o “seu percurso” e venceu, em 89 quem levou o Arc-en-ciel para casa foi o arqui-rival de Fignon, Greg Lemond. Mas o destaque mesmo foi a decepção de Sean Kelly, que fez o mais difícil, que era escalar tantas rampas, para perder num sprint que era o único favorito.
Foto: já pensou subir e descer, debaixo de chuva, por mais de 7 horas? Épico!

É isso. Agora é conectar no Steephill e garimpar boas imagens ao longo da semana.

Boa prova + abraços! F.

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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11 Responses to Começa o “mini-Tour de France” – Vive le Critérium du Dauphiné !!

  1. José Carlos SBC/SP says:

    Como sempre uma leitura prazerosa.
    Valeu FB, agora que vc desencaixotou suas Mirroirs, compartilha com a gente.
    Abraço.

  2. José Carlos SBC/SP says:

    O Evans foi vice 4 vezes nessa prova. Deve ta entalada tambem, rsss

  3. Juca says:

    Well… veja bem! Critérium du Dauphiné… Dauphiné Libéré … Tour do Delfinato… Delfin Neto… ahhhh… Evans hoje mostrou que pode arrancar tempo até em descida! Belo post! Abs

  4. Leandro Bittar says:

    O que mais me indigna neste post é que o safado deixa o pessoal tanto tempo ser ler essas coisas. Brilhante, Blanco. Valeu pela aula!

  5. Dnilo says:

    fantastico mesmo…..

  6. Realmente uma aula de história do ciclismo. Além da parte ciclistica um gostinho de gastronomia, Uma outra forma de dizer a vontade de comer depois de só pensar nas 7 horas de subidas e descidas. Parabéns Fernando Blanco.

  7. Antonio Silvestre says:

    Fernando vamos marcar para assistir o Mundial deste ano que vai ser um espetaculo e sera prazer ce lo depois de tantos anos.Estou indo para a Italia por 3 semanas ficar com o Murilo( vai andar muito na Olimpiada) em Passo Pordoi ,2.300 metros ,vc conhece claro.
    Grande abraco
    Antonio Silvestre

  8. Antonio Silvestre says:

    Me perdoe , esqueci de dizer Leandro tem raxao e uma aula parabens e muito obrigado.

    • Receber um elogio de Antonio Silvestre, o maior perseguidor da história do ciclismo brasileiro, recordista mundial Junior, é uma honra sem igual.
      Silvestre foi o único ciclista que eu conheci que era ídolo até dos rivais! Um forte abraço!

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