Fim do Dauphiné: Wiggins iguala recorde de Merckx !!

Caros amigos,

Ao vencer o Critérium du Dauphiné neste domingo – é bicampeão! – o inglês Bradley Wiggins atinge uma marca que durava desde 1971 e que pertencia a Eddy “Canibal” Merckx. Por que? Porque desde então nenhum ciclista vencia a Paris-Nice e este mini Tour de France no mesmo ano.

E Wiggins foi mais longe ao também vencer o duro e tradicional Tour de Romandie, na Suiça – e esta prova Merckx nunca venceu! É feito para poucos vencer as três mais tradicionais voltas de 1 semana num mesmo ano. O ex-Perseguidor, que apesar de britânico nasceu na Bélgica (Ghent), venceu os três CRIs das três voltas (mais um na Volta do Algarve), mais uma etapa de montanha em cada uma (menos no Dauphiné).

E Merckx, o que fez em 1971?

Bem, se concordamos que Wiggins está fazendo uma bela temporada, deem uma olhada no que o belga fez naquele ano:

Tour de France:Jersey yellow.svg Jersey green.svg 4 etapas

Arc en ciel.svg Campeonato Mundial

Milano-San Remo

Liège–Bastogne–Liège

Giro di Lombardia

Rund um den Henninger Turm (G.P.Frankfurt)

Omloop “Het Volk”

Paris–Nice

Critérium du Dauphiné Libéré

Grand Prix du Midi Libre

Tour of Belgium

Giro di Sardegna

Super Prestige Pernod International

Não dá para comparar, não é mesmo? Aliás, só Bernard Hinault chegava perto (nunca junto) de Merckx em matéria de múltiplas vitórias de prestígio numa mesma temporada. Se Wiggins vencer o Tour – e ele parte como favorito! – terá feito uma temporada impecável, mas ainda assim longe do Canibal.

Foto: Brad (Dauphiné 2012); Eddy (Mundial 1971)

Vale destacar que naquela época os ciclistas – de ponta ou gregarios – corriam de março a outubro, seja Grand Tour ou um simples criterium. O belo (e desaparecido) Tour du Midi Libre ou o (hoje pouco prestigiado) Tour de Belgique, competições vencidas por Merckx em 71, eram corridas por todas as feras do pelotão.

Aproveitando, Vive la Belgique!

A Volta da Bélgica / Tour de Belgique / Ronde van Belgie era corrida e disputada a tapa por todo aquele pelotão de gigantes belgas dos anos 70.

Imaginem Merckx, Maertens, De Vlaeminck (Roger e Eric), Godefroot, Leman, Dierickx, Sercu, Bracke, Pollentier, Van Impe, De Muynck, Van Linden, Bruyère, os irmãos Planckaert, Demeyer, Monsere, Verbeeck e tantos outros lutando pela hegemonia em sua Volta nacional? Naquele época só belga ganhava a Volta da Bélgica…mas quando essa turma se aposentou o Rei da Béligica, Balduino, quase cortou os pulsos pois só estrangeiro passou a ganhar.

Foto: 1977, um Merckx já decadente lidera uma fuga com De Vlaeminck (à esquerda) e Maertens (à direita). Só dava belga na Volta da Bélgica.

Naqueles anos de glória quem mais brilhou foi a poderosa Molteni, equipe de Merckx. Eddy a venceu duas vezes e o leal co-equipier Roger Swerts outras duas – com o real consentimento de Merckx, naturalmente, porque o Canibal queria ganhar todas (repito, todas!) e só abria espaço para seus gregarios quando não conseguia se livrar dos seus rivais marcadores – “Pas de cadeux dans le cyclisme”, diz ele até hoje (“Não tem presente no ciclismo”).

Eu e o Ronde van Belgie

Em 1989, eu juntei todos os trocados, coloquei uma mochila nas costas e fui pela primeira vez para a Europa…só para ver corridas. E de cara fui para a Bélgica acompanhar a volta do país. Apesar do meu inglês mabembe, fazia amigos em cada etapa, pois todos se impressionavam com o fato de um brasileiro ir à Bélgica para ver seu Tour/Ronde e que ainda conhessece bem a história do seu ciclismo – fui até convidado para ficar na tribuna de honra nas duas últimas etapas.

A prova andava tão sem prestígio que havia até mudado de nome (fora batizada de Turhout-Werchter) e misturava a volta ciclística com um famoso festival de rock belga. Muito circo e pouco pedal. A coisa andava tão negra na terra de Eddy Merckx que a volta não havia sido disputada em 1982, 83 e 87, e depois não aconteceria de novo entre 89 e 91. Uma vergonha nacional. Motivo: falta de patrocinadores, que não se interessavam pelo baixo nível do pelotão belga. Estavam bem mal acostumados…

Voltando para a volta que eu assisti, e para fechar com “chave de lata” a má fase do ciclismo belga, o inglês Sean Yates, correndo pela equipe americana 7-Eleven e flagrado no exame antidoping, a venceu (e levou apesar do doping!). Uma heresia sem igual!

Foto: Yates era um contra-relogista de bom nível.

Mas uma coisa interessante – e bacana – de uma prova como essa é que nossos ídolos ficam absolutamente acessíveis. Os ônibus das equipes param em alguma rua perto da largada, eles descem e saem pedalando. Foi numa dessas que eu cruzei com Fignon e seu colega Thiery Marie (grande contra-relogista), mas só deu tempo de tirar a foto… Já no Tour, no Giro e nas grandes Clássicas é um festival de cordões de isolamento, seguranças etc. Um porre!

Pois foi assim, enquanto circulava pelas ruas da pequena Geel (local do prólogo), que eu cruzei com o ônibus da equipe ADR e, ao me aproximar timidamente, dei de cara com um pra lá de simpático Eddy Planckaert, um dos meus ídolos. Me apresentei a ele e dá-lhe festa: “Braziliaan, braziliaan!!”, gritava ele para seus colegas, anunciando que um maluco do Brasil estava lá. Preciso achar as fotos…

Foto: Que fase da pequena ADR! Ronde (acima) e Maillot Vert em 88 com Planckaert; Tour de France e Mundial em 89 com Lemond.

Dias depois, assisti em Ostende um daqueles sprints em que o nosso coração parece que vai sair da boca, tamanha a disputada feroz entre Planckaert e a fera holandesa Jean Paul van Poppel: de arrepiar. Deu Van Poppel.

Foto: Van Poppel, o míssil holandês, humilha a realeza do sprint dos anos 80 – Planckaert, Hermans, Kelly, Dewilde (Campeão Belga) e Vanderaerden (Maillot Vert)

Eddy (o Planckaert) venceu o Ronde, Roubaix, 2 Het Volk, 2 GP E3, foi Maillot Vert do Tour (mais 2 vitórias de etapas), 8 vitórias de etapas na Vuelta etc. Uma carreira tipicamente flamenga/vlaams/flandrian.

Uma grande surpresa para mim naquela volta foi testemunhar a antipatia que os belgas nutriam pelo seu filho pródigo Eric Vanderaerden. Correndo pela fortíssima Panasonic (sucessora da holandesa TI Raleigh), Eric caiu no prólogo, após derrapar numa curva, e… foi “calorosamente” vaiado. Eu não entendia como aquilo poderia acontecer!

Vanderaerden era um grande ciclista e largava como favorito em quase todas as provas de 1 dia. Já havia vencido o Tour de Flandres, a Paris-Roubaix, a Ghent-Wevelgen, dezenas de semi-clássicas e outras provas belgas, 5 etapas do Tour de France + o Maillot Vert 1986. Mas era arrogante e isso era um pecado mortal para os belgas. O hábito de correr para os holandeses de Peter Post também não ajudava.

Foto: Vanderaerden vence no Champs Elysee (Tour 84), aos 22 anos idade, vestido de Campeão Belga. Orgulho nacional … mas não por muito tempo.

Ok, ninguém gosta de gente nojenta em qualquer lugar do mundo, mas você consegue imaginar os brasileiros aplaudindo o Messi e vaiando o Neymar? Não, né! Pois é, após testemunhar isto acontecer na Bélgica, dias depois, assistindo o Mundial de Chamberry, na França, ouvi de vários franceses que torciam para Lemond contra Fignon no Tour de France…bizarre, como diria um francês!

Foto: “Lemond, vive, Lemond!! Allez Lemond”… os chauvinistas franceses gostavam do simpático americano que respeitava Hinault e era fluente no idioma francês.

Ciclismo é cultura

Nesta viagem eu me confrontei pela primeira vez com a questão linguística da Bélgica. É estranho demais estar numa estação de trem a caminho de Antwerpen (para nós Antuérpia) e de repente, em outra, ver avisos para Anvers. É a mesma cidade! A primeira em flamengo e a segunda para os wallons.

Ou que tal conhecer melhor o nome do Rei Balduino (que eu citei lá em cima)? O homem tinha que ter dois nomes! Sim, para agradar os dois “times” de súditos: flamengos e valões. Para os primeiros era  Boudewijn Albert Karel Leopold Axel Marie Gustaaf van België e para os que falam francês era Baudouin Albert Charles Léopold Axel Marie Gustave de Belgique !! Único !!

E esta confusão toda é porque a Bélgica foi um país “criado” por tratados internacionais, em que, para evitar mais guerras, pegaram um pedaço de terra da Holanda (onde estão os flamengos), juntaram com outro da França (onde estão os valões) e criaram uma área (nacional) neutra. E para não ter briga entre as duas partes deste país artificialmente criado, os próprios belgas optaram por ter um Rei … neutro … de origem ALEMÃ!! Dá para imaginar termos um Rei ARGENTINO por aqui? Lá essas coisas funcionam…

Foto: Torcedor Número 1 de Eddy Merckx (sério!), o Rei que tinha o nome em duas línguas…

E para quem gosta de cerveja e chocolate, a Bélgica é o paraíso. Curiosamente, a última etapa daquela volta foi em Leuven, cidade sede da Stella Artois – hoje parte do império AB Interbrew, que é comandado pelos brasileiros da AMBEV (antiga Brahma).

Foto: chocolate/praline belga da marca Leonidas…é para comer de joelhos, orando!

Boas memórias, grandes emoções. E do que falávamos mesmo…ah, sim, de Wiggins e Merckx…

Abraços, Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
This entry was posted in Corridas - Brasil. Bookmark the permalink.

5 Responses to Fim do Dauphiné: Wiggins iguala recorde de Merckx !!

  1. Conrado says:

    Fala Fernando,

    Estou atualmente morando na Noruega, e por aqui teve uma prova pequena que contou basicamente com equipes locais e duas Pro Tour, a Lampre e a Garmin, e bem isso que vc falou. Os onibus e os carros ficaram estacionados no meio da praca principal sem nenhum super aparato de seguranca, e é claro que após perceber que a bicicleta do Murilo Fischer estava em cima de um dos carros da Garmin eu fui até o ônibus para tentar tietar, e não é que consegui, ehehehehehe…

    E realmente quando fui assistir a Paris Roubaix, existiam um milhão de cordões de seguranca e as equipes praticamente inacessíveis, eu ainda consegui uma foto com o campeão holandês por acaso, mas nada além disso.

    Abracos
    Conrado

  2. Antonio Silvestre says:

    E um prazer leer o que vc escrever SIr.
    Voce sabia que eu usava o guidao igual ao do Roger de Vla so que eu admirava muito ele ahhhhh
    Abracos

  3. Juca says:

    Aposto uma stella que o britânico não ganhará o TdF… i.e Vuelta 2011!!!! abs kkkkk

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s