Campeonatos Nacionais

Caros,

Chegamos numa daquelas datas para lá de tradicionais do nosso esporte: os Campeonatos Nacionais de ciclismo, que – desde os tempos em que os bichos falavam – acontece 1 semana antes da largada do Tour de France. Salvo no Brasil, que desde que estou no esporte (há 35 anos…) teve o formato, a data, tudo, alterado constantemente – inclusive não ter o campeonato, como já aconteceu no passado.

Aqui, nos anos 70, e parte dos 80, tínhamos o Campeonato disputado sob a forma de seleções estaduais. Eram cariocas x paulistas x catarinenses x paranaenses. Estas eram as potências daqueles tempos, com São Paulo tendo considerável vantagem…mas apenas porque Caloi e Pirelli contratavam todos os paranaenses e catarinenses que brilhassem – mais tarde vieram craques de outros estados, como Minas Gerais, Goiás, R.G.Sul etc. De uns anos para cá, o campeonato passou a ser disputado por equipes de marca e, finalmente, passou a ser corrido no mesmo domingo pré-Tour de France, como acontece na Europa e no resto do mundo. Parabéns para a CBC por ter colocado ordem na casa.

Um tema não resolvido, porém, é descobrir quem foram os nossos campeões nacionais ao longo da história. Tentei achar e não consegui. Não sou um craque em Google, mas achar os vencedores dos demais países sérios é coisa de criança. Se alguém encontrar os nossos, por favor nos envie o link.

Malha Tricolor – não sei se é óbvio para todo mundo, mas os Campeões Nacionais usam um “Maillot” especial – geralmente “Tricolor”, com as cores nacionais – ao longo dos 12 meses após o campeonato. Só não o usa direto quem vira Campeão Mundial no mesmo ano, dado que este tem muito mais prestígio.

Abaixo, Hinault de bleu-blanc-rouge, impõe seu rítmo ao holandês Hennie Kuiper (Raleigh) e ao português Joaquim Agostinho (Flandria), no seu primeiro Tour de France, em 1978.

O caso do nosso Murilo Fischer, bi-campeão brasileiro, e sua camisa-bandeira do Brasil, é uma das poucas exceções à regra, como todos sabemos. Como esta foi a primeira vez que uma camisa de Campeão Brasileiro foi utilizada no ProTour, Murilo e a Garmin a desenharam e aprovaram seu uso. Agor estou na dúvida se o próximo campeão continuará usando-a ou mudará o padrão – espero que não o façam de forma radical, pois é importante que criemos uma Camisa de Campeão Brasileiro, como têm a Bélgica, a França, a Itália, a Holanda e a Espanha.

Abaixo, a foto que eu esperei 33 anos para ver acontecer: um brasileiro num pódium Top na Europa, vestindo o nosso Maillot

O maior caso de “troca de Maillots” da história aconteceu com o belga Freddy Maertens. Acompanhe:

  • Foi Campeão Belga em Junho de 1976 e vestiu seu Maillot vermelhoamarelopreto, das cores nacionais da Bélgica
  • Veio o Tour de France e ele vestiu o Maillot Jaune no Prólogo e ao perdê-lo nas montanhas, simplesmente o trocou pelo Maillot Vert – ele liderou a Classificação por Pontos de ponta a ponta! Ah, sim, e ganhou 8 etapas (recorde histórico, junto com Merckx).
  • Em agosto, participou de diversas kermesses na Bélgica usando o Maillot Vert do Tour (por prestígio) e no final do mês ganhou o Mundial em Ostuni, na Itália. Aí passou a usar a camisa do Arco-íris (Maillot Arc-en-ciel, ou Maglia Iridata, ou Rainbow Jersey).

Os 60 dias que separaram o campeonato belga e o mundial de 1976 foram, provavelmente, o período de mais vitórias prestiosas de um ciclista na história. Só Maertens e ele, Sua Excelência, Merckx conseguiram tais feitos.

Abaixo, foto rara de Merckx com seu uniforme de campeão nacional…eu não consegui achar uma de Maertens.

Contra-relógio – existe também a camisa de campeão nacional de CRI, só que o campeão só pode usá-la nas provas desta especialidade. Reparem que no CRI do Tour de France tanto o Campeão Mundial como os Campeões Nacionais de Estrada não vestem seus Maillots nestes dias – e vice-versa. Até o ano passado era Fabian Cancellara quem largava na rampa inclinada com o Maillot Arc-en-ciel e não Evans ou Hushvod!

Abaixo, mesma prova, dois Maillots: Cancellara usa o de Campeão Suiço de Estrada em etapa em linha do Tour, mas no CRI veste o de Campeão Mundial de contra-relógio

Ainda no aspecto “Maillot” Nacional, depois que um novo ciclista o conquista, o ex-campeão tem o direito de usar umas listrinhas com as cores nacionais na barra da manga – veja a foto abaixo. Portanto, sempre que você identificar um ciclista com uma camisa assim, levemente diferente das demais da sua equipe, saiba que ele foi Campeão Nacional.

Abaixo, a manga de Robbie McEwen “denuncia” que ele foi Campeão da Austrália no passado

“Excesso de países”

Ate a queda do Muro de Berlim, na virada das décadas de 80-90, os ciclistas da antiga Cortina de Ferro não corriam no ciclismo profissional. Em outras palavras, o pelotão pro era composto, majoritariamente, por italianos, franceses, belgas, holandeses e espanhois. Estes eram acompanhados por uns poucos portugueses, britânicos, suiços, austríacos e escandinavos.

Portanto, eram poucos países e poucas camisas de campeões nacionais para identificar no pelotão. Quando as equipes tiravam fotos, cada uma delas tinha, no máximo, um campeão nacional. Depois de 1990, algumas dezenas de países novos surgiram (todos os que haviam sido encampados pela Rússia na URSS, ou pela Iugoslávia) ou simplesmente passaram a ter ciclistas correndo como profissionais.

Abaixo, a melhor equipe do mundo daqueles tempos tinha um Campeão Nacional em 1983: Johan van de Velde, campeão holandês

Sem ter a pretensão de listar todos eles, o que quero destacar é que hoje em dia as equipes do ProTour acabam tendo campeões nacionais de países como: Russia, Estônia, Lituânia, Latvia, Bielo-Russia, Ucrânia, Georgia, Cazaquistão, Usbequistão, Polônia, Hungria, Romênia, Rep.Checa, Eslováquia, Eslovênia, Servia, Croácia e muitos outros menos cotados. Por conta disso muitas fotos de apresentação de equipes são um festival de camisas de cores diferentes, pois tem campeão nacional de vários países. E graças a Deus agora tem até do Brasil!

Abaixo, olhado com atenção você encontrará campeões nacionais dos seguintes países: Luxemburgo, Suiça, Alemanha e EUA. Muito, né?! Pelo menos foram discretos no design.

Que vence um Campeonato Nacional

Rigorosamente, tem de tudo!

  • Os grandes nomes da história o venceram: Bartali, Coppi, Merckx, Hinault, Fignon, Indurain e Armstrong.
  • Fenômenos das Clássicas o venceram: Van Steenbergen, Van Looy, Maertens, De Vlaeminck, Godefroot, Musseuw, Gilbert, Boonen, Raas, Kuiper, Moser, Saronni, Argentin, Bettini, Bartoli etc.
  • Grandes escaladores puros o venceram: Pollentier, Van Impe, Criquielion, Thévenet, Poulidor, Zoetemelk, Winnen, Bugno, Bahamontes, Julio Jimenez, “El Chaba” Jimenez, “Purito” Rodrigues e todos os demais espanhois!
  • Até sprinters o venceram: Steels, Nelissen, Darrigade, Gavazzi, Cippolini, Jalabert (quando era sprinter!). Chamou a minha atenção que num país tão plano como a Holanda não termos sprinters vencendo o Nacional (um Van Poppel ou um Blijlevens). Sem surpresa não termos nenhum espanhol listado aqui…

Abaixo, uma foto rara: um improvável e veterano Lucien van Impe bate o muito mais veloz e mais jovem Marc Sergeant no “Belgão 1983”

E também uma infinidade de “apenas” bons ciclistas venceram os Nacionais dos diversos países. Mas uma coisa curiosa é o fato de termos alguns ciclistas que são verdadeiros especialistas no seu campeonato nacional.

Vamos aos principais casos:

  • Bélgica – o super sprinter Tom Steels venceu 4 vezes, fato raríssimo nos tempos modernos para qualquer país. Steels chegava no Nacional no auge da forma, pois entrava no Tour de France para ganhar muitas etapas. E como aguentava bem os “bergs” dos Flandres venceu em vários terrenos, apesar de ser rotulado como sprinter. Eu o conheci na Paris-Nice 1997 e ele foi muito simpático. Depois de Steels vem a fera dos anos 50 Rik van Steenbergen (Rik I) com suas 3 vitórias e os ótimos Rik van Looy (Rik II), Pollentier, Musseuw, Godefroot, De Vlaeminck e o mais jovem deles, Stijn Devolder, com 2. Vale destacar uma vitória de pai e filho no Nacional belga, cortesia da família Merckx…Eddy pai e Axel filho venceram o título nacional uma vez cada!
  • Holanda – o “Holandesão” tem uma peculiaridade: como históricamente quase sempre teve uma única equipe dominante (Raleigh, Panasonic e mais recentemente a Rabobank), o campeão nacional tende a sair de uma dessas. Não é a toa que Jan Raas (Raleigh) e Michael Boogerd (Rabobank) venceram o Nacional 3 vezes cada.
  • Itália – aqui está um Campeonato em que os grandes ídolos e outros nem tanto o venceram muitas vezes. Não dúvida que este é o campeonato mais disputado e cercado de polêmica, graças a rivalidade entre os campionissimi. Por exemplo, é o único país em que os seus maiores ciclistas o venceram múltiplas vezes: Girardengo (9x), Guerra (5x), Binda (4x), Bartali (4x, num intervalo de enormes 17 anos entre o primeiro e o último) e Coppi (4x). Nos anos 70 e 80, Paolini, Moser e Gavazzi venceram o “Tricolore” 3x. Atualmente, o piemontês Giovanni Visconti, da Movistar, também já o venceu 3x e mantém esta tradição tão italiana.
  • Espanha – a tradição aqui é…não haver tradição ou padrão algum. A maioria dos bons espanhois venceu o Nacional e poucos duas vezes. O fato de Freire nunca haver vencido-o, apesar de sempre estar em forma no mês de julho, denuncia que a Real Federação Espanhola “capricha” nos circuitos, feitos para não-sprinters. Curiosidade: o primeiro vencedor do Campeonato Espanhol foi um…PORTUGUÊS, em 1897: José Pessoa. Talvez tivessem feito um campeonato ibérico ou o português corresse na Espanha e naquela época isso fosse permitido.
  • França – como no caso espanhol, todos os bons e vários não tão bons faturaram “le maillot tricolore”. Destaque total para o descendente de poloneses Jean Stablinski, que venceu 4x. Além disso, foi Campeão Mundial em 1962 (quando eu nasci) e La Vuelta a España em 1958.

Abaixo, Tom Steels exibe sua potência no Tour de France vestido de Campeão Belga…Zabel (à esquerda, vestido de Campeão Alemão) e McEwen (de Rabobank) não tiveram chance.

Abaixo, Francesco Moser, o campionissimo tricolore, que amava a Paris-Roubaix e o seu Nacional: venceu 3 vezes cada uma delasAbaixo, o poster diz tudo: Jan Raas, Rei das Clássicas (em holandês)…e do Campeonato Holandês também.

Enfim, isto foi um pouco da história desta corrida tão tradicional do nosso esporte. Agora é torcer para o seu ciclista favorito em cada país neste domingo! Eu aposto numa briga boa entre Boonen e Gilbert na Bélgica…e você?

Abraços, Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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One Response to Campeonatos Nacionais

  1. Nikolai says:

    Fantastico! Adorei a reportagem!

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