Do You Speak English?

Amigos,

Acabou o Tour de France – que eu comentei e palpitei muito no Facebook e pouco aqui – e já estamos às portas das provas de ciclismo dos Jogos Olímpicos de Londres.

Juntando uma coisa com a outra veio o título deste post: “Você fala inglês?”. Por que?

Porque os anglo-saxões (americanos, australianos e ingleses) estão dominando o esporte e destronando as nações tradicionais (França, Bélgica, Itália, Espanha e Holanda). Algumas observações:

1. Tour de France – além das 7 vitórias de Lance Armstrong (1999-2006), as duas últimas foram de Cadel Evans (Austrália) e Bradley Wiggins (Inglaterra), com o fortíssimo Chris Fromme em 2o. E no Giro d’Italia tivemos a surpresa da década com a vitória de Ryder Hesjedal, do Canadá (foto)!

2. Nos Mundiais, tivemos Mark Cavendish (Inglaterra) ano passado e Cadel Evans (Austrália) em 2009.

3. Nos sprints temos de novo Cavendish como o grande nome e Matt Goss (Austrália) como um dos melhores – este é o atual vice-campeão mundial e venceu a Milano-San Remo de 2011. E até recentemente outro australiano brilhava forte nos sprints: Robbie McEwen (3x Maillot Vert), na foto abaixo.

4. Equipes – no passado, ciclista de língua inglesa que se profissionalizava tinha que correr em equipe européia. Hoje em dia não! Grandes equipes são montadas por lá mesmo, vide USPS (Estados Unidos – que virou Discovery Channel [foto] e depois RadioSchak), a australiana Orica-GreenEdge e a nova sensação britânica Sky (que levou o Maillot Jaune e o segundo lugar no pódio).

A última vez que tivemos dois ciclistas da mesma equipe fazendo esta festa foi no triênio 1984 (1o Fignon e 3o Lemond, pela Renault-Elf Gitanes), 1985 (1o Hinault e 2o Lemond, pela La Vie Claire) e 1986 (1o Lemond e 2o Hinault pela mesma equipe).

Tour 1985 – Que podium: (esq. para dir.):
Fabio Parra (COL) – Melhor Jovem
Rudy Matthijs (BEL) – vencedor da etapa final
Jef Lieckens (BEL) – Líder Metas Volantes (Camisa Vermelha)
Lucho Herrera (COL) – Rei da Montanha
Bernard Hinault (FRA) – Vencedor, Camisa Amarela
Greg Lemond (EUA) – Classificação Combinada (2o lugar)
Sean Kelly (IRL) – Camisa Verde
 

5. Jogos Olímpicos – todo mundo diz que o circuito londrino foi feito para Cavendish. É bem possível. Por outro lado, esta é uma região da Inglaterra que não tem muita subida mesmo. Não que tentassem conseguiriam fazer uma prova para um montanheiro. Enfim , ele é o favorito. E se os 250 km subindo Box Hill foram pesados demais para ele, o australiano Matt Goss será o grande favorito (junto com Tom Boonen, na minha opinião).

6. Clássicas – este é um terreno em que os anglo-saxões ainda não brilharam com consistência. As vitórias australianas na Milano-San Remo em 2011 (Goss) e 2012 (Simon Gerrans), e na Flèche Wallone (Evans, 2010 – foto) não são suficientemente fortes para se falar em dominação. Mas indicam que estes ciclistas e suas equipes não estão lá a passeio.

Anos 80

A geração de Lance Armstrong (e de todos estes craques que comentei acima) é herdeira de alguns campeões anglo-saxões que brilharam há 25-30 anos atrás. Foram eles:

  • Greg Lemond (EUA) – 3 Tour de France, 2x Campeão Mundial, 1 Dauphinè Libèrè
  • Stephen Roche (Irlanda) – 1 Tour de France, 1 Giro d’Italia, 1x Campeão Mundial [foto](todas no mesmo ano!), 1 Paris-Nice, 1 Tour de Romandie
  • Sean Kelly (Irlanda) – 1 Vuela a España,  2 Tour de Suisse, 7 Paris-Nice, 2 Paris-Roubaix, 2 Liège-Bastogne-Liège, 2 Milano-San Remo, 3 Giro di Lombardia, 1 Gent-Wevelgen, 4x Maillot Vert (Tour de France)
  • Phil Anderson – 1 Tour de Suisse, 1 Tour de Romandie, 1 Dauphinè Libèrè, 1 Paris-Tours, 1 Amstel Gold Race, 1 Ch. de Zurich, 2 GP Frankfurt, mais 5x Top 10 do Tour de France (Foto, Tour 1981)

Como deu para notar, todos verdadeiros gigantes da história do ciclismo. Mas NENHUM deles correu por uma equipe do seu país. Também não tinham um grupo de conterrâneos à sua disposição. Eles tinham era que vencer o preconceito por falarem inglês e conquistar o respeito dos colegas e patrões na estrada…com vitórias.

Motivos

Eu vejo a coisa da seguinte forma:

  • Decadência da Europa continental: eu costumo dizer que as grandes nações europeias tornaram-se preguiçosas, em função das políticas sócio-econômicas dos seus governos. Faltou inovar, faltou romper com antigos padrões de comportamento. Em tudo, e também no ciclismo.
  • Planejamento e obstinação anglo-saxã: quando estes povos decidem fazer algo sempre fazem bem feito, porque não poupam esforços, têm muito método e inovam. O ciclismo australiano era inexistente há apenas 20 anos…e o britânico há apenas 10. O americano é mais errático, mas quando apostam vencem.

O futuro próximo

Não é preciso muita pesquisa para se concluir que o futuro é belo para a trinca EUA-Reino Unido-Austrália. Alguns nomes saltam aos olhos:

  • Grand Tours – o britânico Chris Fromme, de 27 anos, parece o mais certo candidato a Rei dos Grand Tours. E tem o jovem americano Tejay van Garderen, de 23 anos (5o do Tour 2011 e Maillot Blanc de melhor sub-25, 5o da Paris-Nice 2011).
  • Rolador – Taylor Phinney é a fera da Perseguição Individual, tem apenas 22 anos e já venceu uma dúzia de títulos Mundiais e Americanos sub-23, além de diversos Prólogos (incluindo o do Giro 2011). E duas Paris-Roubaix sub-23…o menino tem jeito para corredor de pavé também! Eu não tenho dúvida que será o sucesso de Fabian Cancellara em apenas dois anos.

Onde a coisa pega mesmo para a turma que speak English é nas Clássicas. Ainda não surgiu um sucessor aparente para Sean Kelly (foto, Tour de France). A razão, para mim, é simples: para estes países o que conta mesmo é o Tour de France. As equipes e os ciclistas querem mesmo é vencer no Hexágono francês, de preferência a Classificação Geral. Mas serve também etapas ou as demais classificações.  E as Clássicas? Deixa para belgas e italianos!

Então, Do You Speak English?

Thanks + best regards,

Fernando

About Fernando Blanco

Apaixonado por ciclismo há mais de 30 anos, começou a pedalar em 1977 em Santos, tendo corrido para valer até os 20 anos de idade, quando coisas 'banais' como faculdade, carreira executiva, casamentos e filhos atrapalharam um pouco...agora, como Senior B, está treinando forte e pretende compensar o tempo perdido. Como ciclista foi um bom sprinter, chegando à pré-convocação da Seleção Brasileiros de Juniores em 1979. Se a carreira como ciclista não foi grande coisa, a coleção de revistas locais e internacionais (mais de 1.000) e de videos/DVDs (mais de 100) proveram bastante cultura sobre o ciclismo profissional. Provas internacionais acompanhadas ao vivo: Mundial de Estrada ('07), Mundial de Pista ('89), Tour de France ('97 e '02), Liège-Bastogne-Liège e Flèche Wallone (ambas em '92), Paris-Nice ('97), Ronde van Belgie (´89).
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6 Responses to Do You Speak English?

  1. George Panara says:

    O trabalho da Austrália merece ser muito bem estudado, eles se prepararam para os Jogos de Sydney em 2000 – aí estão os mais de 20 anos que você comentou em seu texto – os trabalhos para a pista se iniciaram com muita antecedência e envolvia equipes de profissionais multidisciplinares – coisa séria , não havia marketing por trás, era sim um trabalho para produzir e descobrir desportistas de alto nível.. O Brasil está a 4 anos dos Jogos do Rio com vaga garantida em todas as modalidades, mas sem velódromo coberto e com piso “rápido” para obtenção de tempo para a preparação dos ciclistas. Com menos de 4 anos para o evento é praticamente impossível desenvolver um trabalho que coloque nossos ciclistas entre os top10 dos Jogos. Querem outro exemplo: no BMX a Argentina e a Colômbia já tem pistas de nível olímpico, o Brasil ainda pensa em construir uma… fica claro que há algo errado, não adianta jogar o peso dessa responsabilidade nas costas ou nas bicicletas desses esportistas. Ou mudam as cabeças que comandam o esporte ou teremos de torcer para que milagres aconteçam e apareçam fenômenos para repetir os feitos de Anésio Argenton (5º na velocidade em Roma/60) e Clovis Anderson (10º Km em Seul/88) e ao menos tentar igualar os nossos vizinhos argentinos e uruguaios com medalhas obtidas já no moderno ciclismo olímpico (aquele aberto a participação dos ciclistas profissionais).

  2. Della Giustina, milton says:

    Enquanto a “lei de gerson” continuar vigorando no Brasil, salvo milagres individais, a unica coisa que ira crescer será o “patrimonio” dos dirigenes envolvidos…
    Della

  3. Juca says:

    King kelly e Stephen Roche de anglo-saxões? te pago uma Guinness se eles gostarem! kkkk abs

  4. Mateos says:

    Comentem sobre a polêmica do Armstrong!
    Sempre dou uma olhada aqui no blog e gostaria de saber a opinião de vocês sobre o assunto sobre um dos maiores, se não o (ex) maior, ciclista de todos os tempos:
    Aqui li uma crítica legal:
    http://entrandonojogo.com.br/polemicas-de-heroi-a-vilao/

  5. Rui Quinta says:

    Olá, Fernando!

    Parabéns pelo seu excelente blog!

    Sou português, blogueiro e gostaria de trocar uma ideia com você. Enviei e-mail mas não sei se recebeu. Se não recebeu, por favor me envie o seu contacto para o meu e-mail (que eu estou colocando neste comentário). Fico aguardando.

    Abraço,
    Rui

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